REPÓRTER VIAJANTE: A CRISE DOS ABUTRES

REPÓRTER VIAJANTE: A CRISE DOS ABUTRES

Herton Escobar

19 Dezembro 2011 | 09h21

Caros amigos-leitores,

A última reportagem da minha série Repórter Viajante foi publicada ontem no Estadão. Ela trata de um tema que está longe de ser novidade na Ásia, mas sobre o qual eu honestamente nunca tinha ouvido falar até cinco meses atrás, mergulhando na Indonésia, quando um pesquisador do Instituto Smithsonian, que é biólogo marinho mas também apaixonado por pássaros, ficou sabendo que eu viria para o Nepal e me perguntou: “Por que você não escreve sobre a crise dos abutres?”

“Crise dos abutres???”, perguntei.

Cinco meses depois, eis aqui a resposta à minha própria pergunta.

OBS: Agora eu digo abutres, mas até duas semanas atrás eu ainda estava traduzindo o termo “vultures”, em inglês, como “urubus”, em português. Até que tive a grande ideia de mandar um email para o ornitólogo Luís Fabio Silveira, curador de aves do Museu de Zoologia da USP, e ele elegantemente me passou uma correção. Saibam vocês que urubu é uma coisa, abutre é outra. Os dois são aves de rapina e os dois se alimentam de carniça, mas, fora isso, pertencem a linhagens completamente diferentes, do ponto de vista evolutivo. Imagine só!

Apenas um dos muitos enganos que cometemos em relação a essa aves, como vocês poderão perceber na reportagem. Os textos estão copiados abaixo.

Abraços a todos.

Links de organizações relacionadas à matéria: SAVE (Saving Asia´s Vultures from Extinction), Vulture Rescue, Bird Conservation Nepal, Royal Society for the Protection of Birds, The Peregrine Fund, IUCN Red List (Gyps bengalensis), Parahawking

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ABUTRES EM PERIGO

Com três espécies criticamente ameaçadas de extinção, países asiáticos lutam para reverter mortandande em massa causada pela introdução de uma droga veterinária 15 anos atrás

Dhan Bahadur Chaudhary encontrou uma maneira incomum de demonstrar seu amor pela vida selvagem. Há cinco anos ele compra vacas velhas da comunidade, que ninguém mais quer, lhes dá abrigo e alimento, e depois aguarda ansiosamente para que elas morram. De preferência, em intervalos regulares, pelo menos uma por semana.

Ele é o gerente do Restaurante de Abutres de Nawalparasi, no centro-sul do Nepal, um dos seis “estabelecimentos” desse tipo criados recentemente no país pela organização Bird Conservation Nepal (BCN). Os abutres são os fregueses. Os seres humanos são os garçons. E as vacas, a refeição.

No Nepal, um país de maioria hindu, a vaca é um animal sagrado, protegido por lei. Matar uma delas, por qualquer motivo, é crime. Por isso Chaudhary precisa esperar que os animais morram naturalmente. O preço pago por vaca é irrisório: $250 rúpias nepalesas (pouco mais do que R$ 5). Ainda assim, vale a pena para os fazendeiros. “É um alívio para eles, pois eles não têm o que fazer com a vaca depois que ela fica velha”, explica Chaudhary.

Centenas de abutres frequentam o restaurante cada vez que uma refeição é servida. O recorde de movimento é de 270 pássaros – bem mais do que os 70 que costumavam aparecer no início do projeto, em 2006. O que é um bom sinal. O número de ninhos no entorno do restaurante também aumentou: de 17 para 67.

As carcaças são limpas até o osso pelas aves em cerca de 30 minutos. Enquanto o abutres de acotovelam sobre a vaca morta para bicar um pedaço de carniça, turistas de espremem dentro de uma cabana ao lado para tirar fotos.

Os recursos do turismo ajudam a manter o restaurante funcionando. Mas a motivação do projeto passa longe do entretenimento. Por trás do espetáculo sangrento, desenrola-se uma das histórias mais dramáticas – e pouco apreciadas – de luta pela sobrevivência da biodiversidade atua.

