QUE SORTE, QUE NADA

Herton Escobar

15 Março 2010 | 14h38

FOTO: Reuters

Um dia desses eu estava numa mesa de bar conversando sobre futebol com uns amigos e surgiu a seguinte discussão: na visão de alguns deles, a coisa mais importante no futebol é SORTE!

Isso mesmo: SORTE! Um dos exemplos dados foi que o Brasil só ganhou a Copa de 1994, nos Estados Unidos, porque o Roberto Baggio perdeu aquele pênalti na final. Ou seja: demos sorte!

Ora bolas, discordo totalmente! Não só futebol não tem nada a ver com sorte, mas tenho sérias dúvidas se existe mesmo essa coisa chamada sorte – dependendo de como se define o termo. Então vamos fazer um Imagine só! a respeito….

O que existe, com certeza, são probabilidades. Cada vez que você atravessa a rua (na verdade, cada vez que você dá um passo na vida), muitas coisas podem acontecer. O mais provável é que não aconteça nada. Mas também existe a probabilidade de que você seja atropelado, tropece num buraco e bata a cabeça no asfalto, escorregue numa casca de banana e quebre o cotovelo, seja atingido por uma bala perdida, seja atingido por um raio, esbarre na sua futura esposa, ache uma mala cheia de dinheiro que um bandido desesperado jogou pela janela do carro …… as possibilidades são quase infinitas.

A probabilidade de algumas dessas coisas acontecerem é muito baixa. Mas ela existe. Então, se pensarmos na sorte ou no azar como a ocorrência de um fato possível, porém pouco provável, sobre o qual não temos controle, tudo bem … Podemos dizer que ser atingido por uma bala perdida é azar, ou que achar uma mala de dinheiro é sorte, porque são acontecimentos aleatórios sobre os quais não temos qualquer controle.

Não é o caso de uma partida de futebol. Muito menos de uma cobrança de pênalti. Nesse caso, estamos falando de acontecimentos que são diretamente influenciados pelos seus participantes. O Baggio não errou o pênalti por azar nem o Brasil ganhou a Copa por sorte. O Baggio errou porque errou. Talvez ele tenha se distraído na hora de chutar. Talvez ele estivesse cansado. Talvez a bola não estivesse bom acomodada no gramado. Talvez o fato do Taffarel já ter defendido vários pênaltis naquela Copa o deixaram nervoso…. Enfim, há uma série de fatores que influenciam uma cobrança de pênalti e que não têm nada a ver com sorte ou azar. Se o Baggio tivesse sido o primeiro e não o último da lista de batedores, certamente a pressão psicológica sobre ele seria muito menor e sua chance de acertar o chute, muito maior. Se o goleiro fosse outro, se o lado do campo fosse outro…. Tudo isso influencia.

Costuma-se dizer que decisão por pênaltis é uma loteria… o que é um ótimo consolo para quem perde a disputa, mas não significa que seja verdade. Uma loteria de verdade, essa sim, é definida pela sorte, porque cada número tem uma probabilidade idêntica de ser sorteado e o apostador não nenhum controle sobre o resultado, que é totalmente aleatório. Não é caso de uma disputa de pênaltis, em que os jogadores influenciam diretamente o resultado de suas cobranças ou defesas.

Outro conceito meio enganoso é o de que sorte é bom e azar é ruim. Uma coisa boa hoje pode trazer consequências ruins mais adiante. Como dizem: há males que vem para bem, mas há bens que vem para o mal também. Por exemplo: Acertar na loteria pode te deixar milionário (sorte!) hoje, mas por causa disso talvez você seja sequestrado por bandidos no futuro (azar!). Você pode achar que teve sorte de conseguir um certo emprego hoje, mas quem garante que se você tivesse aguardado mais um mês desempregado não teria conseguido um outro emprego muito melhor e seria muito mais feliz?

Eu moro em um apartamento em Moema. A cada 5 ou 10 minutos, um avião passa voando sobre a minha cabeça, a caminho do aeroporto de Congonhas. Se um desses aviões um dia sofrer um acidente no procedimento de descida, existe uma possibilidade real de que ele caia sobre o meu prédio. Se considerarmos que cada vez que um avião cai é azar, então cada vez que um não cai é sorte?

E se o avião cair sobre o prédio do outro lado da rua. Foi sorte minha, ou azar dos meus vizinhos?

A maioria dos acidentes aéreos é causado por uma combinação de falhas humanas e mecânicas. Talvez o piloto se distraiu, ou estava doente naquele dia, ou os mecânicos cometeram um erro na manutenção da aeronave, ou o software de controle de voo tinha  um erro não detectado de programação … Resultado: Você pode ter o azar de estar num avião que vai cair (ou a sorte de estar em um que não vai cair). Mas o fato do avião cair não tem nada a ver com azar. Ele cai porque alguém ou alguma coisa fez ele cair.

Apenas uma reflexão….
Abraços e boa sorte a todos!