QUE COR É ESSA?

QUE COR É ESSA?

Herton Escobar

28 Setembro 2011 | 15h14

Antes de ler este post, olhe para a foto no fim do texto e compare-a com o do post anterior, logo abaixo. Percebe a diferença? E a semelhança?

As fotos foram feitas na mesma anêmona. A única diferença é que uma foi feita com flash (a verde) e a outra, sem flash. Mas então, qual é a cor “verdadeira” da anêmona? A que você enxerga naturalmente, ou a que é “trazida à luz” pelo flash da máquina?

É uma curiosidade que pode ser analisada do ponto de vista puramente técnico. Mas também um tanto filosófico. Voltando a uma questão que já abordei algum tempo atrás aqui no blog: O que é a realidade? E o que é percepção (ou interpretação) da realidade?

Várias vezes nos três meses que passei mergulhando e trabalhando na Indonésia eu levei sustos ao bater uma foto e olhar para a tela da máquina em seguida. Várias vezes, quando usava flash, o que aparecia na tela era tão diferente do que eu via “a olho nu”. Tão mais colorido!

A explicação puramente física é que a água do mar funciona como um filtro, ou uma peneira, que absorve gradativamente diferentes cores do espectro luminoso. A primeira a “desaparecer” é o vermelho. Depois o laranja, amarelo e verde. Até que, abaixo de uns 30 metros, só passa mesmo a luz azul e violeta. Você pode pensar na luz visível do Sol como um arco-íris, em que cada faixa de cor tem um comprimento de onda diferente. Quando esse arco-íris passa pelo filtro da água marinha, as faixas de comprimento grande, como o vermelho, são absorvidas primeiro, e as de comprimento pequeno, depois. Como se fossem partículas em suspensão passando por um filtro de água … as partículas maiores são filtradas facilmente, logo no início, enquanto que as partículas menores penetram mais fundo no filtro.

Resultado: Se você olhar para um objeto vermelho abaixo de 10 metros de profundidade, ele não aparecerá vermelho. Aparecerá sem cor definida. Na superfície ele aparece vermelho porque essa é a única faixa do arco-íris que é refletiva de volta para o seu olho. Todas as outras são absorvidas pelo objeto. No fundo do mar, como não há faixa vermelha para ser refletida, o objeto aparece “sem cor”.

Quando eu jogo a luz de uma lanterna sobre ele, ou o flash de uma máquina fotográfica, é como se eu estivesse levando o Sol para debaixo da água. Ou trazendo o objeto de volta à superfície. O que você preferir – de cima para baixo, ou de baixo para cima. Por isso os mergulhos noturnos são tão bacanas … com a lanterna, à noite, você enxerga muito mais cores do que de dia, com o Sol. Imagine só!

Mas então, qual é a cor “verdadeira” do objeto? A da superfície, ou a do fundo do mar?

Se considerarmos que nós o enxergamos vermelho na superfície porque essa é a única faixa do arco-íris que ele reflete, eu poderia argumentar que ele “na verdade” é tudo MENOS vermelho. Que o vermelho é apenas o que nós enxergamos porque foi a cor “rejeitada” pelo objeto.

Ok, ok … tô dando uma viajada aqui. Mas imagine só! A maneira como nós enxergamos o mundo é apenas uma maneira de enxergá-lo. É a NOSSA maneira. Mas não a única. Nem necessariamente a melhor. Se a composição da atmosfera fosse um pouco diferente, ou a biologia dos nossos olhos um pouco diferente, poderíamos ver o mundo de uma maneira bastante diferente também. Tipo quando você coloca um óculos de sol com lentes coloridas. Se você nunca mais tirasse os óculos, ou já nascesse com eles, aquela seria a sua realidade de cores … e o mundo sem os óculos é que seria o estranho, o diferente. Mas é o mesmo mundo! Apenas visto de maneiras diferentes.

O mesmo raciocínio se aplica ao verbo “ver” não apenas no sentido de “enxergar”, mas de interpretar a realidade e os fatos a nossa volta de uma forma geral. É algo que eu faço diariamente como jornalista: olhar as coisas por uma diversidade de ângulos e posições, tentando enxergar e entender todas as maneiras possíveis de interpretá-la.

Abraços a todos.