QUANTO VALE CONHECER O UNIVERSO?

QUANTO VALE CONHECER O UNIVERSO?

Herton Escobar

03 Janeiro 2011 | 02h08

FOTO: ESO/Y. Beletsky

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Se você entrar agora no site do European Southern Observatory (ESO) vai levar um susto … Tem uma bandeira do Brasil lá!

O ESO, que é uma organização europeia, mas cujas instalações ficam no alto dos Andes chilenos, é o maior e mais moderno complexo de pesquisa astronômica da atualidade. É de lá que saem muitas das fotos de galáxias, nebulosas e aglomerados estelares que eu posto aqui no blog, por exemplo. E o Brasil, agora, faz parte dele.

No dia 29 de dezembro, o então ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, e o diretor geral do ESO, Tim de Zeeuw, assinaram um documento formalizando a adesão do Brasil ao grupo de 14 países europeus que compõem (e financiam) o observatório — Áustria, Bélgica, República Checa, Dinamarca, França, Finlândia, Alemanha, Itália, Holanda, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça e o Reino Unido. O contrato ainda precisa se aprovado pelo Congresso brasileiro para entrar em vigor, mas o ESO já tratou de botar a bandeira brasileira ao lado das outras … então o acordo parece já estar sacramentado. Se assim for, o Brasil se tornará, oficialmente, o primeiro membro não-europeu do ESO.

Consequentemente, os astrônomos brasileiros ganharão o direito de usar alguns dos telescópios mais avançados do mundo, como o belíssimo Very Large Telescope (VLT), um arranjo de quatro espelhos de 8 metros de diâmetro que podem funcionar separamente ou conjuntamente, como se fossem um único telescópio de 32 metros de diâmetro. Para quem não está familiarizado com esse tipo de tecnologia, basta dizer que quanto maior o espelho, mais “poderoso” o telescópio … e 8 metros já é muita coisa. O maior telescópio no Brasil, para se ter uma ideia, tem 1,60 metro de diâmetro — localizado no Observatório do Pico dos Dias, em Minas Gerais. O País também já é parceiro de dois observatórios internacionais nos Andes chilenos, chamados SOAR (de 4 metros) e Gemini (de 8 metros), o que ajudou a impulsionar a astronomia nacional imensamente nos últimos anos. Mas muitos na comunidade científica achavam que isso não era suficiente … queriam o ESO, e agora, conseguiram.

Não só isso, mas com a entrada no ESO o Brasil poderá participar da construção e operação do European Extremely Large Telescope (E-ELT), que, como o nome já indica, será um telescópio extremamente grande, com espelho de 42 metros de diâmetro (o maior do mundo!), a ser construído pelo consórcio europeu nos próximos anos, também nos Andes chilenos, a 3 mil metros de altitude.

Incrível! Mas claro que isso tudo não virá de graça … Fazer ciência de ponta, geralmente, custa caro. E a astronomia está entre as mais caras das ciências, do ponto de vista instrumental.

Segundo o press release divulgado pelo MCT, a adesão do Brasil ao ESO vai custar aos cofres públicos cerca de R$ 555 milhões nos próximos 11 anos. Já com um belo desconto, por sermos um país de recursos mais limitados, comparado ao que pagam os membros europeus, proporcionalmente. A negociação foi marcada por uma briga séria com alguns dos nomes mais importantes da astronomia brasileira, que discordavam da entrada do Brasil no observatório, por acharem caro demais, pouco vantajoso para o País e prejudicial à continuação dos programas SOAR e Gemini. Mas acabou vencendo a vontade da maioria, que era a favor da adesão. (Publiquei duas reportagens grandes sobre essa polêmica no ano passado, no Estadão.)

E  você, acha que vale pagar R$ 555 milhões para estudar estrelas, galáxias e buracos-negros? Num país que ainda luta contra a fome, não tem saneamento básico nem hospitais suficientes? … A astronomia tem pouca aplicação prática no nosso dia a dia. Certamente não salva a vida de ninguém. Mas é incrível como ela cativa, encanta e desperta a curiosidade das pessoas. Quanto vale a foto de uma galáxia distante, com bilhões e bilhões de estrelas brilhando dentro dela? Quanto vale saber que o Universo começou a se expandir 14 bilhões de anos atrás? E que continua se expandindo até hoje? E que há montes e montes de outros planetas espalhados por aí? E que um dia, daqui alguns bilhões de anos, nosso Sol vai “inflar” e incinerar a Terra, caso a gente ainda esteja por aqui … ? E que há bilhões de “buracos” soltos por aí no espaço,engolindo tudo a sua volta, onde a gravidade é tão forte, mas tão forte, que nem a luz consegue escapar de dentro deles? E que nosso planetinha é apenas mais um grão de areia perdido na infinidade do espaço …

Não tem preço.

Abraços a todos.