PEIXE-LEÃO, O TERROR DO CARIBE

PEIXE-LEÃO, O TERROR DO CARIBE

Herton Escobar

03 Dezembro 2010 | 11h53

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BONAIRE, ANTILHAS HOLANDESAS, CARIBE – 3/12/2010

Quando estive em Bonaire pela primeira vez, em outubro de 2009, pensei ter visto um filhote de peixe-leão em um dos meus mergulhos. Quando saí da água comentei com alguns outros mergulhadores e eles riram um pouco, e disseram: “Se era mesmo um peixe-leão, deveria tê-lo matado.” Confesso que não entendi o comentário e deixei pra lá … mas fiquei com aquilo na cabeça e fui investigar.

Agora, um ano depois, estou de volta a Bonaire e tenho certeza de que o peixe que vi era, de fato, um filhote de peixe-leão. E que eu, de fato, deveria tê-lo matado.


O problema é o seguinte: O peixe-leão não é nativo do Caribe. Ele é uma espécie do Indopacífico (região da Indonésia e Filipinas, onde as águas dos Oceanos Índico e Pacífico se encontram), e o fato de estar aparecendo por aqui, do outro lado do mundo, é extremamente preocupante. Por uma razão muito simples: o peixe-leão é um predador voraz, dominante, que come tudo o que encontra pela frente e se reproduz com uma velocidade incrível. No seu hábitat original, ele tem seus próprios predadores e vive em equilíbrio com o resto das espécies. Aqui, ele é o “peixe mais odiado dos mares”, nas palavras de Garry Brenner, um mergulhador de Nova York que carrega no cartão de visitas o título de “Lion Fish Hunter” (caçador de peixes-leão).

Para se ter uma ideia, um único peixe-leão é capaz de comer, em 5 semanas, 80% de todos os organismos que vivem em 1 hectare de recife de coral. Peixes, ouriços, crustáceos … qualquer coisa que couber na boca. Se forem 2 peixes-leão, eles comerão tudo em apenas 3 semanas, segundo Tal Bixby, presidente da empresa Reef Protection Inc., que inventou uma “arma” especificamente projetada para matar peixes-leão (uma espécie de arpão-tridente acionado por uma mola, muito fácil de usar).

Por coincidência, no dia em que cheguei aqui, Garry e Tal estavam dando a primeira aula de um curso para ensinar instrutores de mergulho locais a usar o tal arpão, batizado de E.L.F. (Eradicate Lion-Fish). A infestação de peixes-leão aqui tornou-se tão preocupante que as autoridades locais resolveram autorizar os mergulhadores a matar os peixes. Até agora (a autorização foi dada esta semana) eles podiam apenas marcar o local e informar as autoridades, que então enviavam alguém lá para “coletar” o peixe mais tarde. Claro que isso não deu conta do recado e o peixe-leão se multiplicou muito mais rápido do que as autoridades foram capazes de controlá-lo.

Agora, mergulhadores cadastrados terão autorização para carregar um ELF em seus mergulhos e matar todos os peixes-leão que encontrarem pela frente. O peixe-leão é cheio de espinhos venenosos, por isso é preciso muito cuidado para lidar com ele, mesmo depois de morto. Quem já levou uma ferroada diz que a dor é insuportável … “como se estivessem martelando um prego na sua carne”, descreveu Garry.

O problema não é restrito a Bonaire. O peixe-leão já está por todo o Caribe. A invasão teria começado na década de 80, na Flórida, com peixes de aquários que foram soltos no mar. A espécie, então, começou a se reproduzir no oceano, a migrar de ilha para ilha, e se tornou uma praga por toda a região. Em Bonaire eles começaram a aparecer cerca de um ano atrás … justamente quando eu vi o tal bebê.

Nem tudo que é belo é benéfico.

Imagine só! Abraços a todos.