REPORTAGEM ESPECIAL: ATOL DAS ROCAS (1)

REPORTAGEM ESPECIAL: ATOL DAS ROCAS (1)

Herton Escobar

26 Setembro 2012 | 15h51

O caderno especial Planeta, publicado toda última quarta-feira do mês pelo Estadão, traz na edição de hoje uma série de reportagens especiais sobre o Atol das Rocas, a mais antiga (e uma das menos conhecidas) das unidades de conservação marinha do País. Eu e o repórter fotográfico Jonne Roriz tivemos o privilégio de passar uma semana lá no início deste mês, a convite da organização SOS Mata Atlântica. Voltamos com uma série de imagens e histórias incríveis, algumas das quais vocês podem conferir abaixo, em versões estendidas dos textos publicados na versão impressa do jornal. Boa leitura e abraços a todos.

ATOL DAS ROCAS: A HISTÓRIA DE UM PARAÍSO INÓSPITO

por Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

São três horas da madrugada em alto mar, com poucas nuvens no céu, e a lua cheia, prestes a se pôr, ilumina o oceano vazio a nossa volta como um holofote. Assim que ela mergulha no horizonte, é como se uma redoma de escuridão despencasse sobre o barco. Não demora muito, porém, uma nova fonte de luz aparece no horizonte. É a luz branca de um farol, sinalizando que chegamos – finalmente, após 20 horas de navegação – à Reserva Biológica do Atol da Rocas, uma das mais belas, isoladas e inóspitas unidades de conservação do Brasil.

As primeiras luzes da manhã revelam uma paisagem surreal, com moldes de miragem, que pouquíssimas pessoas além de pesquisadores, navegadores e pescadores intrometidos têm ocasionalmente o privilégio de vislumbrar. Um filete de areia branca se eleva timidamente sobre o mar, adornado de uma casinha, algumas ruínas e uma meia dúzia de coqueiros, que parecem brotar do oceano como um oásis flutuante.

Quem desembarcar neste paraíso em busca de silêncio, sombra e água fresca, porém, vai se deparar com uma beleza brutal. A ilha não tem água doce, as sombras esparsas dos coqueiros não oferecem refresco do sol e as 150 mil aves marinhas que se reproduzem ali fazem uma algazarra constante, dia e noite, 24 horas por dia.

Sem falar que esse oásis é guardado por uma fera humana, muito mais eficiente em afastar intrusos do que os tubarões que patrulham suas águas: a natalense Maurizélia de Brito Silva, ou simplesmente Zelinha, como é mais conhecida por todos.

Pouco mais de 1,60 metro de altura, 53 quilos, cabelos pretos, pele queimada de sol, pouco músculo, muita dedicação e um comprometimento inabalável com a conservação de Rocas. Funcionária da reserva desde 1991 e chefe da unidade desde 1995, Zelinha faz do atol sua casa e escritório quase que permanente há mais de 20 anos. Pequenina, ex-alcoólatra e sem nível superior, nunca portou arma nem ostentou diploma, mas conhece o atol melhor do que qualquer cientista e já botou muito pescador casca-grossa para correr dali. Uma fera para tubarão nenhum botar defeito.

“Se o atol fosse fácil de cuidar eu não seria a chefe; seria algum doutor”, resume ela.

“A Zelinha é especialista em dizer não”, brinca José Eduardo da Silva Martino, o Zeca, capitão do catamarã Borandá, que há décadas é o responsável por levar e trazer pessoas da reserva para Natal. Ele já frequentava o atol desde antes de o lugar virar reserva, para praticar pesca submarina nos recifes e fazer churrasco de peixe na praia. “Era um festa”, lembra ele. Até que Zelinha botou um basta na diversão. “Foi estranho quando falaram que ‘agora isso aqui é do governo’; mas com o tempo a gente acaba abraçando a causa”, diz. “Tem que proteger mesmo.”

