Pesquisadores da USP se inspiram em Stanford para fomentar o empreendedorismo na academia brasileira

Pesquisadores da USP se inspiram em Stanford para fomentar o empreendedorismo na academia brasileira

Reportagem Especial: Grupo liderado pelo ICB e Escola Politécnica quer adaptar o programa Spark à realidade brasileira

Herton Escobar

30 Junho 2014 | 21h04

Foto: Julio Ferreira, professor do ICB-USP. Crédito: Nilton Fukuda/Estadão

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estão buscando inspiração na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, para fomentar o empreendedorismo na academia brasileira e incentivar cientistas a se engajar de forma mais intensa na transformação de suas descobertas científicas em inovações tecnológicas, principalmente na área da saúde.

Para isso, é preciso atravessar o chamado “vale da morte”, uma região escassa de recursos e cheia de incertezas que separa a produção de ciência básica na academia do desenvolvimento de novas tecnologias na indústria. No caso da biomedicina, é a labiríntica trilha inicial que uma descoberta precisa percorrer para sair da bancada do laboratório, na forma de uma publicação científica, e ter uma chance de chegar ao leito do paciente, na forma de uma nova droga ou terapia.

A maioria dos pesquisadores prefere não se aventurar por essas terras selvagens, além dos muros seguros da academia; e aqueles que arriscam uma travessia muitas vezes se perdem no meio do caminho, ou dão de cara com portas fechadas no final da linha.

“Muitas ideias revolucionárias morrem na academia porque os resultados são preliminares demais para despertar o interesse da indústria”, diz a química Daria Mochly-Rosen, cientista, empresária e criadora do programa Spark na Escola de Medicina de Stanford – que pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Escola Politécnica querem replicar na USP, em parceria com a empresa química Dow.

“A academia não pode fazer só pesquisa básica. Quando houver potencial para inovação, precisa avançar um pouco mais, fazer as provas de conceito, para provar para a indústria que aquela descoberta tem potencial comercial”, reforça o jovem professor Julio Ferreira, do ICB, que fez pós-doutorado no laboratório de Daria em Stanford e voltou de lá determinado a introduzir o modelo Spark no Brasil – rebatizado como Supernova.

O programa funciona como um híbrido de incubadora, agência de fomento e curso de capacitação. A cada ano, cerca de 10 projetos de pesquisa com potencial para gerar novos fármacos e terapias são escolhidos para receber uma pequena ajuda financeira (de US$ 50 mil/ano, por até dois anos) e algo que Daria considera muito mais valioso: aconselhamento profissional e gratuito, oferecido por especialistas da indústria e da academia que participam de encontros semanais com os pesquisadores.

As reuniões são a portas fechadas e todos os participantes assinam um acordo de confidencialidade sobre o que é discutido na sala, de forma que os pesquisadores podem apresentar seus resultados, dúvidas e apostas livremente, sem temer pela segurança da propriedade intelectual de seus dados.
Segundo Daria, os conselheiros são o “ingrediente secreto” da receita de sucesso do programa. Nenhum deles é pago. São empreendedores experientes, às vezes já aposentados, que participam das reuniões pelo prazer de compartilhar seu expertise. Eles aconselham os cientistas sobre o melhor caminho a seguir, o que levar na mochila e quando dar meia volta, caso necessário.

“Um dos segredos do sucesso é saber quando o fracasso virá; quando é hora de abortar um projeto”, concorda o físico Vanderlei Bagnato, coordenador da Agência USP de Inovação, que participou de uma série de três debates promovidos no ICB no primeiro semestre deste ano, para discutir a implementação do modelo Spark no instituto.

Sucesso translacional. A taxa de sobrevivência daqueles que se aventuraram pelo vale da morte sob a orientação do Spark é alta. Dos 51 projetos “graduados” pelo programa nos últimos sete anos, 22 geraram produtos que já estão em uso clínico. Apenas 8 (16%) não concluíram a travessia – ou seja, não geraram um produto ou foram descontinuados no meio do caminho. Para Daria, essa baixa taxa de insucesso é um mau sinal. “Deveria ser bem mais alta”, diz ela. “Significa que o programa é pequeno demais; que há muitas outras ideias por aí que ainda precisam ser testadas”, diz ela. 

