DIVERSIDADE PRA CACHORRO

DIVERSIDADE PRA CACHORRO

Herton Escobar

31 Agosto 2009 | 15h09

Imagine só: Todos os cachorros do mundo, do minúsculo chihuahua ao gigantesco dog alemão, são variações domesticadas de uma mesma espécie de lobo, chamada Canis lupus. Ou seja: são apenas RAÇAS diferentes, originadas de um mesmo ancestral, e não ESPÉCIES diferentes, com ancestrais distintos.

Por que estou dizendo isso? Não é apenas uma questão de semântica. Por trás dessa afirmação há questões científicas de grande importância sobre a evolução dos seres vivos e sobre a maneira como os classificamos.

Afinal de contas, pense bem: Como é que dois bichos tão diferentes quanto um chihuahua e um dog alemão podem ser a mesma espécie???

Comecei a pensar sobre isso no fim de semana, depois de ler um estudo na revista Science em que os autores compararam o DNA de mais de mil cachorros, de 80 raças diferentes, e concluíram que todas as variações de pelagem canina estão calçadas geneticamente em apenas três genes. São pequenas variações na sequência e na combinação desses genes que determinam se o cachorro terá pelo longo ou pelo curto, pelo liso ou pelo enrolado, pelo grosso ou pelo fino, e assim por diante.

É mais um exemplo da versatilidade do genoma, de como pequenas variações genotípicas (no DNA) podem levar a enormes variações fenotípicas (na “aparência”).

Isso me fez lembrar de um outro estudo, ainda mais interessante, publicado alguns anos atrás na mesma Science, em que os autores estabeleceram a ancestralidade comum de todos os cachorros. Eles compararam o genoma de várias espécies…. oops, quero dizer, raças! …. de cães da Ásia, Europa, África e das Américas e chegaram à conclusão de que todas elas descendem de um ancestral comum: uma população de lobos que foi domesticada na Eurásia, cerca de 15.000 anos atrás. (mais especificamente, de cinco fêmeas dessa população, com base nas evidências de DNA mitocondrial)

Desde então, o homem vem selecionando diferentes raças desse lobo para diferentes funções. Inicialmente, é claro, a seleção tinha objetivos mais práticos. Os caçadores selecionavam os animais que tinham melhor aptidão para caçar. Os pastores selecionavam aqueles que sabiam cuidar melhor de suas ovelhas (sem devorá-las).

Mais recentemente, começamos a selecionar cachorros que se adaptam melhor a apartamentos, que cabem dentro de bolsas para levar ao shopping ou que têm um pêlo mais liso ou mais sedoso, por razões puramente estéticas. Nós escolhemos nossos cães visualmente, com base no fenótipo, mas o que estamos selecionando mesmo, no fundo no fundo, é o genótipo – uma combinação específica de genes que determina a aparência e o comportamento padrão de cada raça.

Eu sei que parece loucura…. eu mesmo já olhei várias vezes para o bichon frisé da minha sogra e me questionei: “Não é possível que esse chumaço de algodão ambulante veio de um lobo!” Mas veio. O bichon frisé, o doberman, o pit bull, o labrador, o dálmata…. são todos variações de um mesmo tema, selecionados pelos nossos antepassados e modificados pelo ambiente ao longos dos últimos 15 mil anos. As informações genéticas estão aí para comprovar.

O que nos leva, finalmente, à minha observação final sobre o caso: O que é uma espécie? Onde termina uma e começa outra?

Essa é uma das perguntas mais básicas, mais difíceis e mais controversas da biologia. O limite padrão é baseado na reprodução. Duas raças só se tornam espécies diferentes quando se tornam tão distintas geneticamente uma da outra que não conseguem mais produzir descendentes viáveis.

Por isso é possível ter dois animais tão distintos fenotipicamente como um chihuahua e um dog alemão e, ainda assim, classificá-los genotipicamente na mesma espécie. Porque se você cruzar os dois, nasce um cachorrinho fértil, capaz de produzir mais cachorrinhos (apesar de que, nesse caso, seria necessário fazer uma fertilização in vitro, por questões “logísticas”). Vira-latas não faltam no mundo para confirmar isso.

Agora vou parar por aqui, porque esse post já ficou comprido demais uns dez parágrafos atrás…..

Mas não sem antes deixar uma pergunta no ar para os biólogos que eventualmente passarem por aqui: Se o chihuahua e o dog alemão são a mesma espécie, será que não há um monte de bichos por aí classificados como espécies diferentes (com base em diferenças fenotípicas), mas que, na verdade, são também a mesma espécie?

Foto de um Canis lupus, da Wikipedia