O Gyps bengalensis está criticamente ameaçado de extinção, assim como duas outras espécies de abutres asiáticos: o Gyps indicus (abutre-de-bico-longo) e o Gyps tenuirostris (abutre-de-bico-estreito). Todos reduzidos a menos de 10% — ou até 1% — de suas populações “originais”. Comuns até o início da década de 1990, seus números começaram a despencar vertiginosamente cerca de 15 anos atrás, sem explicação. Principalmente na Índia, no Nepal e no Paquistão, suas principais áreas de ocorrência.

De início, muita gente provavelmente achou bom se ver livre dessas aves carniceiras. Até que o mau cheiro das carcaças tornou impossível ignorar o problema.

Os números são assustadores. O Gyps bengalensis, que até pouco tempo era considerado a ave de rapina mais abundante do mundo, está à beira da extinção, com um declínio populacional de 99,9% na Índia e mais de 90% no Nepal. As outras duas espécies estão em situação semelhante, praticamente com um pé na cova.

“Não consigo pensar em outro bicho que tenha sofrido um declínio tão grande em tão pouco tempo”, afirma Chris Bowden, gerente do Programa de Abutres da Royal Society for the Protection of Birds (RSPB), na Inglaterra. “A situação é realmente crítica.”

O declínio não demorou a ser notado já na década de 90, especialmente nas regiões mais populosas da Índia, onde o sumiço dos abutres teve efeito semelhante ao de uma greve de garis em São Paulo. Sem as aves carniceiras para fazer o serviço de “limpeza”, vacas mortas começaram a se acumular e apodrecer por todos os lados, tanto nas cidades quanto no campo.

Demorou, porém, para cientistas descobrirem o que estava matando os abutres. Especulou-se muito sobre alguma infecção por vírus ou bactéria, tipo gripe aviária. Mas não. O diagnóstico só veio em 2004, com um trabalho de “autópsia” publicado na revista Nature: intoxicação por diclofenaco, um analgésico e antiinflamatório introduzido como droga veterinária na região em meados da década de 1990 – não por coincidência, na mesma época em que os abutres começaram a “desaparecer”.

O diclofenaco é inofensivo para as vacas e seres humanos, mas letal para os abutres. Basta comerem a carne de um animal que tenha sido tratado com a droga até três dias antes que os abutres invariavelmente morrem de falência renal, também no prazo de dois a três dias. Neles, o diclofenaco causa gota visceral, uma doença caracterizada pelo acúmulo de cristais de ácido úrico nos rins. Só na Índia, estima-se que mais de 30 milhões de aves tenham morrido dessa forma.

Por alguma razão fisiológica não identificada, só os abutres do gênero Gyps parecem ser intoxicados pela droga. Para outras aves – incluindo outras espécies de abutres – não há problemas registrados.

Alimentação Saudável

Em resposta à crise, Índia, Nepal e Paquistão baniram a produção de diclofenaco para uso veterinário. Mas ainda não conseguiram erradicar a droga da cadeia de consumo (mais informações nessa página).

A lógica por trás dos “restaurantes”, portanto, é garantir uma fonte de alimento constante e livre de diclofenaco para os abutres. Além do impacto causado pela droga, a quantidade de carcaças disponíveis para os abutres diminuiu consideravelmente nos últimos anos, à medida que as pessoas passaram a enterrar ou queimar os animais mortos em vez de jogá-los no meio do mato ou na beira de rios, como se fazia antigamente. Bom para os seres humanos, do ponto de vista sanitário, mas ruim para os abutres.

“O mais comum agora é enterrarem a carcaça”, diz o biólogo Ramji Gautam, professor de zoologia no Câmpus de Prithwi Narayan, em Pokhara, onde há também um restaurante de abutres. “Com isso, sobra pouca comida para eles, já que aqui não há grandes manadas de animais selvagens dos quais eles possam se alimentar, como na África.”

Quando visitei o restaurante de Nawalparasi, no início deste mês, Chaudhary tinha 14 vacas em estoque e esperava receber mais dez nos próximos dias. Na época da reprodução dos abutres, que vai de outubro a março, o ideal é servir de uma a três carcaças por semana, segundo o naturalista. “É quando eles precisam de mais alimento.”

