Reportagem Especial: Tubarões do Recife

Reportagem Especial: Tubarões do Recife

Herton Escobar

28 Julho 2013 | 15h11

FOTO: Herton Escobar/Estadão — Placas a cerca de 150 metros de onde Bruna Gobbi foi atacada, na praia de Boa Viagem.

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

A possibilidade de ser atacado por um tubarão existe em qualquer ponto do litoral brasileiro. Em nenhum lugar, porém, esse risco é mais real do que nas praias da região metropolitana do Recife, a capital pernambucana. Um problema que vinha se mantendo mais ou menos submerso nos últimos anos, mas voltou à tona de forma dramática e contundente na semana passada, com a morte da jovem Bruna Gobbi, de 18 anos, atacada por um tubarão na praia de Boa Viagem, segundos antes de ser salva de um afogamento.

Foi o segundo ataque de tubarão seguido de morte este ano no litoral de Pernambuco, e o segundo em menos de um ano em Boa Viagem, que é a principal praia da capital. Desde 1992, foram registrados 59 ataques no Estado, 85% dos quais ocorreram numa faixa de 30 quilômetros de litoral que banha a região metropolitana de Olinda, Recife e Jaboatão dos Guararapes (70% só nas praias de Boa Viagem e Piedade), segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit).


A média de ataques registrados em todo o resto da costa brasileira, comparativamente, é de 4 a 5 por ano, segundo o especialista Otto Gadig, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Recife é um negócio totalmente fora do normal, sem dúvida nenhuma”, diz o pesquisador, que passou vários anos estudando os ataques da região na década de 1990. “Alguma coisa está muito errada lá.”

Gadig acredita, inclusive, que o número de ataques pode ser ainda maior do que o indicado pelas estatísticas oficiais. Segundo ele, é possível que muitos corpos que são resgatados do mar com marcas de mordida e interpretados pelos legistas como casos de afogamento seguido de ataque sejam, na verdade, casos de ataques seguidos de morte. “É uma teoria que não tenho como provar, mas acredito seriamente nisso”, disse Gadig ao Estado.

O pesquisador conta que, nos anos em que passou no Recife, teve oportunidade de analisar as feridas de mais de 30 corpos retirados do mar e registrados como casos de afogamento seguido de mordida. Em cerca de 10 deles, Gadig acredita que as pessoas tenham sido atacadas ainda vivas, por causa de características das feridas que, segundo ele, indicam que as pessoas estavam na posição vertical quando foram atacadas.

O último caso de ataque registrado antes do de Bruna Gobbi se encaixa nesse tipo de cenário. O corpo da vítima, José Rogério Tavares da Silva, de 41 anos, foi encontrado na praia do Paiva, em 28 de maio deste ano, com marcas de mordida no tronco, na perna esquerda e no joelho direito, três dias depois de ele ter sido visto pela última vez na praia Enseada dos Corais, mais ao sul. O laudo do Instituto Médico Legal diz que ele morreu em decorrência das mordidas, não de afogamento. Silva estava vestido e teria entrado no mar sozinho depois de ingerir bebidas alcoólicas — um comportamento de alto risco.

“Não acho que tenham sido só 59 ataques, e não acredito que tenham sido 59 tubarões diferentes”, diz o pesquisador da Unesp. A reclassificação de alguns casos de afogamento como casos de ataque não alteraria o cenário de risco, que já está bem estabelecido, mas ajudaria a quantificar melhor as ocorrências e as condições nas quais elas ocorrem, além de dar pistas sobre a quantidade e os tipos de tubarões presentes na região. “Independentemente de terem sido mordidas antes ou depois da morte, o fato é que essas pessoas foram mordidas por animais de grande porte e próximas da praia”, afirma Gadig. “Isso é importante saber.”

Gadig acredita que o problema não seja o número de tubarões na região do Recife – que não seria muito diferente do de outras capitais do Nordeste –, mas o comportamento dos animais, que ele acredita estar alterado por causa da degradação dos ecossistemas costeiros e outras alterações ambientais na região.

Responsabilidade.

