Projeto da nova base brasileira na Antártida começa a sair do papel

Projeto da nova base brasileira na Antártida começa a sair do papel

Nova versão da Estação Antártica Comandante Ferraz deve ficar pronta em 2018. Cerimônia de lançamento da pedra fundamental foi realizada nesta semana, quatro anos após o incêndio que destruiu a base anterior. Obra vai custar US$ 100 milhões e será feita por empresa chinesa.

Herton Escobar

03 Março 2016 | 18h14

Ilustração digital do projeto da nova Estação Antártica Comandante Ferraz. Crédito: Marinha do Brasil

Ilustração digital do projeto da nova Estação Antártica Comandante Ferraz. Crédito: Marinha do Brasil

Quatro anos após o incêndio que destruiu a Estação Antártica Comandante Ferraz, o plano de reconstrução da base de pesquisa brasileira no continente gelado vai finalmente sair do papel. O início dos trabalhos foi anunciado oficialmente na segunda-feira pelos ministérios da Defesa e da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com a inauguração de uma “pedra fundamental” simbólica em Punta Arenas, no Chile. A cerimônia deveria ter acontecido na própria Antártida, mas o mal tempo impediu o deslocamento da comitiva brasileira até o local.

A nova base vai parecer um hotel de luxo em comparação com a anterior, inaugurada em 1984, que era basicamente um aglomerado de contêineres interconectados — muito querida pelos pesquisadores, mesmo assim. O projeto arquitetônico, criado pelo Estúdio 41, foi escolhido em abril de 2014, por meio de um concurso público, baseado nas demandas técnicas apresentadas pela comunidade científica.

Pelos planos originais, a construção já deveria estar pronta, mas o governo teve dificuldades para contratar a obra. A primeira licitação, no início de 2014, terminou “deserta” — não recebeu nenhuma proposta. A segunda até recebeu propostas, mas teve seu resultado contestado pelas empresas concorrentes. Ao final de um longo imbróglio, saiu vencedora a construtora chinesa CEIEC (China Electronics Import and Export Corporation), que vai cobrar US$ 99,6 milhões pela obra — em várias prestações.

O novo prédio será construído no mesmo local do anterior: na ponta da Península Keller, às margens da Baía do Almirantado, na Ilha Rei George, 900 km ao sul da Patagônia — basicamente, o mais perto que se pode estar da América do Sul na Antártida. Ao todo, serão 4,5 mil metros quadrados de área construída (comparado a 2,5 mil da base anterior), com 17 laboratórios, biblioteca, ambulatório, área de convivência e acomodações para 64 pessoas, incluindo pesquisadores e pessoal da Marinha, que é a responsável pela gestão da estação. A meta é concluir a obra em 2018.

Para ver a localização exata da Estação Comandante Ferraz no Google Maps, clique aqui: https://goo.gl/maps/FBp3G5968Qt

Para ver a localização exata da Estação Comandante Ferraz no Google Maps, clique aqui: https://goo.gl/maps/FBp3G5968Qt

Expectativas

Cientistas brasileiros que trabalham no continente gelado estão ansiosos para ver o projeto concretizado. Desde o incêndio, a estação tem operado com instalações temporárias, chamadas Módulos Antárticos Emergenciais, que foram instalados sobre o antigo heliponto da base. É um esquema que vem funcionando bem, e permitiu a continuidade das pesquisas de forma bastante satisfatória, mas não deixa de ser uma solução temporária.

“A construção da nova base é fundamental para os experimentos da área biológica, com foco em ecossistemas e biodiversidade, que têm mostrado avanços significativos nos últimos anos”, diz a microbióloga Vivian Pelizzari, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP). “O apoio dos laboratórios é essencial para a continuidade de muitos projetos na Baía do Almirantado, que é um local importante para acompanhar as mudanças climáticas na Antártida.”

“A base é essencial, e um motivo de orgulho para todos nós”, diz o pesquisador João Paulo Machado Torres, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que estuda poluição ambiental e participou de quatro expedições à Antártida — inclusive, estava na estação quando ela pegou fogo, em 25 de fevereiro de 2012.

A estação em chamas, em 25 de fevereiro de 2012. Foto: Divulgação

A estação em chamas, em 25 de fevereiro de 2012. Foto: Divulgação

Preocupação

Há uma preocupação generalizada, porém, sobre uma possível escassez de recursos para pesquisas no continente no próximos anos, por conta da crise econômica que sufoca as contas do país. O glaciologista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), torce para que a nova base não se torne uma “casa vazia”, sem produção científica.

“Nossa grande preocupação agora é com a continuidade dos recursos”, afirma Simões. Segundo ele, os dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia dedicados à região (INCT da Criosfera e INCT Antártico de Pesquisas Ambientais) têm recursos para operar só até o final de setembro. Um novo edital de INCTs foi lançado em 2014, mas os resultados até hoje não foram divulgados, por falta de recursos. Outros 19 projetos de pesquisa estão na mesma situação, segundo Simões, que é o coordenador geral do INCT da Criosfera. O último edital dedicado ao Programa Antártico Brasileiro (Proantar) é de 2013.

Até outubro temos como fazer ciência na Antártida. Depois disso, não sei” — Jefferson Simões, pesquisador

“Até outubro temos como fazer ciência na Antártida. Depois disso, não sei”, resume Simões. A instalação de uma segunda estação de pesquisa automatizada no interior do continente (chamada Criosfera 2) já teve que ser adiada, diz ele, por falta de recursos. “E estamos tentando não abandonar o Criosfera 1, porque falta dinheiro para manutenção.”

Cerca de 25% das pesquisas na Antártida dependem diretamente das instalações fixas em terra, segundo Simões. Os outros 75% são realizados por meio de acampamentos temporários e, principalmente, dos navios de pesquisa da Marinha: Almirante Maximiano e Ary Rongel.

“Construir a nova estação é louvável. Porém, se os projetos não forem aprovados para que as pesquisas possam avançar, não adianta nada ter uma estação”, diz a pesquisadora Yocie Yoneshigue-Valentin, do Laboratório de Botânica Marinha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que coordena o INCT Antártico de Pesquisas Ambientais.

Instalações atuais da Estação Antártica Comandante Ferraz, com os Módulos Antárticos Emergenciais. Foto: Marinha do Brasil

Instalações atuais da Estação Antártica Comandante Ferraz, com os Módulos Antárticos Emergenciais. Foto: Marinha do Brasil

Compromisso

O ministro da Ciência e Tecnologia, Celso Pansera, disse na cerimônia no Chile que o Brasil “continuará apostando cada vez mais no sucesso da pesquisa antártica”. “Um investimento desse porte e os desafios financeiros e tecnológicos que foram superados significam que julgamos fundamental, para a ciência brasileira, que a Estação Antártica continue pesquisando e nos fornecendo dados importantes para o meio ambiente, para a geopolítica e para nossa economia”, declarou o ministro, segundo notícia divulgada pelo ministério.

O Programa Antártico Brasileiro é coordenado pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, e a reconstrução da estação carrega também um peso geopolítico considerável, além das suas finalidades científicas. “É uma demonstração muito forte para a comunidade científica e a diplomacia internacional que o Brasil mantém seu interesse na Antártida”, observa Simões. O país é membro do Tratado da Antártida desde 1975.

Detalhes do projeto da nova estação. Crédito: Infográfico Estadão

Detalhes do projeto da nova estação. Crédito: Infográfico Estadão