ELEFANTES: PERSONAGENS E CURIOSIDADES

ELEFANTES: PERSONAGENS E CURIOSIDADES

Herton Escobar

31 Outubro 2011 | 14h34

O MISTÉRIO DOS “TUSKERS”

Uma das maiores curiosidades científicas sobre os elefantes do Sri Lanka é que apenas 5% dos machos, aproximadamente, têm presas de marfim (os chamados “tuskers”). É o inverso do que ocorre na Índia e outros países asiáticos, onde 95% dos machos são tuskers.  Ninguém sabe dizer com certeza o porquê disso, mas o pesquisador Prithiviraj Fernando, do Centro para Conservação e Pesquisa do Sri Lanka, arrisca uma explicação. “Há poucos tuskers no Sri Lanka porque os cingaleses adoram tuskers”, diz o cientista.

O que ele quer dizer, de maneira irônica, é que a proporção é pequena porque a maioria dos tuskers foram seletivamente removidos da população selvagem ao longo de vários séculos, para serem criados em cativeiro e usados em cerimônias religiosas e outras atividades consideradas “nobres”. Também caçados por esporte (principalmente nos tempos de colônia britânica) ou exportados como animais de trabalho e de guerra (durante os períodos de colonização holandesa e portuguesa).

E como nunca houve uma tradição de reproduzir elefantes em cativeiro ou devolvê-los à natureza, os genes responsáveis pelo desenvolvimento das presas foram desaparecendo da população selvagem, a ponto de se tornarem extremamente raros. Com os tuskers (que normalmente seriam os reprodutores de maior sucesso) removidos do processo evolutivo natural, sobrou para os machos sem presas (não-tuskers) inseminarem as fêmeas e moldarem geneticamente a morfologia padrão da espécie na ilha.

O tusker da foto é um animal cativo da família Millangoda. Ao lado dele, o Sr. Millangoda, de 88 anos, e seu filho, Ananda.

 

ABAYA E O ZOOLÓGICO

O pequeno Abaya, de quase 2 anos e 300 quilos, é a sensação do Zoológico de Dehiwala, em Colombo. O elefantinho esbanja carisma e não rejeita uma banana, mas a história de como ele veio parar no zoológico é triste. Ele é um órfão, vítima do convívio tumultuoso entre seres humanos e elefantes nas zonas rurais do Sri Lanka. Abaya, sua mãe, uma outra fêmea adulta e um outro filhote foram atingidos por um trem quando cruzavam uma linha férrea próxima à vila de Kitulotuwa. Os outros 3 elefantes morreram no acidente.  Abaya foi resgatado com uma fratura na perna e enviado para o Orfanato de Pinnawela. Em abril, ele foi doado para o zoo.

Segundo a diretora-assistente da instituição, H.A. Anoma Priyadarshani, “o zoológico precisa de bebês elefantes para aumentar a visitação” e para “educar as pessoas sobre os elefantes”. “Porque todo mundo adora bebês”, justifica ela. De fato, é difícil resistir ao carisma de um elefantinho. Com Abaya, os visitantes podem chegar perto e interagir diretamente com o animal, o que não é possível com os elefantes adultos do zoológico – que passam a maior parte do tempo acorrentados, pois não há espaço ou infraestrutura adequada para mantê-los soltos, algo que é criticado por ambientalistas e pesquisadores. A instituição tem 6 elefantes adultos: 1 macho de 60 anos, chamado Banbula (enorme!), e 5 fêmeas, além de 1 elefante africano.

 

ORFANATO DE PINNAWELA

A vida em geral é boa para os elefantes no Orfanato de Pinnawela, uma das principais atrações turísticas do Sri Lanka. Fundado em 1975, com um rebanho de 5 elefantes órfãos, o orfanato tem hoje 90 elefantes – incluindo 58 fêmeas e 31 machos (3 deles “tuskers”), sob os cuidados de 40 “mahouts”, como são chamados os tratadores-treinadores. Os animais são bem alimentados (17 toneladas de vegetação consumidas por dia), passam o tempo todo livres e são conduzidos duas vezes por dia até um rio próximo, do outro lado da estrada, para se lavar e se refrescar. O caminho passa por uma rua cheia de lojas, restaurantes e pequenas fábricas de papel orgânico, produzido com as fibras vegetais das fezes dos elefantes.

Mais do que um orfanato, a instituição funciona hoje principalmente como um centro de conservação e reprodução de elefantes. Dos 90 animais que vivem lá, 69 são crias domésticas. O rebanho está cheio de bebês e jovens. Quando estive lá, no início de setembro, havia dois elefantinhos com menos de 1 semana de vida. O problema é que o orfanato está com lotação praticamente esgotada, segundo o curador-associado, Sanjaya Kumar-Ratnayake. “Noventa elefantes são o bastante por agora”, diz ele, de maneira diplomática. Tanto que há anos a instituição não recebe mais elefantes selvagens. O governo estuda uma proposta para criar um segundo orfanato, no sul do país.

