O QUE FAZER COM TANTOS ELEFANTES?

O QUE FAZER COM TANTOS ELEFANTES?

Herton Escobar

31 Outubro 2011 | 14h35

 

O problema mais grave do conflito entre seres humanos e elefantes no Sri Lanka é que parece não haver solução simples ou definitiva para ele. Seja qual for o caminho escolhido para lidar com a situação, porém, é certo que ele passará por algumas decisões difíceis. Entre elas, a mais básica e mais complicada de todas: O que fazer com tantos elefantes?

O cenário está posto: A população do Sri Lanka dobrou nos últimos 50 anos, de 10 milhões de habitantes na década de 1960 para mais de 20 milhões, hoje. Com o fim de uma guerra civil que durou 30 anos, em 2009, é provável que ela continuará a crescer. E para onde quer que cresça, vai trombar com elefantes. Estima-se que dois terços dos elefantes selvagens do país vivem “soltos” na natureza, fora de unidades de conservação. Cerca de 12% do território nacional já é ocupado por parques dedicados a esses animais. Não há espaço para a criação de novas áreas protegidas, e, mesmo que houvesse, os elefantes não aceitam ser mudados de lugar.

Em resumo: Ou os humanos encontram uma maneira de conviver com os elefantes, ou uma das espécies terá de recuar. “Não há mais hábitat vago no Sri Lanka. Todo lugar tem gente, todo lugar tem elefantes”, diz o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka. “Os parques nacionais são suficientes para abrigar só um terço da população de elefantes. Se quisermos restringir os animais a esses parques, vamos fazer o que com os outros dois terços?”

A resposta mais radical seria sacrificar elefantes para reduzir sua densidade populacional em áreas críticas de conflito. Algo que parece absurdo, especialmente tratando-se de uma espécie ameaçada de extinção, mas já está acontecendo, de maneira muito mais cruel, à medida que elefantes são mortos ilegalmente por agricultores ou morrem de fome após serem transferidos à força para unidades de conservação.

“Estamos gastando uma quantidade gigantesca de dinheiro para cercar elefantes e condená-los à morte”, diz o pesquisador Devaka Weerakoon, da Universidade de Colombo. “Se é para fazer isso, melhor sacrificá-los. Seria uma morte menos cruel, pelo menos.”

Não é o que os pesquisadores desejam. Nem é algo que seria aceito pela população. Por mais grave que seja o conflito, o elefante é um animal adorado no Sri Lanka, de grande importância cultural e religiosa. Os mesmos agricultores que envenenam ou atiram nos elefantes que invadem suas plantações fazem de tudo para ajudar um elefante que esteja machucado ou que tenham caído num poço, por exemplo. Também são os primeiros a reconhecer que são os humanos que estão invadindo o território dos elefantes, e não o contrário.

A longo prazo, dizem os especialistas, a maneira mais sensata de mediar o conflito será pelo zoneamento e ordenamento territorial, definindo áreas onde seres humanos e elefantes devem viver separados e onde as duas espécies precisam aprender a viver juntas. Uma solução complexa e difícil de ser implementada. Mas talvez a única alternativa a matar elefantes.

“Não temos mais espaço para áreas protegidas exclusivas para animais. Mas temos bastante espaço para o planejamento de áreas mistas”, diz a bióloga Manori Gunawardena, uma das cientistas mais engajadas na conservação de elefantes do Sri Lanka.

A localização dos parques atuais foi escolhida entre as décadas de 1960 e 1980, quando ainda pensava-se que os elefantes eram animais puramente florestais. Consequentemente, os parques foram criados em áreas de florestas. “O que foi ótimo para muitas espécies, mas não para os elefantes”, diz Manori. O hábitat ideal para os elefantes, diz ela, é um misto de florestas, onde eles podem se refugiar durante o dia, e áreas de vegetação mais esparsa, coberta de grama e arbustos, onde eles podem se alimentar durante a noite.

É por isso que as áreas de agricultura rotativa, ou “chena”, são tão atraentes para os elefantes, que podem se alimentar da vegetação secundária que brota nos campos que não estão sob cultivo em determinados anos. A prática de chena é ilegal no Sri Lanka (apesar de amplamente praticada), mas pesquisadores querem regularizá-la, para servir como um “meio campo” de convivência entre homens e elefantes.

Cercas elétricas fazem parte da solução, para estabelecer limites, mas têm de ser colocadas nos lugares certos, ressaltam os pesquisadores. No lugar errado, podem trazer mais problemas do que soluções. No Parque Nacional de Yala, por exemplo, elas impedem o acesso dos elefantes nos períodos de seca a áreas importantes de alimentação que ficam fora do parque. “Elefantes não entendem fronteiras administrativas, só entendem fronteiras ecológicas”, diz Weerakoon. “Estamos pensando apenas como seres humanos. Temos de pensar também como elefantes.”

