Problemas de importação atrasam pesquisas sobre zika e células-tronco

Problemas de importação atrasam pesquisas sobre zika e células-tronco

Dificuldade para comprar reagentes com agilidade fora do Brasil obriga cientistas a fazer "vaquinhas" , usar "bola de cristal" e consumir produtos a conta-gotas para manter suas linhas de pesquisa funcionando. Projeto sobre o vírus da zika na UFRJ precisou ser interrompido esta semana por causa disso.

Herton Escobar

22 Março 2016 | 18h32

KSR é um líquido (substituto de soro bovino) usado para cultivar células-tronco em laboratório. Foto: Thermo Fisher Scientific

KSR é um líquido (substituto de soro bovino) usado para cultivar células-tronco em laboratório. Foto: Thermo Fisher Scientific

Dificuldades para importação de reagentes — um velho inimigo da ciência brasileira — estão atrasando o desenvolvimento de pesquisas sobre células-tronco e o vírus da zika na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O neurocientista Stevens Rehen teve de interromper seus experimentos com “minicérebros” (organóides de células-tronco que simulam a estrutura básica de um cérebro embrionário humano) no início desta semana por falta de Knockout Serum Replacement (KSR), uma substância indispensável ao cultivo desses organóides, que precisa ser importada dos Estados Unidos.

Pelo mesmo motivo, a pesquisadora Adriana Carvalho foi obrigada a congelar a maior parte da sua produção de células-tronco de pluripotência induzida (iPS), que ela utiliza para estudar o desenvolvimento de células cardíacas in vitro. “Começamos a economizar o reagente tão logo soubemos que não seria mais vendido no Brasil, em novembro”, conta a cientista, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ. “A partir de janeiro começamos a racionar o uso, apenas para os experimentos prioritários. Se mantivéssemos nosso ritmo de trabalho normal, o reagente já teria acabado faz tempo.”

O problema começou em outubro, com a entrada em vigor de uma nova regulamentação da Anvisa (

Documento

) proibindo empresas de importar centenas de produtos do tipo IVD — sigla em inglês para “diagnóstico in vitro” — sem registro no País. Até então, pesquisadores podiam comprar esses produtos diretamente das empresas fabricantes com representação no Brasil, assumindo um compromisso (por escrito) de que eles seriam usados apenas para fins de pesquisa e não para atividades comerciais. O produto chegava rápido, pois quem fazia a importação era a própria empresa.

Se a gente precisava com urgência, fazia o pedido e recebia o material em uma semana. Com a importação direta, demora meses— Adriana Carvalho, cientista da UFRJ

Agora, isso não é mais permitido. A única opção para os cientistas é fazer uma importação direta dos Estados Unidos, por meio de seus canais institucionais — por exemplo, via universidades ou agências de fomento, como o CNPq. Apesar desse tipo de importação prever várias facilidades, como isenção de taxas e agilidade de liberação alfandegária, ainda assim é bem mais complicado e mais demorado do que comprar diretamente da empresa no Brasil.

“Se a gente precisava com urgência, fazia o pedido e recebia o material em uma semana. Com a importação direta, demora meses”, relata Adriana.

Vaquinha obrigatória

Outro problema é o da quantidade. O custo básico de uma importação é tão alto que não compensa comprar poucas unidades de um produto — porque o custo dos impostos e do frete para trazer um lote de 5 frascos é o mesmo que para trazer um lote de 50. Assim, os pesquisadores são obrigados a fazer “vaquinhas” entre laboratórios para comprar reagentes em comum — um deles faz a importação em favor do grupo, depois os produtos são rateados entre os laboratórios e cada um paga sua parte.

Foi o que aconteceu neste caso. Quatro meses atrás, no final de novembro, Adriana fez uma encomenda à Thermo Fisher nos Estados Unidos, via CNPq, de 50 frascos de KSR, que serão rateados entre os laboratórios dela, de Rehen e outros três professores da UFRJ que trabalham com terapia celular. Cumpridos todos os trâmites, o pagamento foi efetuado em 29 de janeiro e a carga chegou em Miami, na Flórida, no dia 7 de março; mas até agora não chegou às mãos dos pesquisadores no Brasil. Cada frasco, de 500 ml, custa cerca de US$ 270.*

(*Atualização: A encomenda chegou ao laboratório de Adriana no final da tarde do dia 23, um dia após a publicação desta reportagem. O custo total da importação foi R$ 55.300)

Isso também obriga os cientistas a fazer planejamentos de longo prazo para compra de reagentes, que muitas vezes resultam em desperdício. “Temos de calcular quanto vamos precisar de um produto durante um ano, porque não dá para importar pequenas quantidades todos os meses”, explica Adriana. “O problema é que a ciência é muito dinâmica; os resultados vão saindo e o planejamento vai mudando. Temos que trabalhar com bola de cristal.”

Zika e Minicérebros

Rehen sentiu o baque do atraso. Seu laboratório, instalado no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), estava trabalhando a todo vapor desde o início do ano, produzindo organóides cerebrais e infectando-os com zika, para estudar a capacidade do vírus de infectar e destruir células neuronais humanas. Os resultados preliminares, divulgados no início de março, foram pioneiros e tiveram repercussão internacional. Nesta semana, a pesquisa teve de ser interrompida. O último frasco de KSR do laboratório acabou, e sem esse líquido laranja, os “minicérebros” não se desenvolvem.

“Como é que vamos ser competitivos desse jeito?”, questiona Rehen.

Como é que vamos ser competitivos desse jeito?” — Stevens Rehen, cientista da UFRJ e IDOR

Segundo informações colhidas pelo Estado, a resolução da Anvisa teria sido motivada pela constatação de que produtos IVD importados com a justificativa de uso exclusivo para pesquisa estavam sendo “desviados” para atividades comerciais — por exemplo, de diagnóstico clínico. A agência foi procurada pela reportagem, mas não foi possível conversar com alguém capaz de esclarecer a situação. A assessoria de imprensa informou apenas que a motivação da RDC 36 era “evitar o risco de comercialização” desses produtos.

“Será que não teria como fiscalizar isso sem penalizar os pesquisadores?”, pergunta Rehen. No caso específico do KSR, nem ele nem Adriana disseram conhecer qualquer tipo de aplicação desse reagente para fins de diagnóstico, apesar de o produto ser classificado como IVD. “Que eu saiba, não dá para fazer nada com isso que não seja cultivar células. O risco é zero”, afirma Rehen.

Lado empresarial

Cerca de 480 produtos da Thermo Fisher tiveram sua venda no país suspensa pelas novas regras, segundo a empresa. Para serem vendidos, eles precisariam ser registrados na Anvisa. “A Thermo Fisher faz constantemente análises de viabilidade mercadológica de seus produtos e serviços. Levando-se em conta esta análise, como a demanda atual pelo KnockOut Serum Replacement, seu potencial de comercialização, a burocracia e os custos consideráveis para a obtenção de seu registro na Anvisa, que variam de 5 a 30 mil reais, a companhia não tem planos no momento para registrar esse produto”, informou ao Estado a diretora executiva de Life Sciences da Thermo Fisher Scientific, Carla Abdo.

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Post atualizado às 13h30 do dia 23, com o posicionamento da empresa.