Descoberta. Zelinha virou uma lenda do ambientalismo brasileiro, admirada sempre e odiada às vezes na mesma proporção. Ela fala do atol como uma mãe que fala de um filho. Sua história confunde-se com a do lugar de tal maneira que é impossível falar de uma sem falar da outra.

Para o ambientalismo, a história do Atol das Rocas começa no fim da década de 70, quando um bando de estudantes de oceanografia da Universidade Federal de Rio Grande desembarcou em suas praias (foto acima). Eles haviam visto o atol da janela de um avião, a caminho de Fernando de Noronha, e resolveram voltar lá com um barco de pesca para investigar aquele misterioso anel de recifes perdido no oceano. Chegando lá, na virada de 1977 para 1978, registraram pela primeira vez tartarugas-marinhas desovando na praia.

“A praia amanhecia com a areia toda bagunçada e não sabíamos porque, pois aprendíamos na faculdade que não havia desova de tartarugas no Brasil”, conta o coordenador nacional do Projeto Tamar, Guy Marcovaldi, na época com 21 anos.

Surpresa maior veio em seguida, quando, numa noite de lua cheia, os pescadores também subiram à praia e começaram a matar as tartarugas para coletar seus ovos e sua carne. Os estudantes, perplexos, convenceram os pescadores a parar, depois fotografaram a carnificina (foto abaixo) e enviaram as imagens para as autoridades ambientais – na época, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que deu origem ao Ibama, que deu origem ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Assim a matança de tartarugas – e a necessidade de protegê-las – foi escancarada visceralmente no Brasil pela primeira vez.

Um ano e meio mais tarde, em junho de 1979, foi criada a Reserva Biológica do Atol das Rocas, a primeira unidade de conservação marinha do Brasil, com 362 quilômetros quadrados, incluindo o atol propriamente dito (de 5,5 km²) e toda sua base submersa, até uma profundidade de mil metros. No ano seguinte, nasceu do Projeto Tamar. “Nos inspiramos na beleza do atol para imaginar o Brasil com mais conservação marinha”, diz Marcovaldi.

Na época, Zelinha tinha 15 anos. Filha de um superintendente do IBDF, era uma adolescente problemática que não gostava de escola, vivia como caiçara na Praia de Pipa e não tinha muito compromisso com nada. Mais tarde, seguindo a tradição familiar, prestou concurso e conseguiu uma vaga de técnica administrativa no Ibama. Mas não deu muito certo, pelo menos de início.

Em 1991, já havia um processo de demissão correndo contra ela – “por causa do álcool” –, quando Gilberto Sales, chefe do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, foi designado como primeiro gestor da reserva do atol – que até então, 12 anos após sua criação, ainda era só um “parque de papel”, protegido apenas pelo próprio isolamento geográfico.

“Eu era considerada doida. E o Gilberto falou: ‘É de uma doida que eu preciso”, conta Zelinha. A primeira viagem de barco até o atol durou o dobro da média: 43 horas. Mas valeu a pena. “Quando desci na praia e vi aquelas aves todas, enlouqueci. Falei pro Gilberto: ‘Não saio daqui nunca mais’.”

E não saiu mesmo. Nem perdeu a fama de doida. “Muita gente fala que eu sou louca, e sou mesmo, porque tem de ser louco para viver aqui 20 anos”, diz ela, orgulhosa. “Teve muitos momentos na minha vida que eu achei que ia surtar.”
A lista de dificuldades que Zelinha enfrentou no atol parece não ter fim. Sua maior e mais longa batalha foi com os pescadores, que, atraídos pela grande quantidade de peixes na região do atol, recusaram-se por muitos anos a manter suas redes e anzóis fora da reserva.

Armada apenas com um bote a motor – que os pescadores tentavam sabotar largando linhas de nylon na água, para enroscar nas hélices e deixá-la a deriva –, uma câmera fotográfica e uma filmadora, Zelinha usava de sua autoridade e de sua malícia caiçara para afugentar os invasores. “A gente fiscalizava sem arma, sem nada, só indo pra cima e não deixando os caras pescar”, conta. “Quando tinha de peitar a gente peitava; quando tinha de correr a gente corria; quando tinha de conversar, a gente conversava. Até que chegou uma hora que virou prejuízo tentar pescar no atol.”

