Projeto de lei torna obrigatório o ensino da evolução nas igrejas … Já pensou?

Projeto de lei torna obrigatório o ensino da evolução nas igrejas … Já pensou?

Projeto de lei do pastor Marco Feliciano exigiria o oposto: o ensino do criacionismo nas escolas. A comunidade científica é contra.

Herton Escobar

04 Dezembro 2014 | 17h26

Interior da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Foto: Patrick Landy/Wikipedia

Interior da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Foto: Patrick Landy/Wikipedia

Já pensou se o título desse artigo fosse verdadeiro? Qual seria a sua reação se um grupo de deputados da “bancada científica” (que não existe) apresentasse no Congresso um projeto de lei exigindo que o ensino da evolução se tornasse obrigatório nas igrejas de todo o país?

Imagino que a maior parte da sociedade seria contra a ideia, e com razão. Já imaginou se toda vez que um padre falasse que “Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança” ele precisasse abrir um parênteses para dizer que “porém, há uma teoria alternativa que diz que o homem nada mais é do que um primata de cérebro grande, que evoluiu da mesma forma que todos os outros seres vivos deste planeta, gradativamente, ao longo de milhões de anos, por meio de processos de seleção natural”? Seria ridículo, totalmente descabido. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. As pessoas vão à igreja para ouvir os ensinamentos da Bíblia, não teorias científicas de A Origem das Espécies.

Dito isso, fica fácil entender porque a maior parte da comunidade científica (e uma grande parte da sociedade) é contra o ensino do criacionismo nas escolas — porque uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Criacionismo e evolução não podem ser apresentados como explicações alternativas de uma mesma realidade, porque são ideias que pertencem a realidades diferentes.

Criacionismo (a ideia de que o homem, a Terra e todos os seres vivos foram criados por Deus da forma como existem hoje) é uma crença religiosa baseada na história de um livro sagrado, a Bíblia. A evolução (a ideia de que todos os seres vivos — incluindo o homem — evoluíram de um ancestral comum, e que as espécies evoluem continuamente ao longo do tempo, de acordo com processos de seleção natural que atuam sobre a interação de seus genes com o ambiente) é uma teoria científica, proposta inicialmente pelo naturalista britânico Charles Darwin em 1859, no livro A Origem das Espécies, e que vem sendo testada, questionada, corroborada e melhorada desde então por milhares de outros cientistas, de várias áreas do conhecimento, incluindo biologia, geologia, física e química.

Não são duas teorias científicas que competem entre si para explicar um mesmo fenômeno; nem duas doutrinas que fazem leituras diferentes de um mesmo texto sagrado para corroborar uma mesma crença. São uma crença (uma coisa) e uma teoria científica (outra coisa, completamente diferente). Obrigar um professor de biologia a ensinar o criacionismo como uma “teoria” alternativa à evolução seria, portanto, tão absurdo e ilógico quanto obrigar um padre a ler trechos de A Origem das Espécies na missa de domingo. Ou tão absurdo quanto exigir que um médico oncologista receitasse espiritismo como tratamento alternativo para a cura do câncer! Muita gente acredita que a fé tem o poder de curar doenças, e não há nenhum problema nisso, mas isso não quer dizer que rezar deva ser receitado por profissionais de saúde como uma terapia alternativa à quimioterapia. São propostas que pertencem a universos completamente distintos, tal qual a evolução e o criacionismo.

Exposição sobre evolução e ancestralidade humana no prédio de Ciências da Vida na Universidade da Califórnia Berkeley, com esqueletos de primatas e a réplica do esqueleto de um hominídeo, conhecido como Lucy. Crédito: Herton Escobar

Exposição sobre evolução e ancestralidade humana no prédio de Ciências da Vida na Universidade da Califórnia Berkeley, com esqueletos de primatas e a réplica do esqueleto de um hominídeo, conhecido como Lucy. Crédito: Herton Escobar

Convivência pacífica

Isso não significa dizer que a ciência e a religião não podem conviver pacificamente num mesmo espaço. Esse espaço, porém, é a consciência pessoal de cada um de nós— não uma sala de aula. Há muitos cientistas (incluindo biólogos) que acreditam em Deus e numa forma ou outra de criacionismo; assim como há muitas pessoas religiosas, não cientistas, que concordam, integralmente ou em parte, com o que propõe a teoria evolutiva. O próprio papa Francisco afirmou recentemente, assim como outros papas antes dele, que o Big Bang e a evolução são teorias válidas e compatíveis com a doutrina cristã (desde que o Big Bang seja obra de Deus e que a evolução seja uma lei divina e não se aplique ao homem, mas ok … é uma forma de conciliação). Outro exemplo famoso é o do cientista Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA, que coordenou o Projeto Genoma Humano, olhou o DNA humano bem de pertinho e, mesmo assim, é um homem profundamente religioso, que acredita na evolução e na criação divina ao mesmo tempo.

Em resumo: Muitas pessoas aprendem sobre criação na igreja e sobre evolução na escola, e optam por unir essas duas linhas de pensamento em sua consciência — algumas buscando interpretações mais flexíveis, num esforço de torná-las compatíveis, outras simplesmente ignorando suas incompatibilidades e aceitando cada uma por aquilo que realmente é: uma fé e outra, ciência. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e cada uma dessas coisas tem o seu lugar. Ciência se aprende na escola, fé se cultiva na igreja; e cabe a cada um, individualmente, conciliar essas duas coisas em sua consciência da maneira que achar melhor — seja ela lógica ou não.

Projeto de Lei

Levanto essa discussão agora porque há cerca de um mês, em 13 de novembro, o deputado e pastor Marco Feliciano, representante da bancada evangélica na Câmara federal, apresentou um projeto de lei propondo que o ensino do criacionismo seja inserido nos currículos das redes públicas e privadas de ensino de todo o país. Diz o PL que o ensino deverá “incluir noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe”, e “levar ao estudante, analogamente ao evolucionismo, alternância de conhecimento de fonte diversa a fim de que o estudante avalie cognitivamente ambas as disciplinas”. A íntegra do projeto aqui: http://goo.gl/DwGtbk.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) publicou no dia 28 de novembro uma carta, endereçada à Câmara dos Deputados, dizendo ser contra o projeto e explicando suas razões para isso —entre elas, o fato de a lei proposta ser inconstitucional e ferir os conceitos de Estado laico e liberdade religiosa. A íntegra da carta pode ser lida aqui: http://goo.gl/QT5eh2.

A Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBENBIO) e a Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciência (ABRAPEC) também divulgaram uma carta rejeitando o projeto: http://goo.gl/X4oEXq

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O que diz o PL 8099/2014:

Art. 1 Fará parte da grade curricular nas Redes Públicas e Privadas de Ensino, conteúdos sobre criacionismo.

§ 1o – Os conteúdos referidos neste artigo devem incluir noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe.

§ 2o – didaticamente o ensino sobre criacionismo deverá levar ao estudante, analogamente ao evolucionismo, alternância de conhecimento de fonte diversa a fim de que o estudante avalie cognitivamente ambas as disciplinas.

Art. 2 O chefe do Poder Executivo regulamentará esta lei.

Art. 3 Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.

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