Revistas buscam soluções para preservar a confiabilidade da ciência

Revistas buscam soluções para preservar a confiabilidade da ciência

Escândalos recentes, associados ao aumento do número de fraudes e retratações, deixam claro que o sistema tradicional de revisão por pares não é suficiente para garantir a confiabilidade das publicações

Herton Escobar

14 Julho 2014 | 10h00

Haruko Obokata, autora da pesquisa retratada sobre células STAP. Crédito: REUTERS/Kyodo

Atentas ao aumento do número de retratações e ao impacto negativo que isso pode ter sobre sua reputação, as grandes revistas científicas estão tomando medidas para reforçar seus mecanismos de revisão e evitar a publicação de trabalhos contaminados por erros ou fraudes.

“Os leitores precisam ter confiança nos resultados que são publicados em nossa revista”, escreveu no dia 3 a editora-chefe da Science, Marcia McNutt, em um editorial no qual ela anuncia a criação de uma Junta de Editores de Revisão Estatística (SBoRE, na sigla em inglês), incumbida de fortalecer o processo de revisão e checagem de dados estatísticos nos trabalhos que são considerados para publicação na revista a partir deste mês.

“Queremos continuar a adotar medidas razoáveis para verificar a acurácia desses resultados”, afirma Marcia. “Acreditamos que a criação do SBoRE ajudará a evitar erros honestos e a elevar os padrões de análise de dados, especialmente quando métodos sofisticados são necessários.”

O fato de Marcia precisar defender a confiabilidade da Science de forma tão contundente num editorial mostra que confiabilidade da literatura científica está sendo realmente colocada em xeque pelo aumento significativo do número de correções e retratações registrado nos últimos anos – realçado por uma série de casos escandalosos, envolvendo revistas de alto impacto, como o que derrubou as pesquisas com células STAP na revista Nature, no início deste mês.

Leia também: Aumento na ocorrência de fraudes preocupa cientistas

A Nature alegou em seu editorial que não tinha como detectar os erros nos trabalhos antes de eles serem publicados. De fato, não eram todos erros escancarados, detectáveis “a olho nu”, por assim dizer. Mas, se olhares mais atentos conseguiram detectá-los via internet rapidamente após a publicação, porque os revisores da Nature não foram capazes de detectá-los antes disso, quando estavam com as informações em mãos?

Se por um lado a revista tentou se eximir de culpa, por outro ela reconheceu que seus mecanismos de checagem precisam ser fortalecidos, e se comprometeu a fazer isso o mais rápido possível; “para garantir que a confiança dos cidadãos na ciência não seja traída” — pois isso, no fundo, é a coisa mais importante que está em jogo.

A atitude das revistas é louvável, e quanto mais rigoroso for o sistema de revisão, melhor. Mas talvez não seja suficiente. Por mais rigorosos que sejam os revisores, eles jamais serão capazes de detectar todos os erros ou todas as manipulações. Os principais problemas com os trabalhos das células STAP, por exemplo, só puderam ser confirmados por meio de uma investigação interna do centro de pesquisas Riken, que teve acesso aos dados brutos da pesquisa, questionou profundamente todos os pesquisadores envolvidos e exigiu análises complementares dos resultados, como as que mostraram haver uma discrepância genética entre as células pluripotentes geradas e linhagem de células adultas da qual elas supostamente foram derivadas.

E a grande fraude das células-tronco embrionárias coreanas, publicada na Science pelo pesquisador Woo Suk Hwang em 2004, só foi revelada graças à coragem de um ex-funcionário dele, que resolveu denunciar a farsa à imprensa (assumindo um custo enorme para sua carreira e vida pessoal: http://migre.me/kroC7).

Como, então, evitar a publicação de dados deturpados como esses?

REVISÃO ABERTA

Esse e outros casos recentes deixam claro que o sistema tradicional de revisão por pares pré-publicação não está mais dando conta do serviço. Por isso, fala-se muito na adoção de sistemas de revisão pós-publicação, que poderiam complementar ou até substituir os sistemas atuais. De certa forma, isso já está acontecendo, dentro de fóruns digitais como o PubPeer e PubMed Commons, que permitem aos usuários postar comentários (de forma anônima, se quiserem) sobre trabalhos científicos, num formato parecido com o de uma rede social. Com isso, o nível de escrutínio da literatura científica vem sendo tremendamente aprofundado e ampliado, especialmente com relação aos trabalhos de alto impacto, que atraem grande atenção — tanto de admiradores quanto de rivais.

