Sobre neurociências em Natal 9

Sobre neurociências em Natal 9

Herton Escobar

01 Março 2013 | 09h38

 

Nicolelis mostra que é possível interligar cérebros de animais

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo


Um estudo publicado ontem pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, mostra que é possível conectar eletronicamente os cérebros de dois animais e transmitir informações de um para outro. O trabalho, publicado na revista Scientific Reports, inaugura uma nova linha de pesquisa batizada por Nicolelis de interface cérebro-cérebro (ICC); uma variante da interface cérebro-máquina (ICM), em que comandos elétricos do cérebro são usados para mover aparatos robóticos.

O artigo, submetido à revista em dezembro, sinaliza uma retomada da publicação de trabalhos pelo Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), interrompida há mais de um ano e meio por um “racha” entre Nicolelis e um grupo de pesquisadores que abandonou a instituição. Um dos co-autores é Carolina Kunicki, aluna de pós-doutorado no IINN-ELS. Segundo as informações contidas no estudo, ela participou da condução de experimentos em Natal, enquanto que Nicolelis e outros autores da Duke desenharam os experimentos, analisaram os dados e escreveram o trabalho.

O estudo foi feito com recursos do CNPq para o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Interface Cérebro-Máquina (INCT-Incemaq), da Finep e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Norte (Fapern), além de fontes nos Estados Unidos e em Portugal.

O trabalho descreve uma sequência de experimentos em que ratos foram treinados para realizar tarefas envolvendo estímulos visuais e táteis, como o acionamento de alavancas para obter água quando uma luz acende. A atividade cerebral relacionada a essas tarefas foi captada por meio de eletrodos implantados no cérebro dos animais, decodificada e transferida eletronicamente em tempo real para o cérebro de outros ratos que, com isso, “aprenderam” a realizar as mesmas tarefas com um grau semelhante de sucesso.

Os primeiros ratos foram denominados “codificadores” e os segundos, “decodificadores”. Informações também foram enviadas de volta dos decodificadores para os codificadores, de modo que um aprendia continuamente com os erros e acertos do outro nas tarefas, segundo o trabalho. Um vídeo dos experimentos pode ser visto neste link.

“Essas experiências mostraram que nós estabelecemos uma ligação de comunicação direta e sofisticada entre cérebros e que o cérebro decodificador funciona como um dispositivo de reconhecimento padrão. Então, basicamente, estamos criando uma espécie de computador orgânico”, afirma Nicolelis, em um

Documento

divulgado pela Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (Aasdap), que administra o IINN-ELS.

Os experimentos pioneiros foram desenvolvidos e realizados na Duke, que aprovou os protocolos de experimentação animal usados no trabalho. Como uma demonstração adicional da técnica, a experiência foi repetida com a transmissão de dados a longa distância, via internet, entre ratos codificadores no IINN-ELS e ratos decodificadores na Duke.

“Demonstramos que um par de ratos pode cooperar por meio de uma interface cérebro-cérebro para alcançar um objetivo comportamental comum”, escrevem os autores na Scientific Reports.

A revista digital, lançada em 2011, é uma das mais de 80 publicadas pelo grupo Nature. Em uma reportagem publicada no site do próprio grupo ontem, especialistas americanos questionaram o propósito e a metodologia do trabalho. Um deles chegou a dizer que o experimento lembrava um “roteiro pobre de ficção científica hollywoodiana”.