“A gente saia feito doido atrás de barco. Era todo dia, sem saber se a gente voltava”, lembra Jarian Dantas Ribeiro da Silva, de 39 anos, o braço direito de Zelinha desde 1996. Mais um que chegou ao atol, se apaixonou pelo lugar, e nunca mais saiu. Antes, vivia de bicos em Natal como segurança, pedreiro, marceneiro, serviços em geral. Até que seu irmão casou com uma pesquisadora do atol e Zelinha lhe ofereceu um cargo de ajudante, com um salário mínimo que ela paga até hoje do próprio bolso, para não ficar na mão.

Penúria. A rotina nos primeiros anos era duríssima. Zelinha e Jarian chegavam a passar vários meses sozinhos no atol, enfrentando os pescadores. A reserva não é aberta a visitação pública, e as expedições científicas eram esporádicas, pois a infraestrutura era mínima. Nos dois primeiros anos de ocupação, havia apenas um acampamento precário, que vivia infestado de ratos e escorpiões. Em 1993 inauguraram um abrigo pequenino de dois cômodos, quarto e cozinha, onde Zelinha praticamente morou durante 15 anos.

A casa não tem banheiro nem chuveiro; a higiene tem de ser feita no mar, com a maré vazante. Água doce, que não há no atol, sempre foi o bem mais precioso, usado a conta-gotas, exclusivamente para alimentação. A comida também precisava ser racionada, pois não havia entrega rotineira de mantimentos. Zelinha e Jarian sobreviviam em grande parte de doações, feitas por barcos de passagem, pela Marinha, ou trazidas por pesquisadores.

“A gente tinha de pedir água e comida para todo mundo”, recorda Zelinha, com lágrimas nos olhos. “Tinha dias que a gente só sentava e chorava, chorava muito.” E completa: “Chorávamos escondidos dos pesquisadores, para não mostrar fraqueza”.

Sua luta contra os pescadores lhe rendeu o apelido de “xerife dos mares”, adequado para seu comportamento perante aqueles que ela julga ser uma ameaça ao atol. Na intimidade, porém, Zelinha revela-se muito mais frágil e emotiva do que parece. Jarian também. “A gente mostrava muita coragem no mar, mas depois voltava pro atol e as pernas tremiam de tanto medo”, lembra ela. “Criamos esse personagem, incorporamos essa atitude, e assim sobrevivemos.”

A solidão também era um desafio. Até 2008 não havia uma linha de comunicação permanente do atol com o continente. O abrigo tinha uma antena para internet via satélite, mas nem sempre um laptop funcionando para tirar proveito dela. Sobrava apenas o rádio, para falar com navios e aeronaves de passagem, que traziam e levavam mensagens do continente. “Quando encostava um veleiro aqui a gente dava piruetas de alegria, porque era alguém para conversar”, lembra Zelinha. “Conseguir um refrigerante gelado, então, era a coisa mais maravilhosa do mundo.”

As coisas só começaram mesmo a melhorar a partir de 2007, quando a organização SOS Mata Atlântica resolveu expandir suas atividades para o mar e selecionou a Reserva Biológica do Atol das Rocas como primeiro “filho adotivo” de um programa criado para apoiar a gestão de áreas marinhas protegidas. A organização captou R$ 1,7 milhão em doações privadas e criou um fundo (hoje com R$ 2,6 milhões), cujo rendimento líquido será usado a partir do ano que vem para custear as despesas da reserva. Em cima disso, foram levantados outros R$ 900 mil para pagar a construção de uma nova base, compra de botes, motores, sistema de energia solar, internet (com laptop), equipamentos, comida e outros custos operacionais de necessidade imediata.

Desde 2007, a média de investimento foi de R$ 50 mil por ano, segundo a ONG. As doações vieram de empresários paulistas, que não querem ter seus nomes divulgados. Como contrapartida, eles têm o direito de visitar o atol uma vez por ano – sob a supervisão de Zelinha, sem exceções.

