RICA SIMPLICIDADE

RICA SIMPLICIDADE

Herton Escobar

14 Setembro 2011 | 03h44

 

A "avenida" principal de Kalitoko. Foto: Herton Escobar/AE

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Algumas semanas atrás, caminhando aleatoriamente pelas ruas de Jakarta em busca de comida, acabei entrando sem querer num shopping super luxuoso, cheio de lojas de grife, restaurantes chiques e famílias obviamente bem abastadas passeando com suas crianças. Admito que levei um choque! Depois de tantos meses vivendo perto do mar e longe das metrópoles, raramente vestindo algo mais do que sandálias, shorts e camiseta (ou roupas de mergulho), visitando comunidades tradicionais, dormindo em barcos e compartilhando pratos de arroz com pescadores, sem qualquer tipo de luxo, confesso que foi como entrar numa outra dimensão. Fiquei até meio desorientado na hora.

Apenas alguns dias antes eu estava em Kalitoko, uma pequena comunidade tradicional de pescadores da Baía de Mayalibit, na ilha de Waigeo, em Raja Ampat, um aglomerado de ilhas ao largo da costa noroeste de Papua. Comendo arroz sem tempero com colher de plástico, tomando banho de caneca com água de poço e dormindo no chão, como fazem os locais, apenas com um travesseiro (que eu trouxe comigo). Um calor danado, sem nada gelado para beber. E sem sinal de celular, muito menos internet.

Para quem está acostumado à vida na cidade, a descrição acima pode soar como a de uma masmorra, ou de uma vila da Idade Média. Coitadas dessas pessoas, não é mesmo? Aprisionadas no passado, subdesenvolvidas, dormindo no chão, sem nenhum dos benefícios ou confortos da civilização moderna.

Ok. Dormir no chão não foi confortável. E um copinho de água gelada também teria caído muito bem naquele calor. Mas façamos a seguinte reflexão: Se eu tirasse uma família de Kalitoko e a colocasse em Jakarta, capital da Indonésia, ou em Colombo, capital do Sri Lanka, onde estou agora, a vida dela seria melhor?

Vejamos …

1)      Em Kalitoko a comida é tirada diretamente da natureza. Está com fome? Vai ao mar e pesca um peixe, vai ao mangue e pega um caranguejo. Dá trabalho, sim, mas é de graça. O pessoal lá é pobre, mas não passa fome. Na cidade, se você não tem dinheiro, danou-se. Tem de ir ao supermercado, restaurante, ou comprar comida pronta na rua. Ou pedir esmola na calçada, ou morrer de fome.

2)      Em Kalitoko, a água é coletada de poços artesianos, da chuva ou dos rios. Não é a água mais pura do mundo e precisa ser fervida antes de beber, mas é de graça e não falta nunca. Na cidade, a água tem de vir da torneira, fornecida pelo governo. Você tem de pagar por ela e, mesmo assim, a qualidade é muitas vezes duvidosa. Resultado: quase todo mundo (que pode pagar) só bebe água mineral, que é cara e tem de ser transportada longas distâncias em garrafas plásticas, gerando uma quantidade enorme de resíduos.

3)      Em Kalitoko não há hospital. Mas todo mundo parece muito mais forte e saudável do que as pessoas da cidade, que precisam passar horas na academia ou recorrer a cirurgias plásticas para ter o mesmo físico. O ponto mais fraco é saúde bucal. Falta dente na boca de todo mundo. Mas a incidência de doenças relacionadas à obesidade, má alimentação e ao sedentarismo certamente é muito menor, se não inexistente. Poluição do ar, poluição sonora, poluição visual? Não existem. Insônia? Mesmo dormindo no chão, ninguém nunca perdeu tempo acordado com isso.

4)      Em Kalitoko tem uma escola. Mas só vai até a sexta série, só tem um professor, e a qualidade do ensino, claro, é limitada. Muitas vilas semelhantes da região não tem nem professor, infelizmente – então Kalitoko está até que bem nesse quesito.

5)      Em Kalitoko não tem cinema, internet nem videogame. Consequentemente, as crianças, quando não estão na escola, passam o dia brincando ao ar livre, ou ajudando os pais com as tarefas de casa.

6)      Em Kalitoko não tem shopping center nem loja de roupas. Os conceitos de “moda” ou de beleza estética simplesmente não existem, e as pessoas são julgadas puramente pelo seu caráter e seu comportamento, não pela sua aparência ou pelo tipo de roupa que usam. O pessoal lá veste qualquer camiseta e shorts que cair nas suas mãos. Na cidade, seriam vistos como mendigos.

Para não terminar com um texto longo demais, vou parar por aqui.

O ponto central é que, tirando educação e saúde, não há quase nada nas cidades que seja essencial à vida dos pescadores de Kalitoko. Há muitas coisas que fariam suas vidas mais confortáveis, e talvez mais divertidas em alguns aspectos, mas não necessariamente melhores.

Digo isso com uma reconhecida dose de hipocrisia, pois sou paulistano, adoro ir ao cinema, adoro pizza e comida japonesa, e não tenho nenhum desejo de morar numa vila isolada de pescadores. Mas é interessante como viajar te ensina a olhar as coisas de ângulos diferentes, te dá novas perspectivas sobre o mundo ao seu redor, e muda seus critérios de valores. Se tem uma coisa que trilhar montanhas e florestas me ensinou é que tudo o que você precisa para sobreviver e ser feliz pode caber dentro de uma mochila. O resto é luxo. Muito bem vindo, quando possível, mas não absolutamente necessário.

Há uma diferença muito grande entre querer e precisar. Uma diferença que, infelizmente, muita gente é incapaz de perceber.

Pensei nisso novamente hoje, depois de passar horas dentro de um tuc-tuc, respirando o ar superpoluído das ruas superbarulhentas e superbagunçadas de Colombo. A qualidade de vida na cidade pode ser muito boa, sim, se você tem um trabalho bom, um salário bom, acesso a boas escolas, boa alimentação, etc. Mas pode ser muito ruim, também, para quem não tem nada disso. Entre ser pobre em Colombo e ser pobre em Kalitoko, melhor ficar em Kalitoko.

Apenas uma reflexão.

Abraços a todos.