Revista questiona trabalhos de médico da Unicamp e decreta ‘moratória’ à universidade

Revista questiona trabalhos de médico da Unicamp e decreta ‘moratória’ à universidade

Associação Americana de Diabetes pediu investigação de quatro artigos do pesquisador Mário Saad, candidato a reitor em 2013, após receber denúncias. Sindicância confirmou haver "problemas editoriais" nos trabalhos, mas inocentou pesquisadores de má conduta. Saad se defende e diz ser vítima de perseguição

Herton Escobar

14 Fevereiro 2015 | 08h00

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estão temporariamente impedidos de publicar trabalhos numa das principais revistas de endocrinologia do mundo, a Diabetes, até que uma disputa envolvendo um renomado cientista da instituição seja resolvida.

O médico Mário Saad, ex-diretor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e candidato a reitor em 2013, teve dois de seus trabalhos colocados sob suspeita em abril do ano passado pela revista, que pediu à universidade que investigasse o caso, envolvendo supostas duplicações e manipulações de imagens. A reitoria da Unicamp encomendou uma sindicância, que identificou “problemas editoriais” no trabalhos, mas inocentou Saad e seu grupo de qualquer suspeita de má conduta.


“O trabalho foi concluído em agosto, e em seu relatório final a comissão (investigadora) concluiu que houve problemas editoriais nos dois artigos, mas destacou que não houve intencionalidade nas ações e nem comprometimento dos resultados do trabalho”, informou a reitoria da Unicamp, em nota enviada ontem ao Estado.

Estou defendendo minha honra, para provar que sou uma pessoa íntegra. Não posso deixar que meu nome seja sujado dessa maneira. — Mário Saad

Não satisfeita com esse parecer, porém, a Associação Americana de Diabetes (ADA, em inglês), que publica a revista, pediu uma nova investigação em dezembro e ainda aumentou a lista dos trabalhos de Saad sob suspeita para quatro. A reitoria da Unicamp, então, instaurou nova sindicância, desta vez com a participação de pesquisadores estrangeiros.

A expectativa é que essa nova investigação seja concluída na primeira quinzena de março, mas a ADA se adiantou ao processo e publicou em seu site, no dia 2 de fevereiro, uma nota de preocupação (“expression of concern”, em inglês) sobre a possibilidade de haver imagens duplicadas ou manipuladas nesses trabalhos e de eles virem a ser retratados — ou seja, ter sua publicação anulada. Também anunciou à Unicamp que não aceitará mais trabalhos de nenhum pesquisador da universidade até que essa situação seja resolvida.

“A universidade não concorda com essa atitude da revista, uma vez que a sindicância interna ainda não foi concluída”, diz a reitoria da Unicamp (leia a nota completa abaixo).

Saad abriu um processo contra a ADA no início deste mês, para retirar a nota de “expression of concern” do ar e evitar a retratação dos artigos. “Estou defendendo minha honra, para provar que sou uma pessoa íntegra. Não posso deixar que meu nome seja sujado dessa maneira”, disse Saad ao Estado, ontem. “Tenho muitos desafetos que querem denegrir minha imagem, infelizmente.”

Segundo a nota da Diabetes, as suspeitas foram levantadas por “leitores” da revista. Os trabalhos foram publicados entre 1997 e 2011, relacionados ao metabolismo de insulina, e os questionamentos referem-se a imagens de uma técnica chamada eletroforese em gel, usada para separar e identificar moléculas em laboratório.

Esta é uma das imagens questionadas pela revista, publicada em um trabalho de 2011. Segundo a revista, duas das bandas do gel na fig. 3D parecem ter sido copiadas e alteradas de um trabalho publicado pelo grupo de Saad em 2010, numa outra revista, a PLoS One. Saad reconheceu que ocorreu um erro (não intencional) no processo de seleção das figuras e propôs a publicação de uma errata para corrigir o erro. Foto: http://goo.gl/LCC6J0

Esta é uma das imagens questionadas pela Diabetes, publicada em um trabalho de 2011. Segundo a revista, duas das bandas do gel na fig. 3D parecem ter sido copiadas e alteradas de um trabalho publicado pelo grupo de Saad em 2010, numa outra revista, a PLoS One. Saad reconheceu que ocorreu um erro (não intencional) no processo de seleção das figuras e propôs a publicação de uma errata para corrigir a falha. Foto: http://goo.gl/LCC6J0

Segundo Saad, há uma imagem duplicada em um dos trabalhos, resultante de um erro de edição, cometido no processo de montagem do artigo. “Tenho que admitir que o erro passou por várias mãos e ninguém viu.”O fato de a imagem estar repetida, porém, não tem nenhum efeito sobre o resultado da pesquisa, segundo ele. “Querem transformar um erro simples de editoração em fraude; é um absurdo”, afirma. “A ciência do trabalho está correta.”

Todos os outros problemas apontados nos trabalhos, segundo ele, referem-se à uma prática comum, de cortar e juntar pedaços de um mesmo gel para compor uma imagem (“splicing”, em inglês), sem qualquer tipo de adulteração dos dados.

“A Diabetes tomará decisões finais sobre esses artigos depois de obter mais informações sobre a confiabilidade dos dados e das conclusões apresentadas em cada um deles”, diz a nota da revista.

Saad é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e muito respeitado na comunidade científica nacional, com mais de 250 trabalhos publicados, mais 5 mil citações, e papel de liderança em grandes projetos e comitês científicos na esfera federal e estadual. Seu currículo completo pode ser acessado aqui: http://goo.gl/s4zcw1

Abaixo, a nota completa da reitoria da Unicamp sobre o assunto, enviada ontem ao Estado:

NOTA DA UNICAMP

Atendendo à sua solicitação, informamos o seguinte:

A Unicamp recebeu em abril de 2014 uma solicitação da American Diabetes Association (ADA) para que fossem investigados dois artigos cujo autor responsável é o professor Mário Saad, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM).

De imediato a Unicamp instaurou uma sindicância interna, formada por três professores da Universidade, externos à FCM. O trabalho foi concluído em agosto, e em seu relatório final a Comissão concluiu que houve problemas editoriais nos dois artigos, mas destacou que não houve intencionalidade nas ações e nem comprometimento dos resultados do trabalho.

O relatório foi submetido à tradução e enviado à ADA em outubro de 2014. Em dezembro do mesmo ano, a ADA respondeu à Unicamp contestando o resultado da sindicância e questionando outros dois artigos.

Diante desse novo questionamento, a Unicamp, primando pela isenção, decidiu dar inicio a uma nova sindicância, desta vez com dois membros de universidades do exterior e um integrante do país, porém, externo à Unicamp.

Os membros dessa segunda comissão deverão reunir-se na primeira quinzena de março para discutir e concluir o trabalho. A reitoria da Unicamp aguarda o resultado da segunda sindicância e seguirá a recomendação do seu relatório final.

Apesar de a Unicamp ter respondido prontamente à solicitação, e entendendo-se a dificuldade de reunir pesquisadores do exterior, a ADA decidiu proibir que pesquisadores da Universidade submetam artigos à sua revista até que o caso esteja esclarecido. A Universidade não concorda, porém, com essa atitude da revista, uma vez que a sindicância interna ainda não foi concluída.

Assessoria de Imprensa

 Campinas, 13 de fevereiro de 2015.

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