OCEANO PLASTIFICADO

OCEANO PLASTIFICADO

Herton Escobar

16 Maio 2011 | 12h02

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Imagine só: Qual seria sua reação se você chegasse a uma praia deserta, isolada, e encontrasse a areia cheia de lixo?

Foi o que aconteceu comigo recentemente, numa praia distante da costa leste de Bonaire, chamada Playa Chikitu, acessível apenas por uma muito chacoalhenta estrada de terra. O lugar é maravilhoso, com ondas grandes de água azul turquesa quebrando por entre paredões de rochas coralinas. E está quase sempre vazio, a não ser por um ou outro turista que chega perto para tirar fotos da placa vermelha que diz “Cuidado: Ondas e correntes muito perigosas” (e por um ou outro brasileiro que ignora o aviso e entra na água assim mesmo). Só uma coisa destoa da paisagem, como você pode ver na foto acima: uma quantidade imensa de lixo plástico na areia. Garrafas de água, de óleo de motor, tampinhas aos montes, baldes, sandálias, sapatos, sacolas, pedaços de carrinho de bebê e outras coisas mais, tipo camisinhas. Até algumas garrafas de vidro eu encontrei.

Seria fácil ligar para o governo local e fazer uma reclamação. Mas, infelizmente, o problema é mais complexo do que isso. Na verdade, nada daquele lixo é de Bonaire. É tudo lixo “importado”, trazido pelas correntes marítimas de outros lugares – principalmente da Venezuela, que está a menos de 100 quilômetros de distância da ilha. Você pode limpar a praia todos os dias, que todo dia chegará mais lixo. Alguém na Venezuela joga uma garrafa no mar hoje e algum tempo depois (dias, semanas, meses ou até anos depois) ela vai encalhar em alguma praia de Bonaire, ou de Curaçao, ou qualquer outra ilha “paradisíaca” do Caribe. De fato, toda a costa leste de Bonaire está cheia de lixo plástico trazido pelas correntes. Uma tristeza.

Lembro-me do primeiro mergulho que fiz daquele lado da ilha. Logo no início encontrei uma garrafa PET no fundo, em meio aos corais, e logo a recolhi e a coloquei no bolso do meu colete. Ao longo do mergulho, porém, acabei vendo tantas outras garrafas que fiquei desanimado e larguei a garrafa inicial lá mesmo, debaixo d’água. Parecia inútil carregar uma para fora e deixar tantas outras para trás.

O problema não é exclusivo do Caribe, muito menos de Bonaire. Todos os oceanos do planeta estão cheios de lixo – especialmente plástico. Tanto na superfície quanto no fundo, e até misturado na água, em forma particulada (microplásticos). São os chamados “marine debris”, ou detritos marinhos, em inglês. É aquela sacolinha plástica ou garrafinha de água que você um dia esqueceu na praia ou jogou pela janela do carro, e que pareceu “desaparecer” da face da Terra … mas não desapareceu coisa nenhuma. Desapareceu da sua vista, sim, mas não deixou de existir, não. Ela está por aí, em algum lugar, boiando no meio do oceano ou encalhada em alguma praia distante. Ou pior: no estômago de alguma tartaruga morta, que a engoliu pensando ser uma água-viva ou coisa parecida.

Uma garrafinha aqui e um chinelinho ali parecem não fazer muita diferença num espaço do tamanho do oceano. Mas lembre-se que o planeta tem 6 bilhões de pessoas (e uns quebrados), e uma grande parte delas, infelizmente, ainda não se dá ao trabalho de jogar o lixo no lixo. Somando tudo, uma garrafinha aqui mais um chinelinho ali acaba fazendo, sim, muita diferença. De grão em grão a galinha enche o papo, e de garrafa em garrafa o oceano se enche de plástico.

Não dá para dizer exatamente quanto lixo está “perdido”  no oceano … mas é certo que é muito. Menos de dois meses atrás o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma, ou Unep, em inglês) e a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) dos Estados Unidos promoveram em Honolulu, no Havaí, a 5ª Conferência Internacional sobre Detritos Marinhos, com a participação de especialistas de 38 países. Eles concordaram em produzir um documento, chamado Estratégia de Honolulu, contendo um plano de ação internacional para reduzir a produção e o impacto de detritos marinhos nos próximos dez anos.

O site oficial da conferência tem apenas um

Documento

  • rascunho do documento, que deveria ser finalizado após a conclusão do evento … espero que logo … Mas vasculhando um pouco esse rascunho encontrei alguns números interessantes. Por exemplo: Segundo dados compilados pela organização Ocean Conservancy   PDF
, cerca de 3 milhões de toneladas de detritos foram recolhidos em 2009, em 104 países que participaram de um evento anual de limpeza promovido pela ONG. Só para dar uma ideia do volume.

Mas vamos deixar os números de lado … A mensagem mais importante aqui é entender que um produto plástico leva no mínimo 100 anos para se desintegrar na natureza. Todas as garrafas, sacolas e embalagens plásticas que você já consumiu na sua vida, portanto, ainda estão por aí, em algum lugar. Elas não desapareceram! Com a exceção de uma pequena porcentagem que é reciclada (21% no Brasil, segundo dados do Cempre), estão todas esmagadas por aí em algum aterro sanitário, ou em algum lixão clandestino, ou jogadas no meio do mato, entaladas em algum bueiro da cidade, boiando em algum rio, perdidas no oceano ou encalhadas em alguma praia distante.  Imagine só! Aquela garrafa de refrigerante que você comprou para o aniversário do seu filho 10 anos atrás ainda está por aí em algum lugar.

Aqui nos Estados Unidos, onde estou agora, algumas marcas de água mineral estão comercializando garrafas feitas de plástico mais fino e com tampinhas menores. O rótulo diz que são “garrafas verdes”, ambientalmente mais amigáveis, já que contêm menos plástico. Ok, acho bom que façam isso, mas se é por consciência ambiental ou por redução de custos, não sei … Ter responsabilidade ambiental é fácil quando é mais barato. Quero ver essa mesma responsabilidade quando é preciso enfiar a mão no bolso (para tirar dinheiro, e não para guardar).

Na semana passada tivemos uma notícia ótima, de que o governo de São Paulo assinou um acordo com a Associação Paulista de Supermercados para acabar com o uso de sacolas plásticas em supermercados até 2012. O mercado em que eu fazia compras em Bonaire não oferecia sacolinhas e isso não era problema nenhum … Eles simplesmente colocavam à disposição dos clientes as caixas de papelão vazias do estoque, nas quais chegavam as mercadorias. Um ótimo exemplo de reaproveitamento de recursos! O supermercado se livrava de toneladas de lixo de papelão, os clientes tinham uma maneira prática de empacotar suas compras, e todo mundo saia ganhando no final – especialmente o meio ambiente. (Como segunda opção, os clientes podiam comprar sacolas reutilizáveis do supermercado, ou trazer as próprias sacolas de casa, claro.)

Por fim, só quero deixar claro que não sou “contra os plásticos”. Não acho que eles devam ser banidos do planeta nem ignoro o fato de que eles são extremamente úteis e necessários em uma infinidade de aplicações. Estou apenas dizendo que devemos ser mais conscientes com o nosso consumo e mais responsáveis na maneira como lidamos com o nosso lixo.

Abraços a todos.