SEMENTES NÃO BASTAM

SEMENTES NÃO BASTAM

Herton Escobar

18 Junho 2012 | 08h35

A Rio+20 termina só no dia 22, mas a diplomacia brasileira, que agora comanda as negociações, prometeu apresentar até o fim do dia de hoje o documento final que descreverá os resultados da conferência. Uma promessa que me parece, a princípio, um tanto utópica ou até fantasiosa, pois as negociações nesse tipo de conferência da ONU costumam se arrastar quase sempre até o último minuto possível, quando todos os diplomatas e jornalistas já estão pedindo por favor para ir embora.

Como jornalista, portanto, torço para que o Brasil cumpra sua promessa, convença os outros países a chegarem a um consenso, e feche o documento ainda hoje, o mais cedo possível. Já cansei de varar madrugadas nesse tipo de cobertura.

Como ser humano, habitante do planeta Terra, porém, torço para que a promessa seja quebrada ou que, pelo menos, as negociações hoje se arrastem até o mais tarde possível, madrugada adentro.

Por quê? Não, não fiquei louco nem virei sadomasoquista … O problema é que o rascunho apresentado no sábado pelo Brasil como base para negociação do acordo final é extremamente vago e genérico. E se as negociações forem mesmo encerradas hoje, como deseja o Itamaraty, isso significa que o rascunho será pouco alterado, e que o documento final da conferência será provavelmente igualmente vago e genérico.  Fraco. E será difícil não classificar a conferência como um fracasso, dadas as expectativas da sociedade com relação a ela.

A diplomacia brasileira, muito respeitada no mundo, fez um trabalho louvável no sentido de buscar o consenso, produzindo um documento com possibilidades realistas de ser aprovado pelos 193 países membros da ONU representados nas negociações(lembrando que todas as decisões têm de ser adotadas por consenso absoluto … nenhum país pode discordar de nada). Ao buscar esse consenso, porém, foi obrigada a produzir um texto pouco ambicioso, sem nenhuma revolução substancial capaz de mudar o planeta do seu rumo atual e colocá-lo no caminho do desenvolvimento sustentável.

Não obriga ninguém a fazer nada de radical. Não inclui comprometimento com dinheiro, com tecnologia, com novos modelos econômicos, nem com mudanças significativas nos padrões de produção e consumo. Na prática, não muda quase nada. Como disseram algumas ONGs, trata do Futuro que Teremos, e não do Futuro que Queremos, como diz o título do documento.

O que o texto faz é reconhecer, mais uma vez, que os problemas existem, que eles são graves e que precisam ser solucionados. Só faltam as soluções. Ele propõe plantar algumas sementes importantes como, por exemplo, a que abrirá discussões para a definição dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), até 2014, para substituir os atuais Objetivos do Milênio, que vencem em 2015. Também planta uma semente para o fortalecimento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), para a negociação de um tratado internacional sobre águas internacionais e para a criação de uma Estratégia Financeira de Desenvolvimento Sustentável, com o intuito de auxiliar os países em desenvolvimento a se desenvolverem de maneira sustentável.

Se essas sementes germinarão em algo realmente significativo para o planeta nos próximos anos, sabe-se lá. Vai depender, como sempre, de mais e mais negociações. A culpa não é do Brasil; é do ser humano. Para uma conferência do porte da Rio+20, espera-se mais do que sementes. Espera-se árvores, ou pelo menos algumas mudas. Se não, vamos acabar todos mesmo debaixo da terra. Morrer na praia, já que estamos no Rio de Janeiro, nadando contra a corrente.

Para mais detalhes sobre o documento de negociação, vejam minha reportagem de hoje no Estadão.

Abraços a todos.