Recifes de coral do Caribe, a caminho da extinção

Recifes de coral do Caribe, a caminho da extinção

Relatório sobre o estado de saúde dos ecossistemas recifais caribenhos mostra que cobertura média de corais vivos é de apenas 14%, e pode desaparecer por completo nas próximas décadas se não forem adotadas medidas urgentes de conservação. Brasil "segue no mesmo caminho", alerta pesquisador

Herton Escobar

06 Julho 2014 | 13h58

Recife com corais saudáveis em Bermuda. Crédito: Catlin Seaview Survey 2013

Recife parcialmente degradado em Guadalupe. Crédito: Catlin Seaview Survey 2013

Recife coberto de algas e lodo em St. Vincent. Crédito: Catlin Seaview Survey 2013

Quem mergulha hoje em dia no Caribe pela primeira vez e acha aquilo lindo provavelmente não imagina como eram aqueles recifes de coral algumas décadas atrás — muito, muito mais bonitos, mais ricos, coloridos e produtivos. O “lindo” que se vê hoje no Caribe, na grande maioria dos casos, nada mais é do que um resquício empobrecido dos recifes de coral que um dia existiram ali. O equivalente a caminhar por um pasto coberto de mato, onde antes havia uma floresta tropical intocada.


E não estamos falando de tempos pré-históricos, não, mas de um passado incrivelmente recente — coisa de 30 a 40 anos atrás, no máximo. É o que mostra o relatório mais detalhado já feito sobre os ecossistemas recifais do Caribe, publicado nesta semana pela Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral (GCRMN, em inglês), que traz o alerta de que os corais do Caribe poderão desparecer quase que por completo nas próximas décadas, se um conjunto de medidas não for adotado com urgência para reverter a situação.

Para ler o relatório completo, clique aqui: 

Documento

Segundo o levantamento, que combina resultados de centenas de estudos realizados sobre a região desde a década de 1970, a cobertura média de coral vivo no recifes caribenhos hoje é de aproximadamente 14%, comparado a 50% quarenta anos atrás. Dito de outra forma: Se você mergulhasse numa região qualquer do Caribe antes de 1970 e olhasse para um recife de corais, cerca de metade dele estaria coberto de coral vivo. Enquanto que, se você mergulhar hoje, verá apenas 14% do recife coberto com coral vivo. O restante será, em sua maior parte, um esqueleto de coral morto e coberto de algas.

O número e a variedade de peixes presentes no recife, da mesma forma, será drasticamente menor do que no passado. Assim como de outros organismos marinhos, incluindo crustáceos e moluscos.

Recife coberto de algas (em vez de corais) na Jamaica. Crédito: Bob Steneck

MOTIVOS

A receita da destruição tem três ingredientes principais, segundo o relatório: 1) Sobrepesca, de todos os tipos e tamanhos de peixes, incluindo os herbívoros, que mantinham a proliferação de algas sob controle no passado; 2)Excesso de população e ocupação desordenada das regiões costeiras, que gera poluição e impacta diretamente os recifes de coral ao redor; 3) Introdução de doenças e espécies invasoras, que enfraquecem a saúde dos corais (tornando-os mais vulneráveis a todo tipo de pressão), reduzem a diversidade de peixes, e já dizimaram uma espécie de ouriço (a Diadema antillarum), que também mantinha as algas sob controle no passado.

Note que as mudanças climáticas (associadas ao aquecimento e acidificação dos oceanos, e ao aumento da ocorrência de furacões) não aparece nessa lista; e essa é uma das principais novidades do relatório, que tem implicações importantes para o gerenciamento do problema.

“As ameaças das mudanças climáticas e da acidificação dos oceanos aparecem como preocupações crescentes para o futuro, mas os fatores locais de estresse, incluindo o aumento explosivo do turismo, a sobrepesca e o consequente aumento da cobertura de macroalgas têm sido os principais fatores por trás do declínio catastrófico de corais do Caribe”, escrevem os pesquisadores, liderados pelo paleobiólogo Jeremy Jackson, do Smithsonian Tropical Research Institute, no Panamá. “O que isso significa é que decisões e ações inteligentes adotadas na escala local poderiam fazer uma enorme diferença para aumentar a saúde e a resiliência dos recifes de coral do Caribe e das pessoas e negócios que dependem deles.”

A mensagem dos pesquisadores, na prática, é essa: Não adianta botar a culpa no aquecimento global e transferir a responsabilidade de salvar os recifes de coral do Caribe para as potências internacionais. A responsabilidade é das próprias nações caribenhas, e cabe a elas implementar as políticas e medidas locais necessárias para reverter esse quadro de degradação — entre elas, o controle da pesca e a recuperação dos estoques nativos de peixes; em especial, das espécies herbívoras, como as de peixe-papagaio (conhecido no Brasil como budião).