Inevitavelmente, diz Fernando, as pessoas terão de aprender e se acostumar a conviver com elefantes. Muitas das mortes associadas ao conflito, segundo ele, não são causadas por ataques deliberados, mas por acidentes em que pessoas trombam com os animais, caminhando, dirigindo ou andando de bicicleta à noite sem lanternas. Ou por guardarem grãos dentro de casa, que atraem os elefantes.

“As pessoas não aceitam dividir espaço com os elefantes, por isso não tomam algumas precauções básicas para se proteger”, diz ele. “Se você ocupa uma terra onde vivem elefantes, tem de entender que haverá consequências. Se as pessoas aceitassem isso, tudo ficaria mais simples.”

Eventuais remoções de elefantes, segundo ele, devem ser focadas nos machos individuais que causam os conflitos, e não na manada inteira.

No curto prazo, cada vila e cada agricultor lida com o conflito da maneira como pode. Quem tem dinheiro, coloca uma cerca elétrica em volta da sua propriedade. Quem não tem, dorme em cima das árvores e tenta afugentar os bichos com tiros de rojão, ou de espingardas. Mais sagrado ainda do que um elefante é uma safra de arroz.

 

NÚMERO EXATO DE ELEFANTES É DESCONHECIDO

Ninguém sabe ao certo quantos elefantes selvagens há no Sri Lanka. E talvez seja melhor não saber mesmo, segundo alguns pesquisadores.

O levantamento mais recente, conduzido em agosto pelo Departamento de Conservação da Vida Selvagem do Sri Lanka, contou 5.879 elefantes selvagens no país, dos quais 987 são machos e apenas 122 (2%) têm presas (os chamados “tuskers”). O resultado, porém, é contestado por especialistas de fora do governo, que questionam tanto a metodologia quanto o propósito do censo.

Dezenas de cientistas e ambientalistas se recusaram a participar do estudo depois que o ministro de Vida Selvagem, S.M. Chandrasena, deu uma entrevista sugerindo que 300 elefantes seriam selecionados por meio de censo para serem capturados, domesticados e doados a templos budistas. Assim, o levantamento acabou sendo feito em grande parte por voluntários menos qualificados, como fazendeiros e soldados, em três dias de observação.

Para pesquisadores, o resultado é pouco confiável, pois é baseado numa metodologia simplista de observar elefantes ao redor de lagos e poças d´água (“water hole count”, em inglês). É muito provável que vários elefantes tenham sido contados mais de uma vez, assim como muitos elefantes podem não ter sido contados nenhuma vez. A margem de erro é grande.

“Na África você pode contar elefantes usando uma imagem de satélite. Aqui é muito mais difícil”, diz o pesquisador Devaka Weerakoon, da Universidade de Colombo. Apesar do tamanho, os elefantes são capazes de se movimentar com extrema agilidade e em silêncio por vegetação densa. “Eles podem estar a 5 metros de distância e você não vai ver nem ouvir nada.”

Seja como for, o número exato pouco importa para os pesquisadores. “Não precisamos saber quantos elefantes existem, a não ser que estejamos prontos para tomar alguma decisão com relação a isso”, argumenta Weerakoon. “Caso contrário, é só uma curiosidade, sem nenhuma aplicação prática.”

Em outras palavras: Cinco mil elefantes é muito, ou é pouco? E se é muito, o que fazer com o “excesso”? “Não acho que o governo nem a sociedade estejam preparados para responder isso”, diz Weerakoon.

A avaliação geral é de que há mais de cinco mil elefantes selvagens no Sri Lanka. O direto do Departamento de Conservação da Vida Selvagem, H.D. Ratnayake, disse ao anunciar os resultados que a população da espécie está “saudável e crescendo”. Outros especialistas, porém, relutam em fazer essa afirmação.

“Não digo que está saudável, nem que está doente”,  diz Srilal Miththapala, consultor do setor de turismo, que estuda a situação dos elefantes do país há vários anos. “Simplesmente não sabemos. As incertezas são muito grandes.”

“O que sabemos com certeza é que a quantidade de hábitat disponível para esses elefantes encolheu e continua a encolher rapidamente”, diz o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka. “Isso é o que mais importa.”

O ministro mais tarde fez uma retratação e disse que foi mal interpretado pela mídia. Nenhum elefante foi capturado.