PEIXES E DIAMANTES

PEIXES E DIAMANTES

Herton Escobar

27 Abril 2011 | 01h05

Peixe-anjo-real (Holacanthus ciliaris) FOTO: Herton Escobar/AE

Outro dia estava mergulhando com alguns turistas em Bonaire e me surpreendi como eles ficavam deslumbrados com todos os peixes que viam pela frente. Inclusive os mais comuns, tipo tesourinhas e donzelas. Depois de cinco meses mergulhando quase que diariamente no Caribe, eu já tinha visto cada um daqueles peixes centenas de vezes. Não havia mais muitas novidades debaixo d’água para mim, salvo uma raia-leopardo, um grupo de golfinhos ou outro bicho assim, mais raro de se ver.

Isso me fez pensar sobre como o valor que damos às coisas é extremamente relativo. Para quem nunca mergulhou, qualquer peixe que aparecer pela frente é novidade. Cada espécie, por mais comum que seja, é uma descoberta. O que não significa que uma seja mais importante ou valiosa do que a outra. É apenas uma questão de abundância versus raridade. De ineditismo versus repetição. Para quem mergulha pela primeira vez, ver um simples linguado camuflado no fundo do mar pode ser tão emocionante quanto para mim é ver uma raia-manta ou um tubarão-baleia nadando no azul. Tudo muito relativo.

Lembro-me que quando eu mergulhava no Brasil, ver um peixe-anjo-real (como o da foto acima), por exemplo, era algo raro e extraordinário. Coisa para se fotografar e comentar com os amigos no caminho de volta para casa: “Você viu também?” Até mesmo um peixe-frade era motivo de grande atenção, um highlight digno de muitas fotografias. Mas agora, em Bonaire, eu via frades e anjos-reais aos montes … tanto que nem prestava muito mais atenção neles. Tornaram-se, para mim, peixes comuns.

Porque estou contando essa história? Se pensarmos bem, a mesma lógica se aplica a muitas outras coisas na vida, e não apenas aos peixes.

Vejam as joias preciosas, por exemplo. Você já parou para pensar porque um anel de diamante é tão caro? E porque um fio de cobre é tão barato?

O diamante é, basicamente, um cristal de carbono. Depois de lapidado, ele tem aquela aparência maravilhosa, brilhante e transparente. Mas se você encontrasse um pedaço de diamante bruto no leito de um rio, provavelmente o descartaria como uma pedra branca qualquer. A razão pela qual um diamante custa tão caro é o fato de ele ser uma pedra rara, que exige muita gente pobre e suja peneirando cascalho para se encontrar. E muita habilidade para ser lapidado depois. Se fosse uma substância abundante, custaria tanto quanto um anel de cobre. O mesmo vale para o ouro, a prata, o bronze e assim por diante, ao longo da cadeia periódica — e da cadeia de preços. Se o ferro fosse uma substância igualmente rara, poderia custar tanto quanto um diamante. E o anel de noivado dos seus sonhos seria uma belíssima aliança de ferro – ou melhor, alumínio, para não enferrujar.

Para ser justo, o diamante tem, sim, características muito interessantes do ponto de vista material, para aplicações tecnológicas como a fabricação de brocas e aparelhos cirúrgicos. É o material mais duro do planeta. Mas, convenhamos, não é isso que faz a diferença no dedo de uma mulher. O cobre também tem propriedades excelentes para uma série de aplicações, só não custa tão caro porque é abundante.

Em tempos passados, coisas aparentemente simples como canela, pimenta e outras especiarias, que hoje se compra em qualquer supermercado da esquina, valiam tanto quanto ouro ou prata no comércio marítimo internacional. A ilha de Bonaire foi colonizada e disputada séculos atrás por holandeses, ingleses e espanhóis por ser um ótimo local para a produção de sal marinho, que, antes da invenção da geladeira, era essencial para a preservação de carnes e outros alimentos perecíveis na Europa. Imagine só, travar batalhas por um punhado de sal!

O que me faz pensar também no problema da água … Muita gente ainda não se deu conta disso, mas a água potável é um recurso finito do planeta, que está cada vez mais escasso. E quanto mais escasso, mais raro e mais caro ele vai ficar. Quando eu era criança, só bebia água da torneira em filtro de barro. Comprar água mineral no supermercado era um luxo totalmente desnecessário. Nem sei se existia. E não havia racionamento. Agora, com o aumento da população metropolitana e a poluição extrema dos mananciais de São Paulo, a água está cada vez mais escassa, mais cara e mais carregada de cloro. Em outras regiões mais áridas do planeta, pior ainda, ela já acabou! Fala-se que um dia haverá guerras entre países por causa de água … Parece loucura, mas pense bem: se você não tem o que beber, um simples copo d’água vale tanto quanto um anel de diamante. E muito mais do que um barril de petróleo.

De volta à biologia, é por isso também que as espécies mais raras são as mais “valiosas” do ponto de vista da prioridade de conservação. (E infelizmente, também, do ponto de vista do tráfico de animais.) São peças únicas e essenciais da natureza. Mas não se pode esquecer dessa relatividade que mencionei acima … Uma espécie que é abundante no Caribe por ser rara no Brasil, e vice-versa. E sua importância ecológica no ecossistema pode ser completamente diferente. Por isso é tão importante que as políticas de conservação da biodiversidade sejam baseadas em critérios científicos, levando-se em conta essas relatividades locais e regionais. Assim como deveria ser a compra de alianças … quem sabe.

Abraços a todos.