TESOURO ALEMÃO, CONQUISTA AMERICANA

TESOURO ALEMÃO, CONQUISTA AMERICANA

Herton Escobar

20 Maio 2011 | 19h31

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Semana passada estive no Museu do Espaço e Foguetes dos EUA e fiquei impressionado. Eu já conhecia relativamente bem a história do programa Apollo e do desenvolvimento tecnológico por trás das “naves” (o Módulo de Serviço e Módulo Lunar) que levaram o homem à Lua em 1969. Mas não conhecia tão bem a história do desenvolvimento do foguete colossal que colocou essas naves no espaço para começo de conversa. O Saturn V ( ou “Saturno 5”), com 110 metros de altura, 10 metros de largura e 3 mil toneladas de peso, distribuídas em 3 estágios – cada um deles um foguete por conta própria, com características e finalidades individuais, um acoplado em cima do outro. Muito maior do que muitos prédios de São Paulo.

Por fora, o foguetão parece relativamente simples. Basicamente, um grande cilindro metálico com motores numa ponta e astronautas enlatados como sardinhas, na outra. Quando se conhece um pouco mais sobre as entranhas do foguete, sobre as forças gigantescas de propulsão necessárias para lança-lo ao espaço, e sobre os riscos igualmente gigantescos envolvidos na geração dessas forças no solo, porém, ganha-se um novo respeito por eles. O desafio é realmente gigantesco, tanto do ponto de vista da engenharia quanto da ciência e da tecnologia.

Tudo isso para botar dois seres-humanos na Lua e trazê-los de volta à Terra sãos e salvos, como diria então o falecido e icônico presidente JFK. Mais importante ainda: botar dois seres humanos americanos na Lua antes dos seres humanos soviéticos (que até então vinham dando um banho nos americanos na corrida espacial).

E o mais curioso dessa história toda (mais impressionante até do que o desafio tecnológico do Saturn V e de todo o programa Apollo) é que os americanos só venceram essa corrida no fim das contas graças a um engenheiro alemão que construiu o primeiro míssil balístico do mundo, chamado V2, que os nazistas lançaram contra os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Seu nome era Wernher von Braun, e sua foto sorridente está espalhada por todo o museu. Ele e sua equipe se renderam/foram capturados (uma mistura das duas coisas) pelos americanos no fim da guerra, depois que os Aliados finalmente renderam a Alemanha. Os soviéticos também estavam loucos atrás dele, mas acabaram tendo de se contentar com alguns outros engenheiros de menor escalão e menor brilhantismo. …. Antes de vencer a corrida espacial pela conquista da Lua, portanto, os americanos tiveram de vencer os soviéticos numa corrida pela “contratação” de von Braun. Caso contrário, a bandeira hasteada na superfície lunar hoje seria vermelha, com a foice e o martelo.

Isso é talvez a maior prova do valor do conhecimento e da tecnologia para o desenvolvimento e a soberania de um país. O maior tesouro alemão cobiçado pelos americanos e soviéticos no fim da Guerra não eram peças de ouro nem de prata … era a massa cinzenta do cérebro de um engenheiro. Imagine só!

Von Braun começou projetando foguetes para matar pessoas. Mas o que ele queria mesmo era colocar sere humanos no espaço. Vivos! E a tecnologia necessária para as duas coisas é basicamente a mesma. Você precisa lançar ao ar grandes quantidades de massa, a grandes velocidades, para percorrer grandes distâncias. Ou seja: você precisa de foguetes.  A única diferença, basicamente, é o que você coloca na ponta deles: explosivos ou astronautas.

Von Braun, felizmente, preferia astronautas. Ao fim da guerra, ele e sua equipe foram levados para os EUA e ganharam cidadania americana. Em meio à corrida espacial, foram parar em Huntsville, no norte do Alabama, que foi onde desenvolveram o Saturn V para o programa Apollo. E onde hoje está construído o Museu do Espaço e Foguetes, onde é possível ver um Saturn V de verdade, bem de pertinho, e aprender sobre sua história. Que foi o que eu fiz.

Na entrada do prédio onde está exposto o foguete há uma grande placa com a seguinte frase de von Braun: “Os foguetes libertarão o homem de suas últimas correntes, as correntes da gravidade que ainda o prendem a este planeta. Abrirão para ele as portas do paraíso.” (tradução livre minha do inglês)

Ele não estava falando só da boca para fora, numa jogada de marketing. De fato, graças a ele, o homem venceu a gravidade e escapuliu para o espaço. Uma longa jornada que nos levou, hoje, à  construção da Estação Espacial Internacional (ISS), que muita gente acha ser um desperdício de dinheiro, e com o programa dos ônibus espaciais da Nasa, que estão prestes a serem aposentados, por serem caros demais e perigosos demais. O Endeavour está lá em cima agora, orbitando sobre nossas cabeças, e o Atlantis deve ir para a torre de lançamento no fim do mês, para o voo final de todos.

E quem é que vai assumir a responsabilidade de levar e trazer astronautas da ISS depois disso? Os russos! Imagine só!

Não estou de maneira alguma debochando do programa espacial americano. É apenas uma ironia do destino. Mas que nos faz perguntar: Vencemos a gravidade e chegamos ao espaço. Mas será que abrimos as portas do paraíso, como gostaria von Braun? Colocar seres humanos no espaço é uma das conquistas mais incríveis do próprio ser humano. Mas também uma das mais custosas e perigosas empreitadas já empreendidas pelo homem. Aprendemos muito com a exploração humana do espaço. Mas poderíamos certamente ter aprendido tanto quanto, ou até mais, por menos dinheiro, com robôs, sondas e outras missões não tripuladas, como as que são lançadas hoje a lugares muito mais distantes do que a Lua. Será que vale a pena continuar mandando gente lá para cima? Ou deixamos toda a glória para os robôs?

Abraços a todos.

LEGENDAS: Acima, o terceiro estágio do Saturn V, que tinha penas um motor, modelo J-2. E abaixo, um dos motores modelo F-1 do primeiro estágio (que tinha 5 no total), expostos no museu do Alabama (comigo na frente, para dar uma ideia de escala). FOTO: Herton Escobar/AE

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