Essa, também, é a avaliação de pesquisadores locais. Para a pesquisadora Rosangela Lessa, presidente do Cemit e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), não há dúvida de que o número excessivo de ataques resulta de interferências humanas no ambiente – a maioria delas ligadas ao complexo portuário de Suape, ao sul do Recife, construído nas décadas de 1980 e 1990. “Todo desenvolvimento tem um custo”, afirma.

O porto teria causado um série de impactos ambientais na região da Baía de Suape, incluindo mudanças na salinidade da água e destruição de ecossistemas costeiros e marinhos que forneciam alimento e serviam de berçário natural para os tubarões da região. Isso teria forçado os animais a se deslocar para o norte, na direção do estuário do Rio Jaboatão e das praias metropolitanas do Recife. Outro agravante é que, até alguns anos atrás, havia um lixão que despejava chorume e um matadouro clandestino que despejava diariamente milhares de litros de sangue e vísceras no Rio Jaboatão, atraindo os tubarões para perto da costa. Ambos os estabelecimentos foram fechados após denúncias, mas ainda há o problema da poluição biológica por esgoto (Jaboatão dos Guararapes está entre as 100 cidades com pior saneamento básico no País), que degrada os ecossistemas marinhos e reduz a oferta natural de alimento para os tubarões. No caso dos tubarões-tigre, especificamente, sabe-se que eles têm o costume de acompanhar embarcações em alto-mar, o que levanta a hipótese de que eles estejam chegando à costa pernambucana no rastro dos navios que chegam ao Suape, para depois seguir as correntes litorâneas na direção norte — rumo à praias do Recife.

Canalizando tudo isso, há também um fator complicador natural, que é a topografia submersa da região. Contíguo à linha da costa metropolitana, há um canal natural entre os recifes, com profundidade média de 8 metros, que serve de “avenida” para os tubarões e que em alguns pontos chega bem perto das praias, facilitando a aproximação dos animais. Ou seja: não é preciso se afastar muito da areia para estar na zona de risco — principalmente na maré alta.

Somados todos os fatores, o resultado é um cenário onde tubarões de espécies potencialmente agressivas — como o tigre e o cabeça-chata — transitam rotineiramente pelas praias de uma região metropolitana densamente povoada e com condições ecológicas pouco ideais, que favorecem os ataques. “Não há nenhuma causa isolada”, diz o especialista em tubarões Fabio Hazin, da UFRPE. “Os ataques começaram a ocorrer por uma somatória de fatores.”

A melhor solução, segundo Hazin e Rosangela, é que as pessoas obedeçam às orientações de segurança nas praias. “Os tubarões não podem ser educados, mas as pessoas podem”, afirma Rosangela. Todas as praias da região metropolitana são amplamente sinalizadas com placas alertando para a presença de tubarões, além das orientações que são dadas regularmente aos banhistas pelos guarda-vidas do Corpo de Bombeiros. “Temos de educar a população de que é preciso seguir as regras. As informações estão amplamente disponíveis e todo mundo sabe que o risco existe; é uma decisão de cada um correr esse risco ou não.”

O Cemit é contra qualquer solução que implique em matar tubarões. “Não queremos piorar ainda mais um problema ambiental que já é complexo”, diz Rosangela, lembrando que os tubarões têm um papel essencial no ecossistema marinho e que há várias espécies ameaçadas de extinção.

“Fomos nós que causamos o problema; a responsabilidade é nossa, não dos tubarões”, concorda Hazin. “Não acho eticamente nem ambientalmente correto debitar na conta dos tubarões um problema que nós criamos.

Hazin, considerado um dos maiores especialistas em tubarões do País, coordena um projeto de captura e remoção de tubarões que, segundo ele, reduziu em 90% a ocorrência de ataques na região metropolitana do Recife. Os animais são capturados por meio da colocação de linhas com anzóis (espinhéis) ao largo da costa, trazidos para um barco, marcados com etiquetas de identificação e soltos longe das praias, em águas mais profundas. Depois de 7 meses parado por falta de recursos, o trabalho foi retomado na sexta-feira, depois de receber quase R$ 1,8 milhão da Secretaria de Defesa Social (SDS) do Estado. Em oito anos de operação, mais de 80 tubarões de espécies agressivas foram removidos pelo projeto, e os dados indicam que eles não retornam para as praias. O projeto, chamado Protuba, tem também um braço forte de educação ambiental, com apoio financeiro adicional da Petrobras.

