Transgênico vs. Convencional: uma briga entre irmãos

Transgênico vs. Convencional: uma briga entre irmãos

Herton Escobar

18 Fevereiro 2014 | 18h28

FOTO: Colheita de soja no Tocantins. Crédito: Celso Junior/Estadão

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Os números mais recentes sobre transgênicos, divulgados na semana passada pelo Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), mostram que a área plantada com variedades geneticamente modificadas (GM) em 2013 aumentou 3% no mundo e 10%, no Brasil, em relação a 2012. (Reportagem completa: http://migre.me/hWZM7)

Nos campos de soja e milho, os transgênicos já são maioria absoluta, ocupando 92% e 90% da área plantada com essas culturas no Brasil atualmente; e próximo de 100% também na Argentina e nos EUA. O que me levou a ponderar se ainda faz sentido falar em “soja transgênica” versus “soja convencional” … Afinal, como chamar de “convencional” um produto que só representa 8% do mercado? Se a soja transgênica é hoje, de longe, a mais usada nos campos mundo afora, não faria mais sentido inverter os rótulos e passar a chamar a soja transgênica de “convencional” e a convencional simplesmente de “não transgênica”?

Não é uma ideia absurda, se levarmos em conta que a soja e o milho que hoje chamamos de “convencionais” já são, na verdade, plantas totalmente modificadas (inclusive geneticamente) de seu estado original. Aquela soja de vagens gordas e fartas que se planta hoje no calor escaldante de Mato Grosso não tem nada a ver com a soja “selvagem” que foi originalmente domesticada no frio da China alguns milhares de anos atrás. Assim como aquele sabugo gigante de milho amarelo que você come cozido na praia hoje não guarda praticamente nenhuma semelhança com o milho selvagem originalmente domesticado no México (teosinto), uma gramínea com cara de capim que nenhum de nós hoje reconheceria como algo comestível.

Essas plantas, como as conhecemos hoje, não existem na natureza; elas existem apenas nas plantações humanas. Elas são invenções da agricultura, geneticamente e morfologicamente modificadas de suas formas ancestrais selvagens; tanto quanto um poodle de apartamento hoje é diferente de um lobo selvagem (a forma ancestral de todos os cachorros).

Curiosamente, enquanto eu escrevia esse post, apareceu no Facebook uma imagem que ilustra perfeitamente esse conceito, postada pela blogueira da página “I fucking love science” (que tem nada menos do que 10 milhões de fãs). Veja abaixo: teosinto vs. milho “convencional” (geneticamente modificado). Imagine só!

FOTO: “Guia visual para identificar milho geneticamente modificado (GM, em inglês)”: o da esquerda é o milho selvagem do México (teosinto); o da direita é o milho que você compra hoje no supermercado (que pode ou não ser “transgênico”; não importa, porque a aparência é exatamente a mesma).

Mais notícias sobre transgênicos no blog: http://migre.me/hX0fL

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