REPORTAGEM ESPECIAL: ATOL DAS ROCAS (5)

REPORTAGEM ESPECIAL: ATOL DAS ROCAS (5)

Herton Escobar

26 Setembro 2012 | 15h43

FOTO: Tartaruga-verde numa piscina natural do Atol das Rocas.
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RELAÇÃO COM O TAMAR É CONFLITUOSA

por Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

No livro de fotos Atol das Rocas 3°51’S 33°48’W, lançado em julho (editora BEI), a beleza das paisagens retratadas é 100% natural. Apenas duas imagens precisaram ser alteradas digitalmente, na página 198. Nelas, o logo do Projeto Tamar foi apagado das camisetas da bióloga Alice Grossman e de dois voluntários que aparecem tirando medidas de uma tartaruga-verde no atol. Reflexo invisível de uma relação conturbada vivida entre o renomado projeto de conservação e um dos locais mais importantes de sua história.

Segundo Alice, que é uma das autoras do livro, os logos foram apagados por causa de um “rompimento filosófico” dela com o Tamar. “Tive divergências éticas e ideológicas muito grandes com a instituição”, conta.

Alice foi demitida do Tamar em 2009, após oito anos como coordenadora de pesquisa no Atol das Rocas e em Fernando de Noronha. Ela evita entrar em detalhes, mas o “rompimento filosófico” estaria ligado a um suposto abandono do atol por parte do Tamar, agravado por acusações de desvio de recursos por parte da Coordenação Regional do Rio Grande do Norte e Pernambuco (RN/PE). “O recurso está lá, mas não é aplicado onde deveria”, afirma Alice. “Achei que era um problema local, mas quando alertei a coordenação nacional eles viraram as costas.”

O Projeto Tamar, vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Ministério do Meio Ambiente, está ligado ao Atol das Rocas desde a sua fundação, em 1980. O primeiro projeto de marcação de tartarugas-marinhas do Brasil foi feito lá, em 1981. O atol é listado no site do projeto como uma base de pesquisa, apesar de não haver infraestrutura própria nem equipe fixa no local. O trabalho de pesquisa e monitoramento das tartarugas-marinhas é executado pela equipe da Reserva Biológica do Atol das Rocas – que é uma unidade de conservação do ICMBio.

A chefe da reserva, Maurizélia de Brito Silva, que está lá desde 1991, faz coro com Alice e diz que a base nunca recebeu apoio ou recursos orçamentários de forma sistemática ou transparente do Tamar. Ela conta que chegou a abrir um processo administrativo para descobrir qual era o orçamento do projeto destinado ao atol e o que estava sendo feito com o dinheiro, mas nunca recebeu uma resposta objetiva. “Não foram apresentados os documentos com os valores recebidos como patrocínio da Petrobrás que deveriam ser utilizados nas atividades do Tamar na reserva nem os relatórios financeiros da coordenação regional em relação aos gastos com a base”, diz.

Panos quentes. Segundo o coordenador nacional do Projeto Tamar, Guy Marcovaldi, o problema todo deve-se a questões pessoais. Alice, segundo ele, foi demitida pelo então coordenador regional do RN/PE, Claudio Bellini, por uma incompatibilidade pessoal entre os dois. “Isso causou uma distorção enorme sobre tudo”, diz Marcovaldi. Bellini é um grande desafeto também de Maurizélia, que é muito próxima de Alice.

Desde então, Bellini deixou a coordenação regional. “Ele continua no Tamar, só não trabalha mais com o atol”, diz Marcovaldi. “Foi uma forma de botar panos quentes na situação.”

Com relação aos recursos, Marcovaldi diz que o Tamar “não tem obrigação de mandar dinheiro para o atol”, que é uma unidade de conservação federal, e que os repasses tornaram-se desnecessários depois de 2007, quando o ICMBio fechou uma parceria com a SOS Mata Atlântica para ajudar no custeio da reserva. “Conseguimos junto à SOS uma doação muito significativa para o atol e, a partir disso, decidimos que o Tamar não precisava mais enviar recursos para lá.”

“O Tamar continua só com as despesas da pesquisa; lembrando que a logística e manutenção é uma obrigação do orçamento oficial da reserva”, completa Marcovaldi. “Nunca houve um orçamento específico para o atol; era ela (Zelinha) quem demandava e a Alice quem operacionalizava. Ou seja, o orçamento era exatamente o que ela recebia. Como ela não sabe?”

Marcovaldi diz que há dois anos não se faz pesquisas com tartarugas no atol porque Maurizélia vetou a presença de pessoas do Tamar na reserva e parou de repassar os dados de monitoramento. Maurizélia continua a coletar os dados de maneira voluntária – como sempre fez –, mas diz que não repassará mais dados enquanto a questão orçamentária não for esclarecida. “É uma estratégia para forçar um reconhecimento do atol como base, pois assim está muito fácil e prático para o Tamar. Como apenas os dados produzidos são do interesse do Tamar, estou no aguardo da aprovação do plano de trabalho que submeti para liberá-los. Como até o presente momento um aporte financeiro comum às bases para execução dos trabalhos não foi encaminhado à base local, como não sou empregada do projeto e como posso socializar os dados através de uma publicação científica, estou resguardando os resultados como todo pesquisador faz até concluir o seu trabalho”, justifica Zelinha.

O Atol das Rocas é a segunda área mais importante no Brasil para reprodução de tartarugas-verdes, atrás da Ilha de Trindade (ES). Apesar disso, Marcovaldi reconhece que o local não é prioritário para a conservação de tartarugas. “O Tamar dá prioridade para locais que estão sob risco, e o atol é bem protegido pela reserva”, diz. Ele destaca que o número de desovas no atol é pequeno: cerca de 350 por ano, comparado a cerca de 3 mil em Trindade, e que a tartaruga-verde é a espécie mais abundante no Brasil. No total, as desovas no atol representam apenas 1% de todas as desovas monitoradas pelo Tamar na costa brasileira.

“Temos muita coisa para fazer em outros lugares, com muito mais desovas, onde podemos trabalhar em paz”, justifica Marcovaldi, referindo-se às dificuldades pessoais e profissionais de trabalhar com Zelinha no atol.

Nos últimos anos, segundo Marcovaldi, os esforços na região foram canalizados para a região da Praia de Pipa, no sul do Rio Grande do Norte, que foi identificada recentemente como uma importante área de desova de tartarugas-de-pente, espécie muito mais ameaçada do que a verde. A pente é classificada como “criticamente ameaçada” e verde como “vulnerável“.