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Pesquisa sobre células-tronco no Japão é retratada por erros e falsificação de dados

hertonescobar

02 julho 2014 | 15:52

Revista Nature aceitou pedido de retratação dos pesquisadores, após investigações mostrarem que resultados dos trabalhos não tinham credibilidade. Revista diz que não tinha como detectar os erros antes da publicação

Página inicial de um dos artigos; agora com o aviso “retratado” no alto. (Reprodução do site da Nature)

 

A revista Nature anunciou hoje a retratação (anulação) dos dois trabalhos sobre células-tronco do centro de pesquisas Riken, no Japão, que vinham sendo questionados pela comunidade científica desde o início do ano. Publicados em janeiro, eles descreviam uma nova técnica, incrivelmente simples, para induzir a transformação de células adultas em células pluripotentes, equivalentes às células-tronco embrionárias, com capacidade para se diferenciar em qualquer tipo de tecido do organismo.

As células foram batizadas de STAP (sigla em inglês para “pluripotência adquirida por estímulo”) e apresentadas como uma nova revolução científica na área, que permitiria produzir células pluripotentes em grande quantidade e com grande facilidade, tanto para fins de pesquisa quanto para futuro uso em terapias celulares.

Num primeiro instante, a pesquisa foi recebida com grande entusiasmo pela comunidade científica. Já nos dias seguintes à publicação, porém, começaram a surgir denúncias de erros e acusações de fraude na internet, forçando a Nature e o Riken a abrirem investigações. As suspeitas cresceram no decorrer dos meses, à medida que nenhum outro laboratório conseguia replicar os resultados dos trabalhos. No início de abril, o comitê de investigação do Riken confirmou que erros foram cometidos na pesquisa e concluiu que houve má conduta por parte dos pesquisadores — em especial, por parte de sua principal autora, a jovem bióloga Haruko Obokata.

A retratação dos trabalhos, confirmada agora pela Nature, invalida definitivamente os seus resultados. As células STAP, na prática, deixam de existir. “Pedimos desculpas pelos erros cometidos (nos trabalhos). Esses múltiplos erros comprometem a credibilidade da pesquisa como um todo, e não temos como dizer, sem sombra de dúvida, se o fenômeno das células-tronco STAP é verdadeiro”, escrevem os autores, na nota oficial de retratação. A maioria dos erros está relacionada a imagens usadas nos trabalhos. Algumas que diziam mostrar células e embriões diferentes, na verdade, mostravam a mesma coisa (como no caso das figuras 1a e 1b, abaixo). E análises genéticas mostraram que as supostas células STAP geradas no trabalho não vieram dos camundongos que os pesquisadores disseram que vieram. No final, não há nenhuma prova de que o método descrito nos trabalhos realmente funciona.

Revisão por pares. A Nature, em sua defesa, alega que não tinha como identificar essas “falhas fatais” antes da publicação dos trabalhos. “Concluímos que nós e os árbitros (revisores) não tínhamos como detectar os problemas que comprometem fatalmente os trabalhos”, diz a revista, em um editorial. Segundo o texto, os revisores estavam certos em assumir que os dados apresentados nos trabalhos eram fidedignos.

“Em resumo, ainda que os editores e revisores não tivessem como detectar as falhas fatais nesse trabalho, o episódio ajudou a identificar falhas nos procedimentos da Nature e nos procedimentos das instituições que publicam conosco. Nós — financiadores de pesquisa, praticantes de pesquisa, instituições e revistas — precisamos colocar a garantia de qualidade e o profissionalismo nos laboratórios cada vez mais alto em nossas agendas, para garantir que o dinheiro que nos é confiado pelos governos não seja desperdiçado, e que a confiança dos cidadãos na ciência não seja traída”, conclui o editorial.

Obokata e Charles Vacanti, pesquisador do Brigham & Women’s Hospital de Harvard, que é o autor sênior de referência no trabalho principal, mantêm que a técnica é real e funciona, apesar da retratação dos trabalhos, segundo informações divulgadas pelos sites de notícias da Nature e Science. O centro Riken determinou que Obokata refaça toda a pesquisa, num laboratório controlado, para tirar a dúvida e comprovar, de uma vez por todas, se as células STAP existem ou não.

A nota de retratação pode ser lida aqui: http://www.nature.com/nature/journal/v511/n7507/full/nature13598.html

Um editorial da revista sobre o tema pode ser lido aqui: http://www.nature.com/news/stap-retracted-1.15488

O histórico das contestações, desde a publicação inicial dos trabalhos, pode ser lida aqui: http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/?s=obokata

Mais informações serão incluídas neste post ao longo do dia.

Fig. 1 do artigo complementar. (Reprodução do site da Nature)

Um dos erros detectados na publicação da pesquisa está nessa figura acima. Segundo a legenda, ela mostra uma comparação entre embriões de camundongos derivados de células-tronco embrionárias (1a) e células STAP (1b). A investigação do trabalho revelou, porém, que são ambos embriões derivados de células STAP — o que invalida completamente qualquer dado derivado da suposta comparação entre os dois tipos de células.

Fig. 1 do trabalho principal. (Reprodução do site da Nature)

Nesta imagem acima do trabalho principal, a linha 3 do gel de eletroforese (1i) foi inserida artificialmente por Obokata na imagem do gel original. O comitê de investigação do Riken classificou o ato da pesquisadora como “falsificação” da imagem.

A evidência “fatal” que desacredita os trabalhos, porém, é a confirmação de que as células STAP geradas pelos pesquisadores não são geneticamente compatíveis com os camundongos dos quais elas foram supostamente geradas.

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