Chaudhary diz com orgulho que este é “o primeiro restaurante de abutres de base comunitária do mundo”, destacando os vários projetos sociais e de geração de renda que são desenvolvidos com a população local. Tão importante quanto alimentar os pássaros, diz ele, é ajudar as pessoas e educá-las sobre a importância ecológica dos abutres.

“Antigamente a gente punha veneno nas carcaças, só por diversão”, conta o agricultor Bhakta Bahadur Rana, de 62 anos, vizinho do restaurante. Quando os pássaros começaram a ficar escassos e o mau cheiro e as moscas das carcaças comeaçaram a invadir as casas, porém, a atitude da comunidade mudou. “Agora eles sabem que os abutres são nossos amigos”, afirma Chaudhary.

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AVES SÃO PACÍFICAS E BENÉFICAS AO HOMEM

“Cuidado para não assustá-los. Eles são tímidos e ficam estressados com facilidade”, avisa o veterinário Binay Shrestha, em voz baixa, à medida que nos aproximamos da gaiola. Parece estar falando de algum passarinho exótico, e não dos abutres de quase 5 quilos e 2 metros de envergadura empoleirados do outro lado da grade. Estranho. Minha impressão era de que eu deveria ter medo deles, e não o contrário.

Contrariando as crenças populares, porém, os abutres são aves pacíficas e inofensivas ao homem. Não fosse pelo fato de comerem carniça – um serviço ecológico essencial –, certamente seriam admirados como as grandes aves de rapina que são (da mesma família das águias e gaviões), e não temidos como símbolos místicos de morte e mau agouro. Especialmente porque não causam a morte de ninguém, só limpam a sujeira.

“Suas garras não são tão fortes, já que não precisam caçar nem carregar presas pelo ar”, explica Shrestha, responsável pelo Centro de Conservação e Reprodução de Abutres do Parque Nacional de Chitwan, no sul do Nepal. “Seu bico também não é dos mais fortes, e ele raramente é agressivo.”

Os abutres são oportunistas. Ficam circulando pelo ar, planando nas correntes térmicas mais altas, e quando detectam um animal descem rapidamente para se alimentar, antes que outro carnívoro chegue e os empurre para fora da mesa. Só brigam mesmo entre eles próprios, na hora das refeições. Quando ameaçados, regurgitam tudo que tiverem no estômago e voam rapidamente para longe. A fuga é seu principal mecanismo de defesa.

“As pessoas têm uma impressão totalmente equivocada desses pássaros”, diz o treinador de aves londrino Scott Mason. “Você tem de enxergar o que elas são por dentro, e não apenas julgá-las pela aparência. Os abutres têm personalidades incríveis e podem ser extrememante afetuosos.”

Mason é o inventor de uma atividade chamada “parahawking”, em que as pessoas voam de parapente acompanhadas por aves de rapina treinadas. Entre elas, dois abutres da espécie Neophron percnopterus (abutre-egípcio), de bico amarelo e plumagem branca, indiscutivelmente mais carismáticos do que o sisudo Gyps bengalensis. “São embaixadores que usamos para educar as pessoas sobre os abutres de uma forma geral”, explica Mason, que há dez anos voa quase que diariamente em Pokhara, na região central do Nepal, e viu a quantidade de abutres declinar radicalmente nesse período. Cada cliente que voa com sua equipe recebe uma palestra sobre o risco de extinção dos Gyps, e parte do dinheiro arrecadado é doado para projetos de conservação.

Apólice de Seguro

Já em Chitwan, o acesso ao Centro de Reprodução é restrito. Inaugurado em 2008 pelo governo do Nepal, em parceria com as ONGs Bird Conservation Nepal e National Trust for Nature Conservation, o centro cuida de 60 abutres-de-dorso-branco, dos quais 14 já estão em idade reprodutiva. A esperança é que no ano que vem nasçam os primeiros filhotes. E que, quatro ou cinco anos mais tarde, esses filhotes possam ser soltos na natureza, em “zonas livres de diclofenaco”.

