‘SIMULADOR DE VOO’ SUÍNO DA ARTERIOSCLEROSE

‘SIMULADOR DE VOO’ SUÍNO DA ARTERIOSCLEROSE

Herton Escobar

04 Janeiro 2013 | 14h45

Um dos porquinhos transgênicos clonados. FOTO: Jesper Rais, Aarhus University

Imagine se você quisesse testar uma nova tecnologia de segurança para aviões de grande porte que fazem viagens transoceânicas, mas que, para isso, só tivesse disponíveis aviões de pequeno porte, que voam apenas pequenas distâncias, em altitudes bem menores, com sistemas de controle e características aerodinâmicas diferentes … Não seria o teste mais confiável do mundo, seria?

Pois é mais ou menos isso que a biomedicina faz hoje para testar a eficácia de novas drogas contra a arteriosclerose (o famoso acúmulo de placas de gordura no interior das artérias) e seus males associados (como enfarto do miocárdio e acidente vascular cerebral). Infelizmente para nós, a arteriosclerose é uma doença quase que exclusivamente humana – uma triste invenção do homem moderno, por assim dizer, associada à má alimentação, ao sedentarismo e outros fatores de risco que aumentam a quantidade de colesterol circulante no sangue.

Assim, fica difícil achar um bom modelo animal de arteriosclerose para estudar a biologia da doença e testar a eficácia de drogas e outras formas de tratamento, ou mesmo de diagnóstico e monitoramento, antes de aplicá-las em seres humanos. Os estudos são feitos com camundongos, ratos, coelhos e outros animais pequenos, que não desenvolvem a doença da mesma forma que seres humanos e são pequenos demais para testar técnicas invasivas ou não invasivas de monitoramento dos resultados. O que ajuda a explicar porque várias das últimas drogas contra arteriosclerose testadas em seres humanos falharam em estudos clínicos, apesar de terem mostrado resultados positivos iniciais em modelos animais.

Falta um modelo animal mais “fidedigno” de arteriosclerose. Um bom simulador de voo, por assim dizer.

Ou talvez “faltava” … Pesquisadores da Dinamarca anunciam hoje na revista Science Translational Medicine a criação de porquinhos clonados e geneticamente modificados com um gene humano mutado, que faz com que eles desenvolvam a doença rapidamente e de forma muito semelhante aos seres humanos. Pode ser o modelo que faltava para acelerar as pesquisas de novas drogas e técnicas de tratamento contra a doença.

Os porquinhos nasceram de uma combinação de várias técnicas da biotecnologia moderna. Os pesquisadores, primeiro, colheram células da pele (fibroblastos) de porcos adultos e modificaram geneticamente essas células em laboratório, introduzindo no genoma delas um gene (chamado PCSK9) contendo uma mutação (chamada D374Y) que é uma causa genética conhecida de colesterol alto em seres humanos. Depois, inseriram o núcleo dessas células transgênicas em óvulos suínos sem núcleos para formar embriões in vitro, que depois foram transferidos para o útero de porcas gestantes (repetindo a clássica técnica de “transferência nuclear”, usada pela primeira vez para clonar a ovelha Dolly, 17 anos atrás, e pouco modificada desde então). Desses embriões nasceram, eventualmente, porquinhos clonados transgênicos com alto colesterol congênito, causado pelo gene humano mutado introduzido no seu DNA. E esses animais, agora, poderão ser usados como matrizes para produção de mais e mais porquinhos com a mesma mutação. Imagine só!

Só o tempo vai dizer se esses animais se confirmarão como um modelo clinicamente válido para pesquisa da arteriosclerose (um bom simulador de voo!); mas os testes iniciais apresentados no estudo indicam que eles são o modelo mais “fidedigno” da doença em seres humanos até agora.