ISOLADOS DE NÓS

ISOLADOS DE NÓS

Herton Escobar

24 Janeiro 2010 | 17h15


FOTO: Gleison Miranda, Funai/AE

Dois colegas meus do Estadão estão vivendo uma aventura jornalística/antropológica incrível nesse momento. Há quase dois meses eles estão embrenhados na floresta amazônica com uma equipe da Funai, acompanhando uma expedição que busca vestígios de índios isolados (nunca contactados oficialmente pelo “homem branco”).

O objetivo não é fazer contato com os índios. Pelo contrário. É garantir que eles permaneçam isolados e, dessa forma, protegidos. O contato poderia ser uma sentença de morte para esses índios, que muito provavelmente nunca tiveram um resfriado na vida. Os vírus e bactérias que carregamos no nosso organismo podem ser letais para quem não está acostumado a eles. (No passado, quando as Américas estavam sendo “colonizadas” pelos europeus, doenças mataram muito mais do armas de fogo, espadas ou lanças)

É provável que esses índios também nunca viram uma arma de fogo, a não ser que tenham cruzado com algum garimpeiro ou traficante de drogas perdido na selva por aí. Na verdade, é provável que nunca viram uma peça de metal. Não sabem o que é o ferro nem o aço.

Vamos assumir que esses índios são realmente isolados. Ou seja, nunca tiveram contato com alguém que não seja índio.

Então imagine só: enquanto nós ouvimos música nos nossos iPods, lemos notícias na internet, falamos pelo celular e escrevemos no computador, há pessoas vivendo no meio da floresta que nunca viram um carro, uma televisão, um telefone, uma lâmpada, uma caneta ou uma folha de papel. Nada. Só conhecem aquilo que é fornecido pela natureza. Madeira, folhas, fibras, sementes, seivas e macacos.

Concordo que esses índios não devem ser contactados, para a própria segurança deles. Ao mesmo tempo, porém, daria qualquer coisa para poder entrar numa aldeia dessas e conversar com eles de alguma forma. Imagine só: como será que eles enxergam o mundo? Será que sabem que a Terra é redonda? Ou melhor … sabem que a Terra existe? Sabem o que é um planeta? Sabem o que são aqueles pontos luminosos que brilham no céu da noite? Será que têm algum tipo de religião? Algum tipo de deus ou deuses? Como são seus rituais?

Vejam essa foto acima, por exemplo, de uma aldeia de índios isolados no Acre, perto da fronteira com o Peru, feita por uma equipe da Funai em 2008. Um dos índios está pintado de negro, e outros parecem ter uma tintura vermelha sobre a pele. O que isso significa? Será que a pessoa pintada de preto é algum tipo de xamã? Repare como eles apontam seus arcos e flechas para o avião da Funai. Qual seria sua reação se nunca tivesse visto um avião na vida? O que será que eles acharam que era aquilo? Um pássaro gigante?

Outras perguntas: O que esse índios comem? Têm algum tipo de agricultura? Que tipo de doenças têm? E como cuidam dessas doenças? O que sabem do mundo “exterior”? Sabem que o mundo inteiro não é uma floresta? Que há regiões do planeta que são cobertas de gelo e de areia? E outras que são cobertas de asfalto e concreto? Como reagiriam a ver uma imagem de São Paulo ou de Nova York? Ao saber das guerras mundiais? E que o homem já pisou na Lua?

Enfim … é uma lista de perguntas sem fim. E essa é uma entrevista que eu provavelmente nunca terei a chance de fazer. Infelizmente (ou felizmente, não tenho certeza). Nem os meus colegas. O objetivo da expedição que eles estão acompanhando é encontrar vestígios suficientes dos isolados para justificar a demarcação de reservas capazes de protegê-los e mantê-los isolados. Seria muito interessante poder fazer contato com os índios, mas como estudar sua cultura sem destruí-la? Certas coisas, é melhor não saber….

Abraços a todos

Ah, para mais informações sobre a Expedição Etnoambiental do Vale do Javari, clique aqui: Na Trilha dos Isolados