Com as populações selvagens ainda em queda, a reprodução em cativeiro é vista como uma apólice de seguro indispensável ao futuro da espécie. Há outros quatro centros de reprodução em operação, três na Índia e um no Paquistão, com 351 pássaros em cativeiro e 36 filhotes nascidos desde 2008 (das três espécies ameaçadas de Gyps).

Os abutres-de-dorso-branco colocam só um ovo por ano, e o filhote leva de quatro a cinco anos para atingir a maturidade. São reprodutores lentos, o que os torna ainda mais vulneráveis à extinção.

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DROGA FOI PROIBIDA, MAS USO ILEGAL CONTINUA

Descobrir que o que estava matando os abutres era uma droga veterinária, e não uma doença contagiosa, foi um “alívio” para pesquisadores e ambientalistas, “pois era uma causa que podíamos eliminar”, relembra Chris Bowden, da Royal Society for the Protection of Birds.

Desde a publicação do estudo na Nature que identificou o diclofenaco como causa de morte, em 2004, Índia, Nepal e Paquistão baniram a produção e comercialização da droga – mas apenas para uso veterinário. O diclofenaco continua a ser produzido para uso humano, e muitos se aproveitam dessa brecha para continuar a aplicar a droga em animais. A fórmula é a mesma, só muda o rótulo.

Como substituto para uso veterinário, passou-se a indicar o meloxicam, um antiinflamatório equivalente que é inofensivo para os abutres. Convencer as pessoas a trocar de droga, porém, não tem sido fácil. O diclofenaco é barato, eficiente e tem a confiança de veterinários e fazendeiros. “É um produto testado e aprovado há vários anos”, diz Sagar Paudel, veterinário da Bird Conservation Nepal (BCN). “Por isso é tão difícil convencer a pessoas a mudar.”

Ainda mais quando a razão para mudar é proteger uma espécie que não inspira muita simpatia na população. Um dos maiores desafios de salvar os abutres é convencer as pessoas de que eles merecem ser salvos. “Todo mundo sabe que os abutres estão desaparecendo, mas nem tudo mundo os quer de volta”, reconhece Ishana Thapa, diretora de Conservação da BCN.

Preconceitos culturais e religiosos à parte, os abutres prestam um serviço ecológico essencial aos seres humanos e ao meio ambiente, alimentando-se das carcaças de animais mortos antes que elas se tornem vetores para a disseminação de doenças. Só na Índia, segundo Bowden, estima-se que os 40 milhões de abutres que existiam no país até o início da década de 90 consumiam 12 milhões de toneladas de carniça por ano.

Prognóstico Complicado

Com a proibição do diclofenaco, alguns sinais positivos começam a aparecer. “As populações não estão se recuperando, mas pelo menos o ritmo de queda diminuiu”, diz, cauteloso, o pesquisador Munir Virani, diretor de programas da organização The Peregrine Fund para o sul da Ásia e a África.

Em 2009, o governo do Nepal lançou um plano de ação de cinco anos para proteção dos abutres, com ênfase em conscientização, fiscalização e a criação de “áreas livres de diclofenaco”, onde aves selvagens ou nascidas em cativeiros possam viver sem risco de intoxicação.

Pesquisas indicam que basta uma quantidade muito pequena de diclofenaco para dizimar populações inteiras de abutres, já que centenas de aves podem se alimentar de uma mesma carcaça. Estatisticamente, ainda que só 1% das carcaças no ambiente estivesse contaminada com a droga, isso já seria suficiente para causar toda a mortandade registrada nos últimos 15 anos.

Então, todo cuidado é pouco. “Com tão poucos abutres restantes, se deixarmos um pouco de diclofenaco ‘escapar’ na natureza já poderá matar todos eles”, alerta Ishana, da BCN.

Situação Brasileira

O diclofenaco é autorizado para uso veterinário no Brasil desde os anos 1990, para aplicação em bovinos, suínos e eqüinos. A restrição é para cães e gatos, para os quais o diclofenaco é altamente tóxico, segundo informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Os abutres Gyps não ocorrem no País e não há registro de problemas de intoxicação com urubus ou outras espécies de aves nacionais.