Sucuri pré-histórica tinha mais de 10 metros e pesava 1 tonelada

Sucuri pré-histórica tinha mais de 10 metros e pesava 1 tonelada

Pesquisadores do Museu de História Natural da Flórida estão montando um novo fóssil de Titanoboa, a maior cobra que já existiu (até onde sabemos). Crocodilo de 5 metros que conviveu com ela ganhou nome de personagem de "O Senhor dos Anéis".

Herton Escobar

06 Abril 2015 | 15h58

Ilustração da Titanoboa e outros animais que conviveram com ela. Crédito: Jason Bourque/UF

Ilustração da Titanoboa e outros animais que conviveram com ela. Crédito: Jason Bourque/UF

Se você é daquelas pessoas que tem de medo de cobra, não importa o tamanho, sugiro evitar qualquer viagem no tempo para os pântanos da Colômbia de 60 milhões de anos atrás.

Imagine uma cobra gigantesca, com mais de 10 metros de comprimento e 1 tonelada, capaz de engolir bichos do tamanho de um Fusca … Assim era a Titanoboa cerrejonensis, ou “sucuri titânica de Cerrejón”, que se esgueirava por aquela região no início do Paleoceno, alguns milhões de anos após o cataclisma que varreu os dinossauros da face da Terra (com exceção de uma linhagem, que deu origem aos pássaros).

Os primeiros fósseis dessas cobras gigantes (as maiores de que se tem registro) foram desenterrados cerca de dez anos atrás e descritos num artigo científico em 2009, na revista Nature, com base numa coleção de fragmentos de ossos de 28 indivíduos, ou espécimes — o maior dos quais, segundo os pesquisadores, tinha cerca de 13 metros de comprimento e pesava mais de 1,1 mil quilos.

Agora, pesquisadores estão juntando as peças de um novo espécime, muito mais completo e escavado da mesma região da Colômbia entre dezembro de 2011 e janeiro de 2012, que poderá revelar novos detalhes sobre a biologia desses “monstros” pré-históricos.

Os novos fósseis estão sendo preparados no departamento de paleontologia de vertebrados do Museu de História Natural da Flórida, que fica dentro da Universidade da Flórida (UF), em Gainesville. Os ossos, meticulosamente limpos um a um, para libertá-los de milhões de anos de sedimento incrustado, estão separados em caixas sobre uma mesa, como peças de um grande quebra-cabeça pré-histórico, que os pesquisadores vão montar para recriar como era esse animal na vida real.

As pesquisas são desenvolvidas em parceria pelo museu da UF e o Smithsonian Tropical Research Institute (STRI), que também faz escavações paleontológicas nos sítios de ampliação do Canal do Panamá.

Leia também: Cobras invasoras viram predadoras de coelhos no sul da Flórida

O diretor de coleções de Paleontologia de Vertebrados do Museu de História Natural da Flórida, Richard Hulbert, mostra os ossos do novo fóssil de Titanoboa para um visitante. O museu permitiu que eu fotografasse a sala de preparação, porém sem mostrar detalhes do fóssil, que ainda não foi publicado. Crédito: Herton Escobar/Estadão

O diretor de coleções de Paleontologia de Vertebrados do Museu de História Natural da Flórida, Richard Hulbert, mostra os ossos do novo fóssil de Titanoboa para um visitante. O museu permitiu que eu fotografasse a sala de preparação, porém sem mostrar detalhes do fóssil, que ainda não foi publicado. Crédito: Herton Escobar/Estadão – 24/3/2015

Extrair fósseis de uma região tropical como o norte da Colômbia não é tarefa fácil, porque as camadas internas do solo não afloram e ficam expostas na superfície, como ocorre nas regiões mais áridas, onde a paleontologia é mais comumente praticada. Em vez disso, ficam escondidas sob toneladas de terra úmida e vegetação, que não podem ser removidas com tanta facilidade.

Os ossos de Titanoboa, assim como de vários outros animais enormes daquela época, só voltaram a ver a luz do dia porque existe uma grande operação de mineração de carvão em Cerrejón, que abre valas imensas no solo e permite aos cientistas chegar até os fósseis.

Um desses outros “monstros” que conviveram com a Titanoboa foi um crocodilo de quase 5 metros e mais de 400 quilos, batizado de Anthracosuchus balrogus, descrito recentemente na revista Historical Biology. O nome da espécie, para se ter uma ideia do tamanho do bicho (e do lado nerd da biologia), faz uma “homenagem” ao demônio Balrog, que derrota o mago Gandalf nas minas de Moria em O Senhor dos Anéis, de J.R.R Tolkien.

Vai ser interessante ver quantos outros bichos incríveis e assustadores ainda vão surgir das profundezas das Minas de Cerrejón. Detalhe: A Titanoboa cerrejonensis era grande o suficiente para engolir o Anthracosuchus balrogus num dia de fome. Já o Balrog da Terra Média de Tolkien, nunca saberemos. Imagine só!

Aldo Rincon, aluno de doutorado no Museu de História Natural da Flórida, mostra o crânio que foi usado para descrever o crocodilo Anthracosuchus balrogus, que conviveu com a Titanoboa em Cerrejón 60 milhões de anos atrás. Foto: Herton Escobar/Estadão - 24/3/2015

Aldo Rincon, aluno de doutorado no Museu de História Natural da Flórida, mostra o crânio que foi usado para descrever o crocodilo Anthracosuchus balrogus, que conviveu com a Titanoboa em Cerrejón 60 milhões de anos atrás. Foto: Herton Escobar/Estadão – 24/3/2015

Jason Bourque, um dos pesquisadores que descreveu a Titanoboa, trabalha com pequenas vértebras de outras cobras escavadas em Cerrejón. O sedimento incrustado nos ossos precisa ser retirado com extremo cuidado, para não danificar os fósseis. Foto: Herton Escobar/Estadão

Jason Bourque, um dos pesquisadores que descreveu a Titanoboa, trabalha com pequenas vértebras de outras cobras escavadas em Cerrejón. O sedimento incrustado nos ossos precisa ser retirado com extremo cuidado, para não danificar os fósseis. Foto: Herton Escobar/Estadão

Mesa com fósseis de Titanoboa. Foto: Herton Escobar/Estadão - 25/3/2015

Mesa com novos fósseis de Titanoboa. Foto: Herton Escobar/Estadão – 25/3/2015

Esta reportagem da Smithsonian Magazine conta em detalhes a história da descoberta da Titanoboa e inclui vários links para material multimídia sobre a cobra: http://goo.gl/ZiDTGd

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