PLACEBO, SEM ENGANAÇÃO

PLACEBO, SEM ENGANAÇÃO

Herton Escobar

22 Dezembro 2010 | 23h11

Algum tempo atrás escrevi um post sobre o efeito placebo que causou bastante polêmica aqui no blog. Pois aqui vai mais um pedaço de lenha na fogueira para esquentar (e complicar) ainda mais o debate.

Que o efeito placebo existe não há dúvida. Pacientes tomam pílulas de açúcar achando que é remédio e melhoram de saúde de verdade, como se estivessem tomando um remédio de verdade. Vários estudos clínicos comprovam isso. Como a pílula de açúcar  (ou farinha) não tem princípio ativo, o benefício clínico do placebo é, na verdade, uma reação do próprio organismo, orquestrada pelo cérebro do paciente, que foi induzido a pensar que estava recebendo um tratamento de verdade. Por isso, imaginava-se que o efeito placebo só existiria se o paciente fosse “enganado” dessa forma … Ou seja: se ele acreditasse de fato que estava tomando um medicamento de verdade.

Mas não!

Segundo um estudo da Universidade de Harvard, publicado hoje eletronicamente na revista PloS One, o efeito placebo pode funcionar até mesmo quando o paciente sabe que está tomando apenas uma pílula de açúcar. Imagine só!


Os pesquisadores fizeram algo muito simples: selecionaram 80 pacientes com síndrome do intestino irritável (uma disfunção gastro-intestinal crônica, chamada IBS em inglês) e dividiram-os em dois grupos. Um grupo não recebeu medicamento nenhum, apenas acompanhamento médico padrão. O outro recebeu, além do mesmo acompanhamento médico padrão, um “tratamento” placebo com pílulas de açúcar – com o detalhe importantíssimo de que os pacientes foram claramente informados de que eram apenas pílulas de açúcar, sem nenhum tipo de princípio ativo. “Pílulas placebo feitas de uma substância inerte, como pílulas de açúcar, que  em estudos clínicos produziram melhoras significativas nos sintomas de IBS, por meio de processos de auto-cura corpo-mente”, para ser mais exato, usando a terminologia que foi usada no estudo.

Ou seja: os pacientes tinham a informação de que o efeito placebo havia sido benéfico em estudos anteriores de IBS, só que dessa vez eles estavam sendo informados previamente de que as pílulas eram somente isso mesmo — pílulas de açúcar. Então, a dúvida dos pesquisadores era: Será que o efeito placebo se manifestará da mesma forma?

Três semanas depois veio a resposta: 59% dos pacientes que tomaram a pílula de açúcar melhoraram, comparado a 35% dos pacientes do grupo controle, que tiveram apenas acompanhamento médico. Não só isso, mas a melhora clínica observada no grupo placebo foi comparável a de pacientes tratados normalmente com os medicamentos top de linha para IBS.

Imagine só! Mesmo sabendo que as pílulas continham apenas açúcar, os pacientes tiveram um benefício clínico tão significativo quanto alguém que toma medicamentos de verdade. Então pra que gastar dinheiro com remédio?? Toma uma limonada por dia e faz pensamento positivo que está tudo certo!

Ok, não é tão simples assim. Como já escrevi no post anterior, o efeito placebo tem suas limitações e nunca vai substituir por completo os medicamentos. O que esse estudo mostra, porém, é que o efeito placebo pode, sim, ser usado de maneira ética e eficiente na medicina, sem a necessidade de enganar os pacientes. Se um estudo clínico mostra que o placebo pode ser tão eficiente quanto um medicamento (o que acontece com frequência) isso deve ser visto como algo positivo e não como um resultado negativo, para ser varrido para debaixo do tapete (o que também acontece com frequência). É um mau negócio para a indústria farmacêutica, mas um ótimo negócio para a medicina!

Aliás, pensando bem, talvez nem a limonada seja necessária, já que 35% dos pacientes do grupo controle melhoraram sem tomar absolutamente nada — nem mesmo placebo. Imagine só!

Abraços a todos.

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Esse cartoon americano faz referência a um fato que é citado no estudo: 50% dos médicos americanos dizem já ter receitado placebos aos pacientes ... Ou seja: ele receita alguma coisa só para o paciente se sentir melhor, mesmo que ele não precise. ("skittles" é uma balinha americana, tipo jujubinha)