Teste com exoesqueleto da Copa foi um sucesso, diz Nicolelis

Teste com exoesqueleto da Copa foi um sucesso, diz Nicolelis

Herton Escobar

01 Maio 2014 | 08h00

Anúncio foi feito via Facebook e Twitter; outros pesquisadores aguardam pelas evidências científicas que poderão comprovar o feito

FOTO: Imagem do exoesqueleto divulgada por Nicolelis no Facebook. Crédito: Reprodução

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

O neurocientista Miguel Nicolelis anunciou em sua página no Facebook esta semana que os primeiros testes com um paciente usando a veste robótica que ele planeja apresentar na abertura da Copa do Mundo foram um sucesso.

“Precisamente as 12:21 do dia 29/04/2014, o BRA-Santos Dumont 1 deu os seus primeiros passos e chute controlados pela atividade cerebral de um paciente do projeto Andar de Novo que também experimentou a sensação tátil desses movimentos do exoesqueleto”, escreveu Nicolelis na rede social.

BRA-Santos Dumont 1 é o nome que o cientista brasileiro deu à veste robótica (exoesqueleto) desenvolvida pelo projeto Andar de Novo, com a qual um brasileiro paraplégico deverá caminhar no gramado da Arena Corinthians e dar o chute inaugural da Copa do Mundo, no dia 12 de junho.

Segundo Nicolelis, os movimentos do exoesqueleto serão controlados pelo cérebro da pessoa, por meio de uma tecnologia de interface cérebro-máquina (ICM), em que a atividade elétrica do cérebro é captada por um touca cheia de eletrodos e enviada para um computador acoplado ao robô, que controla os movimentos do exoesqueleto. Além disso, a sola dos “pés” do robô é equipada com sensores, que enviam sinais elétricos de volta para o corpo da pessoa quando tocam o solo, simulando a sensação de impacto ao caminhar – um retorno chamado de “feedback tátil”.

Nenhum vídeo do experimento foi imediatamente divulgado. A única evidência fornecida pelo cientista no Facebook foi uma foto do robô de costas, rodeado de pessoas e preso por cordas a uma estrutura metálica de sustentação.

O Estado procurou a assessoria de imprensa de Nicolelis para saber se essa estrutura de apoio seria usada também na demonstração da Copa, ou se o robô até lá será capaz de caminhar de forma autônoma, sustentando o próprio peso e o da pessoa que o estiver vestindo. A assessoria disse que não seria possível responder às perguntas naquele momento.

Em um vídeo publicado terça-feira no Portal da Copa, Nicolelis diz que o exoesqueleto deverá pesar entre 60 kg e 70 kg, mas que a pessoa “não sentirá o peso” do robô: http://migre.me/j0JwT

Em outro post de sua página no Facebook, Nicolelis disse que outros três pacientes já haviam caminhado e dado chutes com o exoesqueleto no dia anterior (segunda-feira, 28). “Três pioneiros brasileiros que emocionaram a todos nós com a sua coragem e determinação”, escreveu o cientista. “Cada paciente caminhou um total de 18 passos e chutou uma bola 3 vezes” acrescentou ele, em sua conta no Twitter.

Parceria. Os testes estão sendo realizados em parceria com a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), em um laboratório montado por Nicolelis dentro de um prédio da instituição no bairro do Ibirapuera, em São Paulo. Procurada pela reportagem para comentários, a AACD não quis se pronunciar. Até a localização do laboratório é tratada como informação sigilosa.

Segundo informações divulgadas anteriormente, oito pacientes da associação foram selecionados para participar dos testes, mas apenas um será escolhido para fazer a demonstração na Copa. O exoesqueleto foi desenvolvido e construído fora do País, e trazido para São Paulo em março para ser testado nos voluntários da AACD. O projeto é patrocinado pelo governo federal, que deu R$ 33 milhões para viabilizar a demonstração na abertura do Mundial, transferidos via Finep para uma organização social presidida por Nicolelis (a AASDAP).

Muito adepto das redes sociais, Nicolelis tem divulgado informações sobre o projeto quase que diariamente via Facebook e Twitter. Nas últimas semanas, ele já havia postado algumas fotos e vídeos do exoesqueleto funcionando sozinho, sem estar acoplado a uma pessoa – e sempre suspenso por cabos.

O vídeo de maior repercussão, postado no dia 25 de março, mostra as pernas de uma pessoa presas a um aparato robótico, caminhando sobre uma esteira. “O videoclipe abaixo mostra um dos momentos históricos em que um desses pacientes usou a sua atividade cerebral pela primeira vez para controlar os movimentos de um andador robótico que simula o funcionamento do nosso exoesqueleto. O princípio está provado! Mais uma etapa vencida!”, comemorou Nicolelis.

Muitos leitores, aparentemente, interpretaram que aquilo já era uma demonstração do exoesqueleto colocando uma pessoa paraplégica para andar, mas trata-se de um aparelho de fisioterapia chamado Lokomat, usado rotineiramente na reabilitação de pessoas com lesões motoras nos membros inferiores. Há vários vídeos com demonstrações do aparelho no YouTube: http://migre.me/j0JQD

Dúvidas. Nos bastidores da comunidade científica brasileira e internacional, muitos questionam qual será a grande inovação apresentada por Nicolelis e quanto dos movimentos do exoesqueleto serão, de fato, controlados diretamente pelo cérebro da pessoa versus pelo próprio robô. Mesmo que vídeos dos testes relatados no Facebook sejam eventualmente divulgados (o que deverá acontecer), do ponto de vista científico, o grau e a eficácia do comando cerebral só poderão ser comprovados por meio de uma publicação em revista científica especializada, com revisão por pares, descrevendo a técnica e apresentando os dados transmitidos entre o cérebro do usuário e o robô.

“O que aconteceria se uma rajada de vento movesse a bola três centímetros para a direita segundos antes da demonstração começar?”, questiona Andrew Schwartz, pesquisador da Universidade de Pittsburgh, em uma reportagem publicada recentemente no site da revista MIT Technology Review, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Schwartz é um dos cientistas de destaque, e concorrente direto de Nicolelis, na área de interface cérebro-máquina. “Tudo que você vai ver será uma bela demonstração de robótica, não de controle cerebral, e tudo provavelmente estará pré-programado (no exoesqueleto)”, disse Schwartz à revista.

Respondendo a um seguidor no Twitter, Nicolelis disse que aqueles que o criticam na reportagem não representam a “comunidade científica”, mas apenas alguns “competidores injuriados que não conseguem julgar o trabalho dos outros de forma objetiva”.

Vários outros grupos, incluindo laboratórios acadêmicos e privados, estão desenvolvendo exoesqueletos para devolver a capacidade de locomoção a paraplégicos e outras vítimas de lesões medulares. Alguns, usando técnicas de interface cérebro-máquina, como o de Nicolelis; outros não, como este da empresa Ekso Bionics, da Califórnia, por exemplo: http://migre.me/j0L4X

Para ler notícias anteriores sobre o cientista Miguel Nicolelis no blog, clique aqui: http://migre.me/j0Krh

*Post atualizado às 16h30 do dia 5 de maio.

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