Sobre efeito placebo, homeopatia, células-tronco e a capacidade do corpo de se cuidar sozinho (com alguma ajuda)

Sobre efeito placebo, homeopatia, células-tronco e a capacidade do corpo de se cuidar sozinho (com alguma ajuda)

Herton Escobar

09 Janeiro 2014 | 20h32

FOTO: Farmácia de manipulação. Crédito: Nilton Fukuda/Estadão

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

O efeito placebo é um dos mistérios mais interessantes da ciência na área biomédica. Já está mais do que provado que ele é um efeito clínico real — que as pessoas de fato melhoram, não apenas “acham” que melhoram. Ninguém sabe explicar exatamente como ou porque isso acontece — quais mecanismos biológicos de “cura” são acionados dentro do organismo quando as pessoas tomam uma pílula de farinha achando que é um remédio de verdade, por exemplo. Mas o fato é que acontece, como mostra o estudo sobre enxaqueca abordado no post anterior. E isso não pode ser ignorado, por uma série de motivos.

Antes de tudo, ainda que não entendamos seus mecanismos de ação, é preciso entender seus limites. Ted Kaptchuk, diretor do Programa de Pesquisas sobre Placebo e Encontros Terapêuticos (PiPS) da Faculdade de Medicina de Harvard, deixa claro que efeito placebo não é sinônimo de “auto-cura”. “O efeito placebo pode aliviar dores e mal-estar associados a um tumor, mas não vai fazer o tumor desaparecer; não vai curar o câncer”, disse-me Kaptchuk em uma entrevista sobre o estudo da enxaqueca, no qual ele é um dos principais autores. “Quando você toma um remédio contra colesterol alto, o que faz efeito é a droga; não tem efeito placebo envolvido”, completa.

Os fatores que podem ser mais diretamente afetados pelo efeito placebo, segundo Kaptchuk, são aqueles que são percebidos e relatados diretamente pelos pacientes, como as dores e náuseas associadas a um ataque de enxaqueca. Um dos resultados mais interessantes dessa pesquisa específica foi que o efeito placebo foi clinicamente perceptível mesmo quando os pacientes sabiam que estavam tomando um placebo. Ou seja: eles sabiam que estavam tomando uma substância inócua, e mesmo assim se sentiram melhor depois de engolir a pílula. E quando achavam que estavam tomando um remédio de verdade, o efeito era maior ainda.

Homeopatia. O que ajuda a explicar muito do que ocorre na homeopatia — uma forma de medicina alternativa que, na prática, nada mais é do que uma aplicação terapêutica de placebos, já que os medicamentos homeopáticos não possuem princípio ativo com efeito farmacológico reconhecido (às vezes são puramente água com sal ou açúcar). Mas as pessoas tomam suas bolinhas homeopáticas e melhoram, não melhoram? Sim. Como isso é possível? Efeito placebo; ou, simplesmente, pelo fato de que elas iriam melhorar de qualquer maneira, mesmo sem tomar nada — o corpo só precisava de um pouco mais de tempo para resolver o problema sozinho.

Segundo o infectologista Adauto Castelo Filho, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o simples fato de as pessoas receberem atenção de um médico já faz elas se sentirem melhor e se cuidarem melhor — por exemplo, comendo melhor e se exercitando mais, dormindo mais, etc. “Isso acontece muito na homeopatia, principalmente com crianças. Os homeopatas são muito atenciosos, e as crianças se sentem muito bem cuidadas pelas mães, recebendo suas bolinhas homeopáticas ao longo do dia (num ritual muito mais agradável do que o de tomar um remédio tradicional)”, diz ele. “O homeopata é honesto, é bem intencionado. Ele é muito convencido do que faz porque olha para a criança e vê ela melhorar. Mas o que fez ela melhorar, de fato, não fica claro.”

Coincidentemente, hoje de manhã (no dia seguinte às entrevistas com Kaptchuk e Adauto), recebi por e-mail um press release de um laboratório de homeopatia sobre os resultados de um estudo publicado há quase um ano no Journal of Alternative and Complementary Medicine, que confirmaria a eficácia da homeopatia no tratamento da enxaqueca em crianças de 5 a 15 anos de idade. Segundo o release: “Foram comparadas frequência, intensidade e duração dos ataques de dor de cabeça, durante três meses antes e três meses depois da inclusão da terapêutica. Uma diminuição de crises foi observada entre a inclusão e as visitas de acompanhamento. No primeiro questionário, os pacientes apresentaram uma média de 10 ataques, após três meses esse número reduziu para apenas três ataques.”

Ok. Mas o que foi que reduziu os ataques de fato? As bolinhas homeopáticas por si só; o efeito placebo induzido por elas; ou mudanças em algum outro fator qualquer associado ao estilo de vida dessas crianças/jovens? A única maneira de responder a esse tipo de pergunta e provar cientificamente a eficácia da homeopatia (além de seu efeito placebo associado), segundo Adauto, seria fazer um estudo clínico como o de Harvard, comparando os resultados de um grupo que não recebesse tratamento nenhum com os de um grupo que recebesse pílulas homeopáticas de verdade e outro, que recebesse pílulas placebo, sem saber que eram placebo (como se faz para testar a eficácia de qualquer medicamento). “Só que nenhum homeopata aceita fazer um estudo desse tipo”, aponta Adauto.

Células-tronco (ou placebo?). É o mesmo problema que se constata nas “terapias” com células-tronco oferecidas em hospitais da China e de outros países, que não possuem qualquer comprovação científica de segurança ou eficácia por trás delas. Muitas pessoas (geralmente desesperadas, por enfrentar alguma doença grave e sem cura) pagam fortunas para se submeter a esses tratamentos obscuros e muitas saem do hospital satisfeitas, dizendo ter melhorado. Mas será que melhoraram mesmo? Será que não é apenas uma melhora superficial ou temporária, induzida pelo efeito placebo? E será que a melhora vem mesmo das células-tronco injetadas no seu sangue ou na sua medula espinhal, ou das outras intervenções realizadas durante a internação, como fisioterapia? E para cada uma dessas pessoas que gravou um vídeo dizendo se sentir melhor, quantas não melhoraram ou até pioraram por causa da terapia?  … A única maneira de saber seria fazer um estudo clínico controlado, como se faz com qualquer outra terapia. Mas os médicos que oferecem esses “tratamentos” se recusam a fazer isso — acham que sua palavra e os relatos de alguns pacientes felizes na internet são suficientes.

“O efeito placebo é um efeito clínico real e extremamente interessante do ponto de vista terapêutico. Mas, de maneira alguma pode se comparar essa eficácia à de um procedimento clínico verdadeiramente efetivo”, conclui Adauto. “Para dizer que um procedimento é efetivo, ele tem de ser melhor do que placebo.”

Esse é o princípio básico para avaliação da eficácia de qualquer medicamento, terapia ou até intervenção cirúrgica: não basta trazer algum benefício; esse benefício tem de ser maior do que o do efeito placebo. Em outras palavras: tem de ser melhor do que nada! E isso só pode ser comprovado com pesquisa.