O secretário de Comunicação do governo estadual, Evaldo Costa, concorda que a culpa não é dos tubarões, mas diz que também não é do porto. “Esse problema não é novo. Sempre houve ataques de tubarão por aqui, a diferença é que eles não eram documentados”, argumenta. Os pesquisadores discordam. Segundo eles, até 1992 os ataques eram esporádicos, semelhante ao que ocorre em outras regiões do País.

FOTO: Herton Escobar/Estadão — Ponto da praia de Boa Viagem onde Bruna Gobbi foi atacada e resgatada (visto aqui na maré baixa, enquanto que o ataque ocorreu na maré alta, quando os arrecifes ficam submersos).

Propostas.

Nem todos, porém, se sentem totalmente confortados por isso. Há muitos que defendem a instalação de redes ou grades de proteção no entorno das praias, como é feito em algumas áreas de risco da Austrália, África do Sul e Hong Kong. Outros defendem até a proibição legal do banho de mar.

“Acho que a tela de proteção seria um boa, na orla toda”, disse ao Estado um comerciante que trabalha na praia de Boa Viagem há quase 20 anos, e pediu para não ter o nome divulgado. Pergunto a ele se a grade não estragaria a paisagem da praia, já que ela ficaria para fora d’água durante a maré baixa. “Se ficar aparecendo tudo bem, melhor do que morrer alguém mordido por tubarão.” Ele seria a favor, também, de proibir as pessoas de entrar na água nos períodos de maré alta, quando o risco de ataque é maior – porque os tubarões conseguem se aproximar mais da praia e as corrente de refluxo que arrastam as pessoas para o fundo são mais fortes.

“O problema não é ficar feio, é as pessoas poderem entrar na água”, concorda Carlos Cícero do Nascimento, outro comerciante de Boa Viagem. Ele é a favor da grade, mas contra a proibição do banho do mar, mesmo que seja apenas na maré alta. “De jeito nenhum; não teria o menor cabimento. Olha aí, já tem placa para todo lado. O banhista é que tem de prestar atenção.”

As placas de alerta estão espalhadas por toda a orla do Recife e são, de fato, bastante visíveis. Há dois tipos, ambos escritos em inglês e português: uma placa que simplesmente alerta para o risco de ataques de tubarão e outra, que pede para que se evite o banho de mar e dá instruções sobre os períodos e comportamentos de maior risco. Além disso, há os guarda-vidas do Corpo de Bombeiros, que ficam em pontos estratégicos das praias e orientam verbalmente as pessoas que entram na água.

A orientação geral de segurança é ficar nas piscinas naturais que se formam na maré baixa em vários pontos da praia, protegidas pelos arrecifes, ou entrar com a água no máximo até a altura da cintura em áreas mar aberto – não só pelo risco de ser atacado por tubarões, mas de ser arrastado para o fundo pelas correntes de refluxo, que é um risco ainda maior (muito mais pessoas morrem afogadas no Recife do que atacadas por tubarão).

Conforme indicado nas placas, os ataques ocorrem mais frequentemente em áreas de mar aberto (sem arrecifes), em períodos de maré cheia (especialmente nas fases de lua cheia ou nova, quando a maré fica ainda mais alta), ao amanhecer ou cair da tarde (quando o instinto de caça dos tubarões está mais aguçado), e quando a água está turva (porque prejudica a visão do tubarão e aumenta o risco de ele confundir a pessoa com uma presa).

No caso do ataque à Bruna Gobbi, vários fatores de risco estavam presentes: era fase de lua cheia, a maré estava alta e a água estava turva por causa de chuvas nos dias anteriores. Além disso, ela entrou na água num ponto de mar aberto e com forte corrente de refluxo, que a arrastou rapidamente para o fundo. A jovem, que não sabia nadar, começou a se afogar e entrou em desespero – comportamento que atrai a atenção de tubarões. Ela foi mordida na perna esquerda, segundos antes de os bombeiros, que já estavam na água para salvá-la do afogamento, chegarem até ela.