Essa é uma das lições básicas do empreendedorismo: não ter medo de arriscar nem de fracassar. “O sucesso te ensina muito pouco; só no fracasso você aprende o que precisa fazer para melhorar”, sentencia Daria.

O vice-diretor do ICB, Luís Carlos de Souza Ferreira, torce para que o programa seja um sucesso também na USP. “Não basta apenas publicar; precisamos urgentemente começar a inovar”, argumenta ele, que trabalha com o desenvolvimento de vacinas.

Os resultados dos três debates serão combinados agora para decidir como melhor adaptar o programa à realidade brasileira e definir um plano de trabalho, para colocar o Supernova em prática em 2015. “Vamos começar com o modelo de Stanford e ajustá-lo à nossa realidade conforme o necessário”, planeja Ferreira.

 

Além dos entraves legais, é preciso incentivar a “cultura empreendedora” na academia

Entraves legais e burocráticos à integração universidade-empresa não faltam. Pouco adiantará mudar as leis, porém, se aliado a isso não houver uma mudança “cultural” na maneira como a academia brasileira encara a inovação e o empreendedorismo – atividades que, inevitavelmente, exigem uma parceria entre pesquisa pública e privada, segundo especialistas.

“Precisamos criar a figura do docente empreendedor”, diz o engenheiro José Antonio Siqueira, da Escola Politécnica da USP, membro do comitê do programa Supernova/Spark. A mudança, segundo ele, deve permear todos os componentes da cadeia de produção científica e tecnológica do País, incluindo pesquisadores, instituições e agências de fomento.

Mesmo com as amarras legais vigentes, que dificultam a interação entre academia e indústria, Siqueira acredita que seria possível inovar muito mais do que se faz atualmente, se houvesse uma postura diferente com relação ao tema. “Há entraves, sem dúvida, mas a USP tem espaço para ser muito mais empreendedora do que está sendo”, diz.

Depositar patentes é um primeiro passo nessa direção, mas está longe de ser suficiente. “Eu tenho 1,2 mil patentes na prateleira hoje. Isso é prejuízo, não é fator de inovação”, diz o coordenador da Agência USP de Inovação, Vanderlei Bagnato. “Patentear é um hábito saudável, mas só conta como inovação se virar produto no final da linha.”

Esse é o passo a mais que o Supernova quer incentivar os cientistas a dar. “Precisamos educar e conscientizar a academia de que isso é importante”, diz o pesquisador Julio Ferreira, do ICB, um dos organizadores do programa. “Só uma minoria dos acadêmicos pensa dessa forma. Ainda há um certo preconceito sobre conversar com a indústria.”

O biólogo Diogo Biagi sentiu isso na pele recentemente, quando resolveu interromper a carreira acadêmica na USP para abrir uma pequena empresa de biotecnologia em Campinas, a Pluricell, baseada em células-tronco de pluripotência induzida (iPS). “Várias pessoas não entenderam a minha decisão. A expectativa é que você vire professor”, conta. “É um pensamento bem arcaico, enraizado na academia.”

“Formamos pessoas para serem funcionárias públicas, não empreendedoras”, diz o experiente João Calixto, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina e diretor do recém-criado Centro de Inovação e Ensaios Pré-clínicos (CIEnP), que trabalha com o desenvolvimento de fármacos. “É muito difícil um acadêmico deixar sua área de conforto na academia para entrar numa área de cheia de riscos, que é inovação tecnológica. Na universidade todo mundo ganha igual, não há meritocracia; você faz aquilo que é importante para você, sem pensar tanto nas necessidades do país. Fazer inovação é muito mais complicado; os projetos são de longa maturação, de altíssimo risco, e mesmo quando dá certo você ainda tem de disputar mercado no final.”

Decisão de risco. “Realmente, não foi uma decisão fácil, largar algo garantido na academia e me arriscar em algo tão complicado”, reconhece Biagi, que só resolveu correr o risco porque conseguiu uma bolsa do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE). Ele abriu a empresa em parceria com um amigo da universidade, Marcos Valadares. A proposta é desenvolver uma plataforma de triagem de drogas (drug screening) in vitro, baseada em células iPS humanas diferenciadas em células cardíacas e hepáticas, utilizando uma metodologia que ele desenvolveu durante seu doutorado no Incor.

“Um dos problemas é que a universidade não estimula o aluno a empreender”, avalia Biagi. “É algo que simplesmente não se discute, principalmente na graduação.”

