PLANETAS EM TRÂNSITO

PLANETAS EM TRÂNSITO

Herton Escobar

14 Junho 2010 | 20h19

FOTO: REUTERS

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A família conhecida de planetas extrassolares –que orbitam outras estrelas, fora do Sistema Solar – ficou ainda maior ontem, com uma contribuição de “DNA científico” brasileiro. A agência espacial francesa, CNES, anunciou ontem a descoberta de mais seis planetas desse tipo, detectados por meio do satélite CoRoT, que está no espaço há mais de três anos especificamente para esse propósito.

Mais de 450 planetas extrassolares – ou exoplanetas, como também são chamados – já foram descobertos nos últimos 15 anos, fortalecendo cada vez mais a teoria de que sistemas planetários como o que existe ao redor do Sol – e do qual a Terra faz parte – são comuns na Via-Láctea e provavelmente em todo o Universo. Não só comuns, mas talvez a regra.

“Qualquer estrela pode ter planetas”, afirma o pesquisador Sylvio Ferraz Mello, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), que contribui com a análise de dados para confirmação das descobertas.

A teoria já é antiga, mas só recentemente surgiram as tecnologias necessárias para confirmá-la. O CoRoT, desenvolvido pela França em parceria com outros países europeus e o Brasil, é basicamente um sensor de luz hipersensível, projetado para detectar minúsculas variações de intensidade no brilho das estrelas.

Isso porque há poucas coisas que podem causar esse tipo de variação. E uma delas é um mini-eclipse, causado pela passagem de um planeta na frente da estrela – chamado de “trânsito” na astronomia. Assim, o CoRoT observa cerca de 80 mil estrelas por ano. Sempre que um delas “pisca”, ela se torna candidata a abrigar exoplanetas.

Obedecendo a uma série de metodologias, então, os pesquisadores passam a acompanhar e estudar essas estrelas com o apoio de instrumentos no solo para confirmar se o que causou o eclipse foi mesmo a passagem de um planeta. Não é possível enxergar o planeta diretamente, mas com base nas configurações do trânsito é possível deduzir uma série de características, como tamanho, densidade, temperatura e tipo de órbita.

Nos últimos três anos, 15 detecções do CoRoT foram confirmadas – incluindo essas novas, anunciadas ontem. Cada um dos seis exoplanetas orbita uma estrela diferente, e todos são gigantes gasosos, como Júpiter e Saturno (e não planetas pequenos e rochosos, como a Terra, que são ainda muito difíceis de detectar com as tecnologias atuais).

O menor deles, registrado como CoRoT-8b, tem 70% da massa e do diâmetro de Saturno, que é o segundo maior planeta do Sistema Solar. Já o CoRoT-10b tem uma órbita bizarra, que o leva para muito longe e muito próximo de sua estrela, de modo que sua temperatura varia de 250 °C a 600 °C num “ano” de apenas 13 dias.

Além dos seis exoplanetas, a CNES anunciou também a descoberta de uma anã marrom, uma espécie de “mini-estrela”, grande demais para ser um planeta, mas pequena demais para iniciar o processo de fusão nuclear de hidrogênio, que é o que “acende” as estrelas luminosas como o nosso Sol.

Vale lembrar, é claro, como já fiz em outros posts, que o Sol é uma estrela feita de gás como outra qualquer no Universo. E os planetas que giram ao redor dele, incluindo a Terra, também são, aparentemente, igualmente comuns. Então, será que a vida também é? Nesse caso, por enquanto, só nos resta imaginar mesmo….

Abraços a todos.

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LEGENDA: Na foto acima pode-se ver um trânsito de Vênus sobre o Sol, fotografado da Terra em 2004. Note como o planeta fica pequenininho na frente da estrela. Agora imagine o que é o trânsito de um planeta sobre uma estrela a centenas de milhares de anos-luz da Terra! A variação de luminosidade é muito, muito pequena….. por isso a dificuldade de detectar planetas dessa forma.