Salmão transgênico a caminho?

Salmão transgênico a caminho?

Herton Escobar

14 Abril 2013 | 16h50

FOTO: Aquabounty/Reuters (Salmão transgênico de 1,5 ano, comparado a um salmão não transgênico, da mesma espécie e da mesma idade.)

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

A tecnologia de produção das cabras transgênicas com proteínas humanas no leite (veja post abaixo) foi inventada e continua a ser desenvolvida na Califórnia, mas o cientista que a inventou não tem muitas esperanças de colocá-la em prática comercialmente nos Estados Unidos. Sua aposta é no Brasil.

“O Brasil é perfeito para nós; é nossa melhor esperança”, disse ao Estado o pesquisador James Murray, do Departamento de Ciências Animais da Universidade da Califórnia em Davis. “É um país onde o problema existe (da diarreia infantil) e onde a ciência pode ser feita.”

O problema nos EUA, segundo ele, é a falta de apoio político, financeiro e da opinião pública para o desenvolvimento de animais transgênicos. “Está muito difícil conseguir recursos para esse tipo de pesquisa aqui. O governo americano não é contra a biotecnologia, mas não é um tema favorável politicamente, porque há grupos influentes que fazem muito barulho contra isso”, disse Murray. “Continuamos a fazer pesquisa com nossos animais, mas ninguém vai dar dinheiro para fazermos testes clínicos com o leite aqui; nosso plano é fazê-los em Fortaleza.”

Salmão. O pessimismo de Murray tem um símbolo: o caso do salmão transgênico desenvolvido pela empresa Aquabounty, que há quase 20 anos (desde 1995) espera por uma resposta da Administração de Drogas de Alimentos (FDA) para colocar seu produto no mercado.

O produto, chamado AquAdvantage, é um salmão do Atlântico geneticamente modificado com um gene do salmão Chinook, do Pacífico. A modificação faz com que o peixe transgênico cresça duas vezes mais rápido do que um salmão do Atlântico convencional, permitindo que ele chegue mais rápido ao mercado. A proposta da empresa é que ele seja criado apenas em tanques de piscicultura isolados em terra, não no oceano.

Após muita polêmica, a FDA produziu no ano passado um relatório positivo de avaliação, no qual conclui que o salmão transgênico é seguro para consumo humano e não oferece risco ao meio ambiente. O relatório ficou pronto em maio, mas só foi divulgado publicamente em dezembro – depois das eleições presidenciais americanas. O documento foi aberto para um período de consulta pública, que deveria ter terminado em fevereiro, mais foi prolongado até o dia 26 deste mês.

A resposta da FDA será um marco para o setor. Se for negativa – ou positiva, mas ainda assim a comercialização não for autorizada –, a biotecnologia animal poderá definhar nos EUA, segundo Murray. “Torço para que países em desenvolvimento na América do Sul, como o Brasil, e na Ásia levem essas tecnologias para frente, porque aqui parece que não vai acontecer.”

“O Brasil tem muito potencial para crescer nessa área”, avalia Luiz Antonio Barreto de Castro, especialista em biotecnologia, que quer trazer o salmão transgênico para o País. “Está mais do que provado que ele é seguro. Temos produtores de trutas aqui que certamente se interessariam em usar essa tecnologia e entrar no mercado de salmão.”