Um peixe-papagaio no Caribe. Crédito: Shutterstock.com

Repovoar os recifes com esses peixes comedores de algas, dizem os cientistas, é crucial para a sobrevivência desses ecossistemas; especialmente após a quase extinção dos ouriços Diadema (dizimados por uma doença não identificada na década de 80, da qual suas populações nunca se recuperaram). As algas crescem muito mais rapidamente do que os corais e são favorecidas pela poluição marinha, que torna a água mais “fértil” para elas. Sem os ouriços e sem os peixes herbívoros para mantê-las sob controle, elas tomam conta dos recifes rapidamente, como ervas daninhas que se espalham por um jardim mal cuidado. E não só ocupam o espaço dos corais como liberam substâncias na água que prejudicam a saúde deles.

Os estudos compilados pelo relatório mostram que há uma relação direta entre a presença de peixes herbívoros e a saúde dos ecossistemas recifais. Aqueles que coibem a sobrepesca e contam com a “proteção” dos papagaios têm um cobertura de algas muito menor e se recuperam com muito mais rapidez de eventos extremos, como ondas de calor (que causam branqueamento dos corais) ou o impacto de furacões (que destroem temporariamente a cobertura dos recifes), do que os recifes que foram desguarnecidos desses peixes.

Os poucos locais que ainda abrigam recifes de corais saudáveis na região são justamente aqueles que já implementaram restrições à pesca dos papagaios e outras medidas efetivas de proteção, com destaque para as ilhas de Bermuda e Bonaire, que mantêm uma cobertura média de coral vivo acima de 30%. A boa notícia, portanto, é que é possível manter esses ecossistemas vivos, se houver empenho e vontade política para isso.

“A conclusão básica é que o declínio está sim ocorrendo, mas existem áreas sem tendência de declínio na cobertura de corais, para as quais devemos olhar em detalhe para aprender algo que seja aplicável a conservação da região como um todo”, avalia o pesquisador Ronaldo Francini Filho, biólogo marinho da Universidade Federal da Paraíba.

LIÇÕES PARA O BRASIL
Para o também biólogo marinho e coordenador executivo do Projeto Coral Vivo, Gustavo Duarte, o relatório traz algumas mensagens importantes para o Brasil. “Sinto que podemos estar seguindo no mesmo caminho”, alerta ele.

A situação dos recifes de corais brasileiros, hoje, é boa. O problema é que o mesmo podia ser dito dos recifes de corais caribenhos até pouco tempo atrás; e os mesmos fatores de risco que causaram a mudança de cenário no Caribe estão presentes no Brasil: sobrepesca, poluição, ocupação desordenada da costa, falta de políticas eficazes de conservação.

“As coberturas coralíneas no Brasil não estão diminuindo, mas a quantidade de peixes está visivelmente diminuindo”, aponta Duarte. O aumento da pesca do budião é especialmente preocupante. “Se você tira esses peixes do recife, o recife morre”, sentencia Duarte. “Estamos num estágio muito mais inicial do que o do Caribe, mas isso não significa que não possamos acabar do mesmo jeito; basta seguir a receita.”

Nos recifes de Porto Seguro (BA), por exemplo, as populações de budião já minguaram, e é possível encontrar corais infectados por bactérias humanas, oriundas da poluição por esgoto.

A pesca do budião também preocupa na região dos Abrolhos, no sul da Bahia (área com a maior concentração de recifes de coral do Atlântico Sul), onde o peixe já começou a sumir dos recifes e ocupou o lugar no cardápio de outros peixes, como garoupas e badejos, cujas populações já foram rareadas pela pesca nas últimas décadas. Ambientalistas, agora, trabalham para que ele não siga o mesmo caminho e seja classificado como uma espécies ameaçada de extinção. Nesse caso, aponta Duarte, será preciso trabalhar muito bem as questões sociais relacionadas à atividade, já que, assim como no Caribe, a pesca do budião se tornou uma importante fonte de sustento para muitas comunidades tradicionais de pescadores.

Para mais informações sobre a pesca do budião em Abrolhos, veja a reportagem: Com um arpão na mão e uma mangueira entre os dentes

A principal espécie invasora do Caribe é o peixe-leão. Saiba mais sobre ele aqui: http://goo.gl/sTk8q0

Abaixo, um vídeo de um budião se alimentando de algas no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos. (A concentração de macroalgas nos recifes brasileiros é naturalmente maior do que no Caribe, por conta das águas mais turvas, menos favoráveis aos corais e mais favoráveis às algas.)

E por fim, um vídeo divulgado pela IUCN, com uma conversa do autor Jeremy Jackson com sua mulher, a também pesquisadora Nancy Knowlton, na qual eles relembram seus primeiros mergulhos no Caribe, na década de 1970, e contam da angústia de ver os corais desaparecerem diante de seus olhos no decorrer dos anos.

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