Além disso, aponta Siqueira, é preciso que as instituições e agências de fomento deem mais valor curricular ao empreendedorismo acadêmico, reconhecendo a importância da atividade para o desenvolvimento científico e tecnológico do País. “Não importa se uma empresa deu certo ou errado, o importante são as lições que o pesquisador aprendeu”, observa.

“O meu desejo de publicar trabalhos em grandes revistas é igual ao de contribuir com novas tecnologias para o desenvolvimento do Brasil”, diz Vanderlei Bagnato. “Nem todo mundo precisa fazer isso (inovação), mas não se pode colocar barreiras àqueles que desejam fazê-lo.”

 

“Quem entrar pensando em ganhar dinheiro, já começou errado”

Daria Mochly-Rosen conhece bem os desafios que pesquisadores universitários enfrentam – também nos Estados Unidos, e mesmo em uma universidade de ponta como Stanford – para fazer inovação na academia.

No fim dos anos 1990, ela e seus alunos descobriram um grupo de pequenas moléculas (peptídeos) capazes de reduzir as sequelas de um enfarte no músculo cardíaco de animais. Ela patenteou a descoberta e tentou licenciá-la para empresas farmacêuticas, para que os peptídeos fossem testados em seres humanos. Mas os resultados eram muito preliminares e nenhuma indústria se interessou.

Daria, então, resolveu abrir uma empresa e investir na descoberta ela mesma. Em 2002, fundou a KAI Pharmaceuticals, levantou dinheiro com investidores e conseguiu autorização do FDA para realizar os ensaios clínicos preliminares. O peptídeo do infarto não vingou – os efeitos em seres humanos ficaram abaixo do esperado –, mas a empresa prosperou com outro peptídeo (usado para doenças renais) e foi adquirida dez anos depois pela gigante Amgen, por US$ 315 milhões.

Daria, apesar disso, não abandonou a academia nem a pesquisa básica. O dinheiro, diz ela, deve ser uma consequência, não um objetivo, do empreendedorismo na biomedicina. “A missão do Spark é melhorar a saúde dos pacientes, não melhorar o currículo do pesquisador ou gerar dinheiro para a universidade”, diz. O programa não recebe nenhum royalty dos projetos que apoia; nem os conselheiros da indústria que participam do programa.

Não só por uma questão de ética ou compromisso social, mas também como uma regra de sucesso. “Quem entrar num projeto pensando em ganhar dinheiro já começou errado; essa é uma lição básica de inovação”, aponta José Siqueira, da Escola Politécnica da USP. “Para pensar em lucro, primeiro você tem de gerar valor.”

Parceria indispensável. Outra lição importante do empreendedorismo, segundo Daria, é que a pesquisa aplicada (voltada para a inovação tecnológica) não substitui a pesquisa básica (voltada para a produção de conhecimento), nem pode sobreviver sem ela. “Uma deve fluir naturalmente da outra; não há como separar as duas atividades”, diz ela.

É por isso que as empresas farmacêuticas e de biotecnologia, mesmo investindo bilhões em pesquisa aplicada dentro de seus próprios laboratórios, precisam recorrer com frequência à ciência básica da academia para resolver problemas e continuar inovando.

“A gente faz pesquisa sim, mas nunca sozinhos”, diz Patrícia Moreira, gerente de pesquisa e desenvolvimento da Natura, que participou dos debates do programa Supernova no ICB-USP. Mais de 80% dos projetos de pesquisa da empresa, segundo ela, são feitos em colaboração com cientistas acadêmicos. “O maior conhecimento científico está nas universidades”, diz ela. “Duas cabeças sempre pensam melhor que uma. E se uma dessas cabeças for ‘de fora de casa’, melhor ainda, pois ela vai enxergar coisas que nós não vemos lá de dentro.”

A multinacional Dow, parceira do ICB e da Escola Politécnica no projeto Supernova, investe US$ 1,6 bilhão por ano em pesquisa e desenvolvimento, e tem cerca de 7 mil pesquisadores espalhados por suas várias unidades de pesquisa ao redor do mundo. Mas também não abre mão do contato com as universidades. “Mesmo 7 mil pesquisadores não são suficientes para uma empresa do nosso porte”, diz Marcos França, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Dow para a América Latina. “O contato com a academia é essencial.”