QUEM SE IMPORTA COM OS PEIXES?

QUEM SE IMPORTA COM OS PEIXES?

Herton Escobar

01 Março 2012 | 15h36

 

FOTO: JF DIORIO/AE

Há anos eu escrevo reportagens sobre estudos que alertam para a destruição que o homem está causando nos oceanos. A mais recente delas, publicada no domingo passado, falava sobre um aparente colapso das atividades de pesca marinha no Estado de São Paulo (leia abaixo). Algo que, segundo os especialistas, é um sintoma local de um problema mundial, associado ao colapso dos estoques pesqueiros e à degradação dos ecossistemas marinhos de uma forma geral, no planeta inteiro.

Agora, temos a notícia de que o novo ministro da Pesca e Aquicultura do Brasil é um bispo evangélico, o senador Marcelo Crivella, sem qualquer experiência na área, escolhido para o cargo por questões exclusivamente políticas.

Que desgosto …

Como é que vamos um dia resolver os problemas deste país se as pessoas encarregadas de resolver esses problemas não são capazes nem de entendê-los de maneira minimamente qualificada? Imagine o novo ministro lendo um relatório técnico sobre a necessidade de instituir defesos ou moratórias de pesca, baseado em características biológicas e interações ecológicas de determinadas espécies no ecossistema marinho … coisas assim. Por mais que ele tenha assessores com qualificações técnicas em seu gabinete, ele é o cara responsável em última instância por tomar as decisões e assinar os documentos. Seria o mesmo que pedir que eu assinasse um diagnóstico médico e recomendasse um tratamento adequado para um paciente. Por mais que eu tenha médicos qualificados me assessorando, eu não sou médico! Sou jornalista! Não sou qualificado para assinar diagnóstico nenhum! Muito menos recomendar tratamento.

Realmente lamentável. Pode perceber que nenhuma das reportagens publicadas sobre o assunto fala qualquer coisa sobre pesca. Absolutamente nada. Só sobre política.

Mas também … vai perguntar o que sobre pesca para um bispo evangélico? “Não sei colocar minhoca no anzol”, reconheceu Crivalla em entrevista à Rádio Estadão ESPN.

(NOTA: Quero deixar claro que não estou mencionando o fato de o novo ministro ser bispo evangélico como algo pejorativo. Ele poderia ser católico, muçulmano, budista, ateu ou seja lá o que for … Poderia ser médico, engenheiro ou pedreiro. O problema é que ele não entende nada de pesca e aquicultura. Ponto.)

Vejam só o que aconteceu com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) nos últimos anos. Durante a gestão do físico Sergio Rezende, o setor prosperou. Os cientistas, professores e empresários do setor podiam falar de igual para igual com o ministro, porque ele entendia do assunto! Ele fazia parte do sistema. Aí botaram o Mercadante e … enfim. Mais recentemente, o político Mercadante foi trocado pelo matemático Marco Antonio Raupp. O fato de Raupp ser cientista não significa que ele será um bom ministro, de maneira alguma. Mas pelo menos ele tem um currículo compatível com seu cargo.

Coitados dos peixes. Coitados de nós.

O senador Cristovam Buarque disse: “O governo resolveu pôr na Pesca um pescador de almas, que ainda vai andar sobre as águas”. Só não entendi se ele estava elogiando ou sendo sarcástico. Vou perguntar ao Sheldon, do The Big Bang Theory, que entende de sarcasmo. Comédia por comédia, prefiro na televisão.

Digo tudo isso com muito respeito ao senador e novo ministro,  Sr. Marcelo Crivella. Não o conheço. Talvez ele seja um homem muito inteligente, justo, e que fará uma ótima gestão, obrigando-me a morder a língua no futuro. Tomara! O problema não é ele, é o sistema político que o colocou lá.