Estudo revolucionário sobre células-tronco pode ser invalidado

Estudo revolucionário sobre células-tronco pode ser invalidado

Herton Escobar

14 Março 2014 | 15h18

FOTO: O presidente do centro de pesquisas Riken, Ryoji Noyori, pediu desculpas pela confusão gerada pelos artigos de seus pesquisadores. Crédito: REUTERS/Toru Hanai

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

A confiabilidade de uma nova técnica japonesa para a produção de células-tronco em laboratório foi colocada definitivamente em xeque hoje. A autora principal e dois co-autores dos estudos publicados em janeiro na revista Nature reconheceram que há problemas nos trabalhos e disseram que estão considerando a possibilidade de retratá-los (anular as publicações), segundo informações publicadas no site de notícias da revista Science (http://migre.me/ikvDI).

Haruko Obokata (a autora principal), e Hitoshi Niwa e Yoshiki Sasai (co-autores) — todos pesquisadores do centro de pesquisas Riken, no Japão — pediram desculpas pelas falhas cometidas e disseram, em um pronunciamento por escrito, que estão contactando os outros co-autores sobre a possibilidade de retratar os estudos. Alguns dias atrás, Teruhiko Wakayama, da Yamanashi University, já havia pedido que os artigos fossem retratados, ao menos temporariamente — até que as dúvidas levantadas sobre eles sejam esclarecidas.

Os trabalhos publicados na Nature descreviam uma nova técnica revolucionária para transformar células adultas de pacientes em células-tronco pluripotentes (com potencial para se transformar em qualquer tipo de tecido), chamadas “STAP cells”, sem a necessidade de manipulações genéticas — apenas com uma mudança de pH no meio de cultura das células. A notícia rodou o mundo e causou grande entusiasmo na comunidade científica. A solução que parecia ser incrivelmente simples, mas, agora parece ser simples demais para ser verdade. Nenhum outro pesquisador, até agora, conseguiu reproduzir os resultados.

Se os estudos forem retratados, seus resultados deixarão de ter validade científica — a não ser que os autores sejam capazes de refazer os trabalhos e demonstrar, de maneira convincente, que a técnica realmente funciona.

Para mais detalhes sobre os estudos originais, clique aqui: http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/celulas-stap/

Além disso, há suspeitas de que alguns dados do trabalho tenham sido adulterados ou plagiados (da tese de doutorado da própria Haruko). O centro Riken e a revista Nature estão investigando o caso. Resultados preliminares da investigação interna do centro foram divulgados hoje (ontem no Japão) em uma entrevista coletiva. Eles apontam problemas nos trabalhos, mas não chegam a uma conclusão se houve conduta antiética por parte dos pesquisadores. O presidente do Riken, Ryoji Noyori (vencedor do Prêmio Nobel de Química em 2001), também pediu desculpas pela confusão gerada pelos trabalhos e garantiu que os pesquisadores serão punidos, caso seja constatado que houve má conduta por parte deles.

“O problema aqui é que uma pesquisadora imatura coletou uma quantidade enorme de dados e a maneira como ela lidou com essas informações foi extremamente desleixada e irresponsável”, afirmou Noyori, segundo a agência de notícias Reuters. O centro está investigando seis pontos dos trabalhos suspeitos de manipulação e plágio, que não necessariamente invalidam os resultados, mas colocam em xeque a credibilidade da pesquisa.

Um dos autores principais do trabalho, Charles Vacanti, é da Escola de Medicina de Harvard. A Nature não divulgou nenhum resultado de sua investigação até agora.

Post atualizado às 20h20, com informações adicionais.

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