Tamiflu, células STAP e outras coisas que (aparentemente) não funcionam na ciência

Tamiflu, células STAP e outras coisas que (aparentemente) não funcionam na ciência

Herton Escobar

11 Abril 2014 | 15h09

 Casos do remédio da Roche e das células-tronco do centro Riken, no Japão, são emblemáticos de vários problemas que afligem a ciência e a indústria farmacêutica atualmente

FOTO: Cápsulas de Tamiflu, produzidas pela Roche. Crédito: Reuters/Adrees Latif

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

*Post atualizado em 22/04

Lembra do Tamiflu, aquele remédio que seria a última salvação da espécie humana contra a epidemia de gripe suína que assustou o mundo em 2009? Pois então; um relatório divulgado ontem pelo British Medical Journal e pelo Centro Cochrane de investigação científica confirma o que muita gente já suspeitava desde então (mas não impediu que vários países gastassem bilhões de dólares comprando estoques do medicamento): a droga não funciona. Não da maneira como se fez pensar que ela funcionaria, pelo menos.

A fabricante Roche teria se esforçado ao máximo para manter as informações sob sigilo (segundo relata esse artigo de Bem Goldacre no jornal The Guardian: O que a saga do Tamiflu nos diz sobre testes de drogas e a indústria farmacêutica), mas o Centro Cochrane fez uma análise detalhada das evidências científicas relacionadas à eficácia do Tamiflu e concluiu que elas não eram muito convincentes. Apesar de ser capaz de amenizar sintomas da gripe quando tomado de forma preventiva, “não há provas de que o Tamiflu seja capaz de prevenir a contaminação pelo vírus da influenza ou evitar que ele seja transmitido para outras pessoas”, segundo o relatório divulgado pelo centro. Ou seja: o Tamiflu seria inútil no caso de uma pandemia de gripe. Não só isso, mas ele traz um risco elevado de efeitos colaterais como dores de cabeça, distúrbios psiquiátricos, complicações renais, náuseas e vômito.

É um caso que choca pela sua magnitude, mas que está longe de ser um caso isolado. Empresas farmacêuticas são notórias por ocultar ou ignorar informações que não fazem bem aos seus produtos, como aparentemente fizeram neste caso e outros do passado (como o do Vioxx). E os cientistas acadêmicos não são muito diferentes: assim como na indústria, tem muita coisa boa e muita coisa ruim sendo feita nas universidades e outros centros de pesquisa por aí. Não é incomum pesquisadores, muitas vezes pressionados pela obrigação de produzir resultados de grande impacto num prazo muito pequeno, darem um “jeitinho” de fazer seus experimentos funcionarem, ocultando deslizes, descartando resultados negativos, deixando de fazer os controles de qualidade necessários, usando menos amostras do que deveriam, arredondando estatísticas, ignorando hipóteses alternativas e coisas desse tipo.

Não é à toa que um dos principais problemas enfrentados hoje na biomedicina para o desenvolvimento de novas terapias é a irreplicabilidade de grande parte dos resultados que são publicados na literatura científica acadêmica, como já abordei num post anterior. Veja: Replicabilidade ameaçada / Receitas da ciência não estão funcionando e Lidando com a irreplicabilidade, um artigo publicado recentemente sobre o mesmo assunto no site da revista The Scientist.

Assim como não é à toa que um dos principais problemas enfrentados pela ciência como um todo hoje é o aumento do número de casos confirmados de fraudes, manipulações e outras práticas antiéticas em pesquisa científica. Só para citar o mais recente deles: um estudo publicado em 2011 por pesquisadores da Universidade Columbia na revista Cell, sobre a transformação de células da pele de pacientes com Alzheimer em neurônios funcionais in vitro, acaba de ser retratado (anulado)  pela revista, depois que um dos autores admitiu ter manipulado parte dos dados que serviram de base para o trabalho. O caso foi noticiado pelo site Retraction Watch, e a nota oficial de retratação da Cell pode ser lida aqui: http://migre.me/iKbtm.

Outro caso emblemático de “má ciência” que ganhou notoriedade recentemente é o das células-tronco STAP, que até hoje ninguém sabe se existem de verdade. A autora principal do trabalho, Haruko Obokata, garante que sim, mas não forneceu as evidências necessárias para comprovar isso; e nenhum outro cientista, até agora, conseguiu replicar os resultados com base na receita oficial que ela publicou na revista Nature em janeiro. O centro de pesquisas Riken, no qual ela trabalha, fez uma investigação do caso e não poupou críticas a Haruko, pelo seu “desleixo” na condução dos experimentos, nem aos seus co-autores, pela falta de rigor na checagem dos dados apresentados pela pesquisadora. Pode ser que os resultados tenham sido forjados; ou pode ser que eles tenham sido mal interpretados; ou pode ser que eles sejam verdadeiros, mas nunca saberemos como Haruko chegou até eles (talvez nem ela mesma saiba). Para mais informações, veja os posts anteriores sobre o assunto no blog: http://migre.me/iJzwm

Mesmo que as células STAP existam, trata-se de um caso emblemático de muita coisa que está errada na ciência atualmente, desde a maneira como o estudo foi conduzido até a forma que ele foi publicado. Casos como esse certamente são muito mais comuns do que gostaríamos de imaginar. A diferença é que a grande maioria desses trabalhos mal feitos ou manipulados que povoam a literatura são estudos de pouca importância e/ou publicados em revistas de menor impacto, de modo que ninguém está muito preocupado em checar se eles são mesmo verdadeiros ou não. Se alguém tenta reproduzir os resultados e não consegue, paciência, fica por isso mesmo. Quem se importa? Os pesquisadores já anotaram uma publicação a mais no seu currículo, e para muitos deles é isso que conta.

Felizmente, ao mesmo tempo que casos de grande repercussão como esses revelam um lado feio da ciência, eles são a prova de que a mentira científica tem pernas curtas. Às vezes demora um pouco, como no caso do Tamiflu; às vezes é bem rapidinho, como no caso das células STAP; mas é fato que mais cedo ou mais tarde, a própria ciência se encarrega de separar o joio do trigo. E o joio que não é separado, normalmente, é insignificante demais para ser notado.

Outro lado. A empresa Roche informou que “discorda fundamentalmente” das conclusões do Centro Cochrane, segundo esta reportagem da agência de notícias Reuters: http://migre.me/iJELo. “Nós defendemos firmemente a qualidade e a integridade dos nossos dados … e as evidências subsequentes do mundo real, demonstrando que o Tamiflu é um medicamento eficiente para o tratamento e prevenção da influenza”, diz uma nota divulgada pela empresa. Este site tem uma lista de perguntas e respostas da Roche sobre o assunto: http://migre.me/iKbQp

Agências de saúde pública, incluindo a Organização Mundial da Saúde e o Centro para Prevenção e Controle de Doenças dos EUA continuam a recomendar o Tamiflu para o tratamento de pacientes infectados por novas cepas de influenza, segundo informações da Associated Press.

Atualização (22/04): Vários especialistas ouvidos numa reportagem da revista Nature questionaram os resultados da investigação do Centro Cochrane e a maneira como eles foram divulgados para a opinião pública. Para mais informações, veja: http://www.nature.com/news/tamiflu-report-comes-under-fire-1.15091

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