“Não damos dinheiro nem para o governo nem para a Zelinha; pagamos tudo diretamente aos fornecedores”, explica o presidente da Fundação SOS Mata Atlântica, Roberto Klabin. “É um modelo que dá certo. O atol está funcionando de maneira exemplar.”

O ICMBio, que é o órgão federal oficialmente responsável pela gestão da reserva, ficou responsável por bancar principalmente o transporte de pesquisadores até o atol e a parte administrativa da unidade em Natal, que tem cinco servidores. Segundo informações do instituto, entre 2008 e 2011 foram gastos cerca de R$ 2 milhões com a reserva (incluindo gastos com salários, segurança, internet, veículo, investimentos e outros dispêndios).

Renovação. Os dias de penúria e mendicância acabaram. Zelinha e o atol agora têm uma base com 130 metros quadrados de área útil, com três quartos, cozinha ampla (com geladeira cheia), e decks espaçosos para convívio e trabalho (foto acima). Do lado de fora, dois botes infláveis e três motores. E o mais importante: uma agenda de pesquisa lotada até 2014, com equipes de até cinco cientistas revezando-se na nova base a cada mês. A ciência virou rotina no atol e a pesca, raridade.

“Antes, a gente via barco quase todo dia. Agora, passam-se meses sem a gente ver um”, comemora Zelinha, que, por via das dúvidas, ainda não sai da base sem sua câmera e filmadora em mãos, para o caso de aparecer algum infrator. “O atol não é um parque de papel, é uma reserva que funciona.”

Klabin conta que quando procurou o ICMBio pedindo a indicação de uma unidade de conservação marinha para a SOS apoiar, ofereceram-lhe Fernando de Noronha. Mas não; ele queria um lugar menos complicado, onde a organização pudesse fazer a diferença e produzir resultados reais rapidamente. Apareceu o atol, e ele adotou na hora. “A Zelinha é um modelo de dedicação fora do comum, que tem de ser exposto e copiado”, diz ele.

“Sempre que a coisa apertava, todo mundo me dizia para abandonar a base, para ir embora do atol, que eu era louca de ficar aqui. Inclusive no Ibama”, conta Zelinha. “Mas eu nunca fui embora. Eu vendo meu carro, passo fome, faço o que for preciso, mas não vou embora daqui e não me corrompo”, avisa ela.

Diferentemente de Fernando de Noronha, que é um Parque Nacional, a Reserva Biológica (Rebio) do Atol das Rocas não é aberta para o turismo. A categoria de Rebio é a mais restritiva no menu do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc). A única atividade permitida no atol é a pesquisa científica, e Zelinha não quer nem ouvir falar em mudar isso. “Você está louco? Veja o que aconteceu com Noronha”, exalta-se. “O impacto aqui seria imenso. Claro que você tem que ter áreas abertas para visitação, mas precisa ter áreas fechadas também. Rocas tem de ser visto como a compensação ambiental de tudo que já foi destruído em outros lugares. Sem falar que seria um turismo extremamente elitizado e extremamente perigoso”, completa ela, com a experiência de quem já passou sérios apuros no atol. A entrada com bote pelo canal que dá acesso à parte interna do atol (chamado Barretinha) pode ser especialmente traiçoeira, e não foram poucas as ocasiões em que barcos capotaram ali.

Klabin concorda. “É um ecossistema muito frágil; não há como ter turismo ali”, diz ele. E finaliza com o mesmo argumento de Zelinha. “O atol é uma joia que tem de ser guardada para compensar tudo que já foi destruído no resto da costa brasileira.”

FOTO: Zelinha caminha sobre formações recifais no interior do atol. (Detalhe: Não se espantem com o fato de ela estar pisando nos recifes … esss recifes são constituídos de algas coralíneas duras; não são cobertos de corais, o que permite caminhar sobre eles sem um impacto significativo ao ecossistema — desde que sejam poucas pessoas e esporadicamente, é claro.)