ORGULHO DE SER VIRA-LATA

ORGULHO DE SER VIRA-LATA

Herton Escobar

25 Novembro 2009 | 16h34


FOTO: Eduardo Nicolau/AE

Poucos temas em ciência podem ser chamados de tabu.
A existência de raças humanas é um deles.

Pois é justamente sobre isso que vou escrever hoje, na semana em que se comemora o aniversário de 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, por Charles Darwin (em 24 de novembro de 1859).

Imagine só: Há mais de 6 bilhões de pessoas vivendo sobre o planeta hoje, e nenhuma delas é igual a outra. Ao mesmo tempo, porém, somos todos muito parecidos. Somos todos seres humanos, todos membros de uma mesma espécie, Homo sapiens, não importa o quão diferentes possamos parecer do lado de fora. Brancos, negros, amarelos, baixinhos, gordinhos, altos, magros, loiras, morenas … não importa. As diferenças são puramente superficiais. Por dentro, em nossa estrutura óssea, nossos órgãos vitais, nossas células e nosso DNA, somos todos, inegavelmente, Homo sapiens.

Dito isso, onde é que entra a tal discussão das raças?
Pois então … por mais que as diferenças sejam superficiais, não há como negar que elas existem. (Ainda bem! Já pensou se todo mundo fosse igual? Seria uma chatice.)

Mas qual é a importância dessas diferenças? Vale a pena prestar atenção nelas, do ponto de vista científico?

Imagine, por exemplo, se um biólogo alienígena descesse à Terra para coletar alguns exemplares da espécie humana e levá-los de volta para o seu zoológico em outro planeta. Que tipo de pessoa ele deveria coletar? Quem seria o melhor representante da espécie humana? A Gisele Bundchen? A Taís Araújo? O Shaquille O’neal? O Ronaldinho Gaúcho? O Kaká? Um pigmeu africano? Um aborígene australiano? Um índio da Amazônia? Um corredor de maratona? Ou um lutador de sumô?

A resposta certa é: Qualquer um serve! Qualquer um deles é tão Homo sapiens quanto o outro. Essa é uma das maravilhas da nossa espécie: a diversidade.

Para entender isso é preciso uma rápida revisão (super resumida) sobre genética evolutiva, seleção natural e migrações humanas.

Capítulo 1: A espécie Homo sapiens se desenvolve na África, cerca de 200 mil anos atrás. No início somos todos negros, porque a pele escura proporciona melhor proteção contra a radiação solar e aumenta a chance de sobrevivência dos indivíduos com mais melanina (naquela época ainda não tinha Coppertone).

Capítulo 2: A população da espécie aumenta e grupos de Homo sapiens começam a migrar para outros continentes. À medida que mudam as condições ambientais, mudam também as características que são selecionadas pela seleção natural. Na Europa, por exemplo, onde a exposição à radiação solar é muito mais limitada do que na África, a pele escura deixa de ser vantajosa. Os indivíduos com maior chance de sobrevivência são aqueles de pele mais clara, que conseguem aproveitar melhor a luz do sol disponível para produção de vitamina D e outras coisas essenciais ao organismo.

Capítulo 3: Milhares de anos de adaptação a diferentes condições ambientais em diferentes regiões do planeta dá origem a diversos “tipos” (raças?) de Homo sapiens, que são o que hoje chamamos de brancos, negros, amarelos, etc.

Ok … então qual é o grande problema em falar em raças humanas? Os cachorros e os gatos domésticos também são todos membros de uma mesma espécie (Canis lupus familiaris e Felis catus, respectivamente) e não temos o menor problema em classificá-los em raças.

O problema principal nos humanos é que essa palavra tem uma bagagem social muito forte. Uma bagagem “racista”, para ser mais exato. Tão pesada que é quase impossível falar na existência de raças sem ser acusado de racista. Infelizmente, sempre vai ter alguém que vai tentar usar essas diferenças superficiais para dizer que uma raça é melhor do que a outra (como já foi feito várias vezes no passado, com resultados desastrosos).

Algo que, como eu tentei mostrar no início deste texto, não faz o menor sentido.

Quando leio sobre isso e converso com cientistas sobre o assunto, percebo três linhas de pensamento: Há aqueles que acham que não existem raças (porque as diferenças são tão supérfluas que não faz sentido cientificamente essa classificação). Há aqueles que acham que existem raças e que essas diferenças devem ser estudadas para fins “pacíficos”, digamos assim (para saber, por exemplo, se determinadas raças têm propensões diferentes a doenças e respondem de forma diferente a tratamentos específicos). E há aqueles que acham que existem raças, mas melhor deixar isso quieto porque só serve para criar confusão. É aí que a coisa virou tabu.

Um ponto de vista que me parece bem razoável, que ouvi recentemente de um pesquisador, é que já existiram raças, sim, mas que elas desapareceram (ou estão desaparecendo) pela miscigenação crescente das culturas e das populações mundiais.

Veja o caso do Brasil! Aqui não faz o menor sentido falar em raças. O brasileiro é uma mistura de tudo. De branco, de negro, de índio, de amarelo, de português, de espanhol, de africano, de holandês, de alemão, de italiano, de árabe, de judeu e por aí vai … Somos todos um bando de vira-latas raciais e culturais! Com muito orgulho! (pelo menos da minha parte)

Pensando bem, talvez o brasileiro seja o melhor espécime de zoológico para o nosso biólogo alienígena…. Alguém se habilita?

Abraços a todos, e desculpem pelo post tão longo.