 

ELEPHANT TRANSIT HOME

Desde 1995, elefantes órfãos ou doentes resgatados da natureza no Sri Lanka são enviados para a Casa Transitória de Elefantes (ETH, em inglês), onde são cuidados até terem idade suficiente para serem reintroduzidos na natureza (por volta dos 4 a 5 anos, que é a idade de desmame, quando o filhote deixa de depender do leite materno para sua nutrição). É um orfanato também, apesar de não ser chamado assim, mas com formato e objetivos bem diferentes do Orfanato de Pinnawela (que não reintroduz os animais na natureza). Aqui, o público não interage diretamente com os elefantes – apenas à distância – e os tratadores propositalmente não estabelecem relações mais afetivas com os animais, para preservar sua “natureza selvagem” .

A primeira reintrodução foi realizada em 1998, e desde então 77 animais já foram devolvidos com sucesso à natureza. Cinco deles já tiveram bebês, segundo o veterinário chefe da instituição, Vijitha Perera. Durante três anos, os animais são monitorados por meio de coleiras de rastreamento remoto. “Alguns se juntam a manadas selvagens já existentes, outros formam suas próprias manadas”, diz Perera – cujo sobrenome é uma herança da época de colonização portuguesa da ilha. O elefantinho da foto é o Vibheeshana, de seis meses, que caiu num poço quando sua manada foi afugentada por moradores numa vila próxima a Sigiriya, na região central do Sri Lanka. Os mesmos agricultores que expulsaram sua família o resgataram. Quando visitei a ETH ele estava separado dos outros elefantes e recebendo medicamentos, por causa de uma diarreia.

 

“O GRANDE ENCONTRO”

Quer ver dezenas – ou até centenas – de elefantes selvagens de uma vez só? Vá ao Parque Nacional Minneriya, no centro do Sri Lanka. Todos os dias, entre 14h e 18h, durante os meses de seca (maio a outubro),  algo entre 100 e 200 elefantes batem ponto nas lagoas do parque para beber água, se refrescar e se alimentar da grama que cresce no entorno delas. O evento, batizado como “The Gathering” (algo como “O Grande Encontro”), foi recentemente classificado pelo guia Lonely Planet como “um dos dez maiores espetáculos de vida selvagem” do mundo. Um título provavelmente merecido, que certamente deixou a indústria de turismo local bastante feliz, mas que pode ou não ser bom para os elefantes, dependendo de como esse turismo será organizado.

O Grande Encontro de elefantes já é também um Grande Encontro de turistas. O parque recebe entre 200 e 250 visitantes por dia. O que não é muito, quantitativamente falando, mas já começa a causar alguns problemas. As visitas são feitas em jipes, e não há limite para o número de jipes que podem circular pelo parque nem regras específicas sobre como eles devem se comportar diante dos elefantes. Alguns jipeiros mais “audaciosos” chegam perto demais dos animais e às vezes bloqueiam sua movimentação, ou se colocam entre adultos e filhotes. “Pode ser uma bomba relógio esperando para explodir”, diz o consultor de turismo Srilal Miththapala, associado à Câmara de Comércio do Ceilão.  Ele sugere que, com urgência, sejam definidos limites e regras de boas práticas para os jipeiros – antes que algum elefante ou turista se machuque.

Seria uma pena, pois o passeio é realmente especial, e é perfeitamente possível apreciar os elefantes sem perturbá-los.

 

OS “MENDIGOS DA CERCA”

No Parque Nacional de Udawalawe não é preciso pagar entrada para ver elefantes. Na verdade, não é preciso nem entrar no parque. Vários elefantes aprenderam nos últimos anos que ficar parado próximo à cerca elétrica que separa o parque de uma movimentada estrada marginal é uma maneira fácil de conseguir alimento. Motoristas ocasionais e vans cheias de turistas param a todo momento no acostamento para observar os bichos. Os elefantes atraem os curiosos, que atraem os ambulantes e as barraquinhas de frutas que vendem bananas, amendoins e cana-de-açúcar para dar de petisco aos animais.

Tudo muito divertido e curioso. Mas também preocupante. A única coisa separando os turistas e as barraquinhas de frutas dos elefantes é a cerca elétrica, que nem sempre está eletrificada – e, mesmo que esteja, pode ser derrubada pelos elefantes, se eles realmente quiserem ultrapassá-la. Para pesquisadores e naturalistas, é um acidente esperando para acontecer. Ou de um elefante atacar alguém, ou chegar à estrada e causar um acidente de trânsito, ou começar a invadir as comunidades vizinhas em busca de comida. Segundo a bióloga Manori Gunawardena, os elefantes (apelidados de “pedintes” ou “mendigos da cerca”) já aprenderam a relacionar o barulho da estrada com a disponibilidade de comida. “Há uma direta correlação entre o volume de tráfego na estrada e o número de elefantes junto à cerca”, diz ela. Tanto que sempre há mais animais presentes nos fins de semana e feriados.