PREVER O IMPREVISÍVEL, NÃO É POSSÍVEL

Herton Escobar

21 Setembro 2011 | 13h49

 

Hoje vi na CNN uma notícia que não acreditei. Cientistas na Itália estão sendo acusados de homicídio culposo (sem intenção de matar) por não terem previsto um grande terremoto que devastou uma pequena cidade italiana dois anos atrás, matando mais de 300 pessoas. Diante de uma sequência de pequenos tremores registrados alguns dias antes, eles teriam falhado gravemente em não prever que um sismo maior estava prestes a acontecer, dizendo para que a população não se preocupasse.

Agora, parentes das vítimas culpam os cientistas pelas mortes, e a cidade de L´Aquila pede $50 milhões de euros em compensação. O julgamento começou hoje.

Ok. Entendo que os parentes das vítimas sintam raiva dos cientistas numa situação dessas. Mas daí acusá-los de homicídio culposo é um exagero absurdo. Em primeira instância, porque prever terremotos é impossível. Eles ocorrem quando placas tectônicas se movem repentinamente uma contra a outra, liberando quantidades imensas de energia (dito de uma forma bem simplificada e resumida). Para ser mais exato, elas estão sempre se movendo, ou tentando de mover, num constante jogo tectônico de empurra. Consequentemente, tremores pequenos ocorrem aos montes, todos os dias, em vários lugares do mundo, sem causar qualquer problema. E não são, necessariamente, um prelúdio de sismos maiores que estão para acontecer.

Portanto, os cientistas não podem ser condenados por deixar de prever algo que não pode ser previsto. Eles podem, talvez, ser criticados (e até repreendidos) por não ter se comunicado de uma maneira adequada com o público. Afinal, se não há como prever que um terremoto vai acontecer, também não há como garantir que ele não vai acontecer.

É um caso emblemático de má comunicação da ciência por parte dos cientistas e má compreensão da ciência pelo público. As pessoas, é claro, querem sempre respostas simples e diretas às suas perguntas. Quem não quer? Mas a ciência não é tão exata como gostaríamos que fosse. Ela é cheia de incertezas, teorias, hipóteses, probabilidades e curiosidades. Se você quer saber o que vai acontecer se jogar um piano da janela do seu prédio, a física pode te dizer exatamente com que velocidade o piano vai atingir o solo, em quanto tempo, com quanta força e qual será o resultado disso. Se você quer saber o que vai acontecer se misturar uma substância A com uma substância B, a química pode te dizer exatamente como as moléculas dessas duas substâncias vão interagir e qual será o resultado disso. Se vai explodir ou vai virar geleia. Com certeza.

Quando se lida com sistemas muito mais complexos, porém, a coisa é muito mais complexa. O fluxo de magma e o movimento de placas tectônicas no interior da Terra é um exemplo. Outros são os oceanos, as florestas, o clima, os buracos negros. Quantos graus a temperatura do planeta vai aumentar nos próximos anos? Como isso vai afetar o regime de chuvas no norte da Sibéria ou no sul da Patagônia? Quantos metros exatamente o nível dos oceanos vai subir? Podemos fazer estimativas, defender teorias, definir probabilidades … mas é muito difícil dar respostas definitivas, com certeza, em casos como esses. No caso de prever terremotos, impossível.

Outro exemplo de um sistema altamente complexo e muitas vezes altamente imprevisível é o corpo humano. O funcionamento de todas as moléculas e células do seu corpo é regido pelas mesmas leis da física e da química que nos permitem calcular a força de um piano jogado pela janela ou o resultado da mistura de leite com chocolate. O problema é que há tantas moléculas e tantas células interagindo de tantas maneiras, em tantos momentos, sob a influência de tantos fatores e variáveis, que mesmo obedecendo a todas as leis da física e da química ainda há uma enormidade de incertezas no sistema como um todo.

Dito isso, vamos transpor o caso do terremoto italiano para a medicina, com um câncer no lugar do terremoto e médicos no lugar dos geólogos. Se você vai a um médico com uma queixa qualquer (relacionada a um câncer), e o médico falha em diagnosticar aquele câncer, e por causa disso você acaba morrendo daquele câncer, o médico tem responsabilidade sobre a sua morte?

Uma amiga querida recentemente se curou de um linfoma, que ela detectou dois anos atrás, devido a um nódulo no pescoço. Os primeiros dois médicos que ela consultou disseram que não era nada, para ela não se preocupar. O terceiro pediu um exame na hora, e descobriu que era câncer. Felizmente a doença ainda estava em estágio inicial, ela fez tratamento e conseguiu se curar. Se tivesse se contentado com o diagnóstico dos dois primeiros médicos, porém, poderia não ter tido a mesma sorte.

A responsabilidade dos dois primeiros médicos é muito maior do que a dos geólogos, pelo fato de que era possível “prever” o câncer, mas não o fizeram. Ainda assim, porém, são situações difíceis, que precisam ser analisadas caso a caso.

Abraços a todos.

A matéria da CNN pode ser lida clicando aqui (em inglês). E tem essa também da BBC Brasil (em português).