ALERTA CELULAR

ALERTA CELULAR

Herton Escobar

28 Junho 2012 | 20h59

FOTO: TASSO MARCELO/AE

Mais um alerta para aqueles que, por desespero ou falta de informação, se submetem a “tratamentos” com células-tronco para lesões na medula, problemas cardíacos, doenças neurodegenerativas ou seja lá o que for … (hoje em dia tem clínica oferecendo “tratamento” com células-tronco para tudo, desde rugas até  Alzheimer).

Digo “tratamento” entre aspas porque nenhuma dessas aplicações é referendada cientificamente. A única aplicação médica de células-tronco com resultados terapêuticos cientificamente comprovados (ainda!) é o transplante de células-tronco da medula óssea (e, em alguns casos, do sangue de cordão umbilical) para tratamento de doenças do sangue. Qualquer outra coisa é, na melhor das hipóteses, experimental, ou, na pior das hipóteses, uma enganação total. Se for experimental, tem de ser gratuita e realizada dentro de instituições de pesquisa referendadas (universidades ou hospitais, de preferência), seguindo protocolos de pesquisa clínica bem estabelecidos.

Para saber se você está se submetendo a um procedimento de pesquisa experimental legítimo ou a uma jogada de marketing celular é fácil: Se não for transplante de medula e te cobrarem algum dinheiro, fique ligado. Tratamentos experimentais legítimos são sempre gratuitos.

O novo alerta é o seguinte: Uma investigação do jornal Houston Chronicle, do Texas, revelou esta semana que o maior banco privado de células-tronco adultas dos Estados Unidos — da empresa Celltex — tem uma série de deficiências comprovadas pelo FDA, a Administração de Drogas e Alimentos dos EUA (equivalente à Anvisa no Brasil). O banco foi inaugurado em dezembro de 2011 e, desde então, vem estocando e multiplicando células-tronco adultas, colhidas da gordura abdominal de pacientes, para supostas aplicações terapêuticas. Um dos primeiros clientes foi o governador do Texas, Rick Perry. (mais informações nesta notícia da revista Nature, de 29 de fevereiro)

Várias pessoas ficaram preocupadas com essa comercialização de terapias não comprovadas cientificamente e, agora, documentos obtidos legalmente pelo Houston Chronicle (por meio do chamado Freedom of Information Act, ou FOIA, que é um dos pilares do direito à informação nos EUA) junto ao FDA mostram que o órgão detectou 79 deficiências técnicas nas instalações e procedimentos do banco. Segundo a FDA, a Celltex “não tem como garantir a esterilidade, uniformidade ou integridade das células-tronco que retira das pessoas e depois estoca e multiplica para eventuais reinjeções terapêuticas”. (este blog do The Chronicle of Higher Education traz um bom resumo da história)

A empresa divulgou ontem um press release de resposta às críticas da FDA e da imprensa.

A Celltex utiliza tecnologias licenciadas de uma empresa coreana, chamada RNL Bio, uma das muitas espalhadas pelo mundo que oferecem células-tronco adultas (ou até embrionárias) para uso terapêutico. A internet está cheia de sites comerciais sobre isso, todos eles recheados de relatos de pacientes que supostamente foram curados ou melhoraram de saúde depois de receber injeções de células-tronco. Como eu já disse, porém (e isso não é uma opinião, é um fato), é preciso deixar claro que nenhum desses “tratamentos” tem comprovação científica. É provável que muitos desses relatos positivos sejam resultados de efeito placebo, ou de outros tratamentos que são realizados concomitantemente à aplicação das células-tronco.

Não faz muito tempo, por exemplo, publiquei no Estadão uma reportagem sobre os resultados de um estudo clínico com células-tronco adultas para o tratamento de pacientes cardíacos com mal de Chagas no Brasil (um estudo sério, realizado por cientistas sérios!). Os resultados são emblemáticos da dificuldade de se interpretar os efeitos desse tipo de terapia quando não há acompanhamento científico adequado: os pacientes que receberam injeções de células-tronco melhoraram, de fato, mas os que receberam injeções de água e sal (placebo) melhoraram da mesma forma. Ou seja: se não houvesse grupo controle, seria fácil concluir que a melhora era um efeito terapêutico das células-tronco. Como havia um grupo controle, porém, verificou-se que a terapia era inócua. (Parabéns aos pesquisadores por publicar esses resultados negativos, o que é um tanto raro nesse tipo de pesquisa. Geralmente, só ficamos sabendo do que dá certo na ciência … mas a dura realidade é que a grande maioria dos experimentos e das pesquisas clínicas não chegam aos resultados esperados.)

Em resumo: se algum médico, de qualquer área, te oferecer um tratamento com células-tronco para qualquer coisa, no mínimo fique atento e procure se informar melhor! Você pode estar jogando seu dinheiro fora ou, pior ainda, se submetendo a algum procedimento perigoso. Células-tronco têm, sim, potencial para curar, mas também para formar tumores. Sem falar nos riscos inerentes a qualquer procedimento cirúrgico desnecessário, por mais simples que seja.

Abraços a todos.

Veja um post anterior meu sobre o mesmo assunto: Tira-teima celular

LEGENDA: Na foto acima, amostras de sangue de cordão congeladas no Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Rio, referência no País.