REALIDADE FICTÍCIA

REALIDADE FICTÍCIA

Herton Escobar

28 Dezembro 2010 | 15h00

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Esses dias assisti, finalmente, o filme A Rede Social, sobre a criação do Facebook. Muito bom! A história me fez refletir sobre algumas coisas neste fim de ano.

A primeira, mais concreta, é sobre a minha profissão. O jornalismo. A trama apresenta um contexto perfeito para se discutir uma das regras mais básicas do bom jornalismo: a de sempre ouvir os dois (ou três, ou quatro …) lados de uma história. Imagine, por exemplo, que eu decidisse escrever uma reportagem sobre a criação do Facebook alguns anos atrás, quando o site começou a explodir e essa história toda do filme ainda não havia sido publicada. Seria muito fácil ir até o Marc Zuckerberg, conversar com ele e escrever a reportagem com base nessa entrevista. Afinal, quem poderia saber mais sobre a criação do Facebook do que o seu próprio criador?? Se ele disse que aconteceu assim, deve ter acontecido assim. Certo?

Não necessariamente. Obviamente, há muitas versões diferentes sobre como tudo aconteceu. Inclusive entre os seus próprios protagonistas.  O livro que inspirou o filme (Bilionários por Acaso, de Ben Mezrich) foi baseado principalmente em entrevistas com o brasileiro Eduardo Saverin, amigo de Zuckerberg em Harvard e co-fundador do Facebook. E ele claramente tem uma visão muito diferente da do ex-amigo sobre como tudo aconteceu. Se fosse Zuckerberg que tivesse escrito o roteiro, os fatos talvez até tivessem sido os mesmos, mas os diálogos, o enfoque e a maneira de interpretar esses fatos certamente teriam sido bem diferentes. Se fossem os irmãos Winklevoss fazendo o relato, então, nem se fala …

Um bom repórter, claro, teria feito um mínimo de investigação e saberia que Zuckerberg estava sendo processado, inclusive pelo melhor amigo, e assim por diante. E teria entrevistado todas as pessoas envolvidas, apurado todos os fatos e teria feito uma boa reportagem, contando todos os lados da história.

Mas o jornalismo, claro, não é feito apenas de bons repórteres.

A segunda reflexão, bem mais abstrata que a primeira, é sobre como interpretamos a realidade. Imagine, agora, que você tenha feito todas as entrevistas, ouvido todos os lados da história, e apurado todos os fatos disponíveis. E então … qual é a versão verdadeira? O que realmente aconteceu? Qual é a realidade sobre a criação do Facebook? Ou sobre qualquer outra coisa, já que estamos nesse assunto?

O Mark Zuckerberg, o Eduardo Saverin e os irmãos Winklevoss podem contar uma mesma história de maneiras bastante diferentes e, mesmo assim, é possível que todos eles estejam certos. Ninguém necessariamente está mentindo. Porque a realidade não é absoluta. Ela é, em muitos casos, interpretativa. Principalmente em contextos sociais. Cada pessoa interpreta a realidade de uma forma diferente, sob o contexto de suas experiências, opiniões, convicções, interesses e preconceitos pessoais. Ou seja: a realidade é parcial. Não existe uma realidade universal, mas sim realidades coletivas, compostas de realidades individuais, que podem ou não concordar entre si em todos os aspectos.

Claro que não estou falando de fatos concretos. Tipo: se você deu um tiro numa pessoa, e a pessoa morreu, você é responsável pela morte daquela pessoa. Pode-se até questionar os motivos, mas que o tiro foi a causa da morte é algo que não está sujeito a interpretações. É fato. Assim como 2+2 =4 e 4+4=8.

Estou falando da maneira como “enxergamos” o mundo a nossa volta de uma maneira geral. Quantas milhões de pessoas não assistem a um mesmo jogo de futebol e têm visões completamente diferentes sobre o que aconteceu dentro de campo? O juiz roubou ou não roubou? O time mereceu ganhar ou não mereceu? E quantas milhões de pessoas não são governadas pela mesma pessoa e tem avaliações completamente diferentes sobre o que se passou nos últimos oito anos? Afinal, Lula fez um bom governo ou não fez? O Brasil melhorou ou não melhorou?

Eu posso escrever um livro entrevistando dezenas de especialistas que acham que o Lula fez um ótimo governo. Outra pessoa pode escrever um livro entrevistando dezenas de especialistas dizendo que o Lula fez um péssimo governo. E isso não significa que um seja verdade e o outro, mentira. São apenas interpretações diferentes de uma mesma realidade.

E quem nunca teve uma discussão com alguém do tipo: “Eu tenho certeza que te dei a chave do carro.” Enquanto a outra diz: “Eu tenho certeza que você não me deu a chave do carro.” E a chave simplesmente nunca aparece … Afinal, quem está dizendo a verdade? Como é que duas pessoas podem ter certeza absoluta sobre duas realidades opostas? Uma delas, obrigatoriamente, tem de estar errada. Uma delas tem certeza de que algo que não aconteceu, aconteceu. E a outra, de que algo que aconteceu, na verdade não aconteceu. Na realidade individual de cada uma, ambas estão certas. Nenhuma, necessariamente, está mentindo.

A realidade é algo criado pelo nosso cérebro, com base em informações coletadas pela visão, pelo olfato, pela audição, pelo paladar e pelo tato, e depois interpretadas com base na bagagem intelectual, racional ou irracional, que cada um de nós carrega desde o nascimento. Não só ela pode variar de uma pessoa para outra, mas a própria pessoa pode ver uma coisa e achar que viu outra. Imaginar coisas. Misturar realidade com sonhos. Transformar ficção em realidade. Até que ela mesma não sabe mais diferenciar uma coisa da outra. E, no fim das contas, a “realidade real” torna-se algo intangível, irresgatável, até mesmo para aqueles que a vivenciaram. Um híbrido frankenstein de memórias e opiniões.

A realidade, assim como a beleza, está nos olhos do observador.

Por isso um dos princípios mais básicos do método científico é a replicabilidade. Na ciência, um resultado experimental só é considerado válido se puder ser replicado por outras pessoas. Por exemplo: eu faço uma pesquisa no meu laboratório e publico os resultados numa importante revista científica, descrevendo o passo a passo de como o experimento foi feito. O método científico diz que esse resultado só é válido se outros laboratórios que fizerem o mesmo experimento, seguindo os mesmos passo, chegarem exatamente ao mesmo resultado. Caso contrário, nada feito. O trabalho pode até ganhar fama de início, mas acaba caindo no esquecimento, ou denunciado como fraude. A realidade, na ciência, tem de ser igual para todos.

Voltando ao Facebook: O Zuckerberg, afinal, é um gênio, ou apenas um ótimo programador que se aproveitou de uma boa ideia alheia?

E a chave do carro … o que diabos aconteceu com ela?

Nunca saberemos.

Abraços e um ótimo 2011 a todos.