POBRES CARNÍVOROS

POBRES CARNÍVOROS

Herton Escobar

27 Agosto 2009 | 12h02

Foto de leoa do site da National Geographic

Hoje publiquei no Estadão uma reportagem sobre um estudo brasileiro que identificou as áreas de melhor custo-benefício no mundo para a conservação de carnívoros. Ou seja: lugares onde há muitas espécies desse tipo e onde a terra é barata para a criação de áreas protegidas.

Um detalhe me surpreendeu nas entrevistas que fiz com os pesquisadores: O fato de que os carnívoros são vistos dentro da ecologia como animais extremamente vulneráveis à extinção. Me pareceu um contra-senso à imagem popular desses animais, vistos tradicionalmente como bichos ferozes, perigosos, fortes, temidos, cheios de garras e dentes. Os valentões da natureza! Aqueles dos quais todos os outros bichos saem correndo para não serem devorados. Eu, pelo menos, nunca tinha pensado num leão ou numa onça como um bicho “vulnerável”.

Por outro lado, como aprendi ontem, os carnívoros têm também uma série de “fraquezas” quando se trata de sobreviver aos ataques do maior predador de todos os tempos — nós, os seres humanos. Eles são tipicamente grandes, poucos, precisam de muita comida, muito espaço, têm períodos de gestação longos e produzem proles pequenas, de poucos indivíduos. Quando são pressionados pelos seres humanos, portanto, têm dificuldade para responder de uma maneira ágil.

Uma rã, por exemplo, pode viver dentro de uma bromélia, se alimentar de insetos e botar centenas de ovos de uma só vez. Mas uma onça precisa de um território enorme para sobreviver, precisa de animais grandes para comer e só dá à luz um ou dois filhotes de cada vez (talvez durante toda a vida).

No fim das contas, ter garras e dentes é bom para comer os outros, mas não é garantia de sobrevivência para ninguém. (talvez fosse, se não houvesse o homem para estragar tudo). Pense nisso a próxima vez que olhar para uma onça ou um leão. Você é muito mais perigoso para eles do que eles são para você.