Há vários testemunhos de que Bruna tinha conhecimento dos riscos e entrou na água depois de ter sido orientada pelos bombeiros a não fazê-lo.

Não foi e nem será a única a fazer isso. O Estado conversou com vários guarda-vidas na praia de Boa Viagem – inclusive os que participaram do resgate de Bruna – e todos foram unânimes em dizer que muitas pessoas simplesmente ignoram os alertas. “As pessoas nunca acham que vai acontecer com elas”, disse um dos bombeiros. “A gente fala, orienta, pede para sair, mas as pessoas insistem em entrar na água”, afirmou outro.

O turista gaúcho José Sinovetz, que estava na praia no dia 22 e presenciou todo o incidente com Bruna, disse que no dia seguinte ao ataque ele viu, no mesmo local, um outro turista ser advertido pelos guarda-vidas a sair da água. “Ele desdenhou, disse que sabia nadar e continuou lá, com as ondas batendo nas costas”, conta Sinovetz. Para ele, as pessoas têm de assumir responsabilidade por suas ações, mas o governo do Estado deveria colocar uma grade de proteção no mar assim mesmo. “Pernambuco têm obrigação de colocar essa grade. Se ficar feio, azar.”

FOTO: Herton Escobar/Estadão — Placas de alerta na praia de Piedade, num ponto onde uma pessoa já foi atacada em águas rasas, bem próximo à areia.

Zona de risco.

Para os pesquisadores, o problema da colocação de grades ou redes é muito maior do que o estético. Além de serem caras e de difícil manutenção, elas não garantem 100% de proteção e têm um alto impacto ecológico, porque afetam toda a fauna marinha e não apenas os tubarões. As redes capturam vários outros animais de maior porte, como golfinhos e tartarugas-marinhas (que morrem ao se emaranhar nelas), enquanto que as grades rígidas “esterilizam” o ambiente, bloqueando a circulação dos animais marinhos e ainda impactando os padrões de ondas, correntes e transporte de sedimentos ao longo da costa.

“Além de não resolver o problema atual, estaríamos criando ainda mais problemas”, argumenta Rosangela. “Essa redes foram colocadas em outros lugares numa época em que não havia tanta preocupação com o meio ambiente. Podemos continuar o que estamos fazendo, respaldados pela ciência e pelas regras de conservação, ou podemos dar vários passos para trás, voltar aos anos 1950 e virar trogloditas ambientais.”

Hazin também é contra a colocação de redes ou grades. Para ele, é preciso aprender a conviver com o risco e “substituir a relação de raiva entre homens e tubarões por uma relação de respeito”, porque o risco nunca será totalmente eliminado. “Para acabar totalmente com o problema, só exterminando todos os tubarões do Atlântico Sul”, afirma. “O oceano é a casa deles. Não há solução definitiva.” Para Hazin, o risco de ser atacado por um tubarão no mar é equivalente ao de ser picado por uma cobra na floresta. “São acidentes naturais”, diz ele. “Mas não vejo ninguém pedindo que se extermine as cobras ou proíbam as pessoas de entrar na mata por causa disso. Se for para fechar a praia, que fechem pelo risco de afogamento, não por causa dos tubarões.”

Para Gadig, os ataques de tubarões no Recife já configuram uma situação crônica de conflito entre seres humanos e animais selvagens, semelhante ao que ocorre com leões e leopardos em algumas regiões da África, com ursos polares no Ártico e com tigres e elefantes, na Ásia – situações em que o avanço do homem sobre os hábitats naturais cria uma disputa direta por espaço e por recursos. “Recife virou uma zona de conflito”, diz o pesquisador. “Hoje, a pergunta não é mais porque os tubarões atacam; é porque as pessoas continuam a entrar na água apesar dos riscos.”

“Hoje entrei na água com um pouco de medo, por causa do que aconteceu, mas normalmente, não”, disse ao Estado a jovem Tamara Soares, de 17 anos, que na quinta-feira tomava um banho de sol na praia de Boa Viagem, exatamente em  frente ao ponto onde Bruna Gobbi foi atacada. “Sei que tem risco, mas normalmente não penso muito nisso.”