Foi o que aconteceu no caso das células STAP. Pois foi justamente no PubPeer que surgiram as primeiras denúncias de erros e possíveis manipulações, poucos dias após a publicação dos trabalhos na Nature, que acabaram resultando nas investigações e, em última instância, na retratação da pesquisa.

O problema é que a revisão pós-publicação não evita a publicação de erros ou fraudes; apenas corrige algo que já foi publicado. E isso não pega bem para a imagem da ciência. O ideal seria que os problemas fossem identificados pré-publicação, para não precisarem ser corrigidos ou retratados depois. Como salientou Marcia, precisamos ter a maior confiança possível de que, se algo foi publicado, é porque está correto (não que seja uma verdade absoluta ou uma palavra final sobre qualquer assunto, porque isso não existe na ciência … mas que é um resultado verdadeiro e produzido de acordo com as melhores práticas científicas). Hoje, infelizmente, as revistas não estão mais conseguindo passar essa confiança aos leitores.

Uma plataforma de divulgação e avaliação de dados pré-publicação que já funciona há algum tempo (desde 1991) é o arXive.org, mantido pela Biblioteca da Universidade Cornell, no qual pesquisadores podem “postar” seus trabalhos antes de submetê-los para publicação, caso se interessem em receber um “feedback” de seus pares antes disso, ou simplesmente queiram disponibilizar seus dados de forma imediata para a comunidade científica. O físico Stephen Hawking fez isso em janeiro, ao colocar no arXive um artigo no qual dizia que os buracos negros não existem. O artigo teve enorme repercussão na mídia e foi muito debatido na comunidade científica. Até agora, porém, não foi publicado em nenhuma revista com revisão por pares.

MELHOR PREVENIR DO QUE REMEDIAR

O problema é que o arXive não trabalha com todas as áreas da ciência, e trata-se de uma plataforma de adesão voluntária — ou seja, não é um passo obrigatório para publicação de um trabalho; só participa quem quer.

O ideal seria ter algo nesses moldes, só que instituído como uma etapa obrigatória de revisão pré-publicação. Um híbrido de arXive e PubPeer, que funcionaria como uma espécie de “estágio probatório”, ou “revisão aberta” pelo qual todo trabalho científico precisaria passar antes de ser publicado em definitivo. Algo semelhante a um processo de consulta pública, ao qual são submetidos projetos de lei antes de serem submetidos ao Congresso para ratificação.

Todas as revistas científicas — em especial as de alto impacto, como Nature e Science — deveriam criar espaços semelhantes ao arXive dentro de seus sites. O sistema funcionaria assim: 1) Os trabalhos seriam submetidos para publicação e passariam por um processo interno de revisão por pares, como de costume; 2) Antes de serem publicados, porém, os trabalhos aprovados na revisão por pares seriam colocados numa plataforma digital aberta a comentários da comunidade científica (semelhante ao PubPeer), para que outros pesquisadores pudessem fazer observações, críticas, elogios, etc; 3) Só depois de um período nesse “estágio probatório” pré-publicação, os trabalhos poderiam ser publicados em definitivo — já com as eventuais correções, complementações ou modificações necessárias.

Na prática, seria como dizer: “Avaliamos esse trabalho e pretendemos publicá-lo. Se alguém notar alguma coisa errada nele, por favor nos avise.”

Seria uma forma de acrescentar uma camada extra, de escrutínio público, ao processo interno de revisão por pares. Tomando a pesquisa das células STAP como exemplo, se um esquema como esse tivesse sido aplicado, os problemas que a revista não conseguiu detectar no seu processo interno de revisão por pares teriam sido detectados no “estágio probatório” de revisão aberta, e os trabalhos não teriam sido publicados em definitivo — evitando, assim, o escândalo da retratação; e protegendo, assim, a confiabilidade da ciência perante os olhos da sociedade.

LEIA TAMBÉM

Desperdício científica atrasa avanço da biomedicina, diz editora do BMJ

Descoberta de ondas gravitacionais é publicada com dados ’empoeirados’

Replicabilidade ameaçada: Receitas da ciência não estão funcionando