Pesquisadores descobrem possível nova espécie de peixe no Rio Doce, antes da lama

Pesquisadores descobrem possível nova espécie de peixe no Rio Doce, antes da lama

Animal foi coletado durante esforço de resgate de espécies nativas do rio, antes da chegada da mancha de rejeitos de mineração da Samarco, em Linhares (ES)

Herton Escobar

23 Novembro 2015 | 07h05

Possível espécie nova. Foto: Marcelo Polese/IFES

Possível espécie nova. Foto: Marcelo Polese/IFES*

de LINHARES, ES

Em meio ao caos ambiental gerado pela passagem da onda de lama no Rio Doce, pesquisadores podem ter encontrado uma boa notícia: uma possível nova espécie de peixe. A descoberta foi feita no último lote de peixes resgatados antes da chegada da lama no município de Linhares (ES), na manhã do dia 20.

Segundo o zootecnia Marcelo Polese, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (IFES), seria uma nova espécie do gênero Brycon, parecida com a pirabanha (Brycon opalinus, também chamada popularmente de piabanha ou pirapitinga do sul), uma espécie rara do Rio Doce. Polese e outros pesquisadores que participaram do esforço de resgate de peixes nativos do rio, organizado pelo Ibama, notaram que o formato do corpo do animal era um pouco diferente e que ele não tinha uma pinta preta característica na cauda. Resolveram olhar mais de perto e concluíram se tratar de uma nova espécie — hipótese que ainda precisará ser confirmada por análises morfológicas e genéticas mais detalhadas. (Atualização: veja contraponto do pesquisador Fábio Vieira, abaixo).

Polese conversou com a reportagem do Estado enquanto fazia uma análise de necrópsia num outro peixe: uma curimba de aproximadamente 1,3 kg, que morreu no processo de captura, antes da chegada da lama. Ele retirava o fígado e as gônadas do peixe, para análises de toxicidade e maturidade reprodutiva, respectivamente; e analisava visualmente as brânquias do animal — que neste caso estavam limpas. A ideia agora é coletar peixes mortos após a chegada da lama para fazer uma comparação desses parâmetros e ter uma ideia de como os sedimentos estão impactando os peixes no rio.

Centenas de peixes de espécies nativas do Rio Doce foram coletadas na semana passada e levadas para tanques improvisados no Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). A proposta é manter esses peixes em cativeiro como um “banco genético” da biodiversidade original do rio, caso ele precise ser repovoado após a passagem da lama. Alguns animais também foram enviados de lá para o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais (Cepta) do ICMBio em Pirassununga, no interior paulista — incluindo o da nova espécie.

O Rio Doce possui mais de 70 espécies nativas de peixes, mas a maior parte da sua biomassa é de espécies exóticas, como o dourado, a tilápia e a carpa. Quer dizer: se você pegasse todos os peixes do rio e os colocasse numa balança, os peixes exóticos pesariam muito mais do que os nativos — sinal de um desequilíbrio ecológico.

Contraponto. O especialista em peixes Fabio Vieira acredita, com base na foto divulgada, que o peixe em questão seja o Brycon amazonicus, uma espécie já conhecida e nativa da Amazônia (ou seja, exótica ao Rio Doce), que tem sido liberada em vários rios brasileiros.

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*Correção: Uma foto publicada originalmente neste espaço era de uma outra espécie, já conhecida. 

Post atualizado às 17h do dia 25.