TRAGÉDIA CIENTÍFICA

TRAGÉDIA CIENTÍFICA

Herton Escobar

19 Maio 2010 | 09h07

cobra queimada

A maioria das pessoas não gosta de cobras e aranhas. Na verdade, detesta. Basta ver uma na frente que logo quer matar a pauladas, pisar em cima ou sair correndo.

Por isso, quando cheguei ao Instituto Butantan na manhã de sábado para cobrir o incêndio que destruiu a coleção biológica de lá, minha primeira preocupação foi: Como vou explicar para as pessoas a importância disso? Quem é que vai se importar que 85 mil cobras e 450 mil aranhas e escorpiões “morreram” queimados? (na verdade eles já estavam todos mortos há muito tempo, fixados em formol e preservados em álcool, alguns deles há mais de cem anos, o que foi outra dificuldade de explicar….)

Felizmente, eu estava errado. Me surpreendi de maneira muito positiva com a indignação e a tristeza das pessoas diante dessa tragédia. Mesmo não entendendo muito bem porque, todos perceberam que aquela coleção era algo importante, histórico e insubstituível. Uma perda irreparável para a ciência e para a história do Brasil.

Aproveito a oportunidade para reproduzir um texto que publiquei na edição de segunda-feira do Estadão sobre isso. Como muitos dos leitores desse blog não são de São Paulo ou não recebem o jornal impresso em casa, acho que é válido.

Abraços a todos.

Prejuízo para a ciência mundial é incalculável

O real prejuízo causado pelo incêndio no Instituto Butantã não pode ser calculado em números. O acervo de cobras e aracnídeos que foi queimado não tinha valor financeiro. As milhares de obras de arte da natureza guardadas ali, ironicamente, não arrecadariam nem um décimo do que arrecada em leilão um único quadro ou outra obra de arte produzida pelo homem. Seu verdadeiro valor estava no conhecimento científico, produzido pelo esforço de milhares de cientistas que desbravaram selvas, pântanos, ilhas e montanhas para coletar e estudar todos esses animais nos últimos 120 anos.

“Milhares de trabalhos científicos foram publicados com base nesse acervo. Outros milhares, que poderiam ser publicados, não serão mais”, resumiu o zoólogo Francisco Luis Franco, que há dez anos faz (ou melhor, fazia) a curadoria da coleção.

O acervo, agora, terá de ser recomeçado do zero. E não será uma réplica do antigo, mas algo totalmente novo. Pois o valor científico da coleção estava justamente na sua diversidade e representatividade, tanto do ponto de vista temporal quanto geográfico.

As primeiras cobras coletadas por Vital Brazil, por exemplo, nunca poderão ser repostas. Mesmo que haja muitas outras da mesma espécie por aí, elas não têm o valor científico das originais. Porque não estão inseridas num contexto histórico. É como se alguém botasse fogo na Mona Lisa, dizem os pesquisadores: você pode ter milhões de cópias delas por aí – em pôsteres, camisetas, canecas e telas de computador –, mas a original é a original. Insubstituível.

Cada um dos mais de 500 mil animais depositados no acervo tinha um registro de coleta associado a ele, indicando onde, quando e em que condições foi capturado. É essa referência histórica que é tão importante para a ciência, pois serve como um registro da ocorrência de uma determinada espécie num determinado local, num determinado momento e em determinadas condições. Essas informações podem ser – e são – usadas para uma série de estudos acadêmicos e práticos, como o monitoramento de espécies ameaçadas e a identificação de áreas prioritárias para conservação.

Ou, simplesmente, para a identificação de espécies – a função primordial de uma coleção. Centenas dos animais queimados no incêndio eram “holótipos”, os exemplares originais que servem como referência para a descrição de uma espécie. Qualquer cientista no mundo que queira identificar uma espécie na natureza precisa compará-la ao seu holótipo. Ou seja: precisa consultar uma coleção.

“Essa coleção era incontornável. Não tinha como fazer nada com cobras no Brasil sem passar por ela”, diz o herpetólogo Hussam Zaher, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Muitos dos holótipos das espécies brasileiras de cobra, segundo ele, estavam guardadas ali. Um prejuízo incalculável não só para o conhecimento da biodiversidade brasileira, mas para a ciência mundial. Todo cientista no mundo que trabalha com cobras da região tropical utilizava esse acervo do Butantã para suas pesquisas.

“Nunca mais vamos ver essas cobras”, resumiu Franco, no dia do incêndio. O mesmo vale para a coleção de aranhas e escorpiões, que possivelmente continha milhares de espécies ainda não descritas. Máquinas podem ser recuperadas ou substituídas. Esses animais, não.

Fim da história.