Transgênicos: reportagem do ‘New York Times’ narra a epopeia de um leigo em busca dos fatos

Transgênicos: reportagem do ‘New York Times’ narra a epopeia de um leigo em busca dos fatos

Herton Escobar

06 Janeiro 2014 | 18h48

FOTO: Mamão transgênico produzido no Havaí, resistente a uma doença causada por vírus. CRÉDITO: Jim Wilson/The New York Times

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Poucos temas suscitam debates mais acalorados, apaixonados e impregnados de desinformação entre o grande público do que os transgênicos. Trata-se de um debate essencialmente científico, mas no qual os cientistas raramente saem ganhando. Não porque lhes faltam argumentos convincentes, mas porque seus argumentos são longos e complexos demais para a compreensão da maioria das pessoas.

Para condenar os transgênicos, basta desenhar um milho com cara de demônio, dizer que as grandes empresas são do mal, invocar o sagrado “princípio da precaução” e mencionar a palavra “câncer” em uma frase qualquer no meio da conversa. Para defendê-los, é preciso dar uma aula de biologia (para explicar, antes de tudo, o que é um transgênico e como essa tecnologia funciona; o que é DNA, o que são proteínas), outra de fisiologia animal e vegetal (para explicar como o DNA e as proteínas são digeridas no organismo), e mais uma de ecologia (para entender sobre interações entre espécies, cadeias alimentares, dispersão de pólen, cruzamentos), pelo menos. Depois de tudo isso, cabe uma aula de economia agrícola (para falar sobre mercados, patentes, custos de produção, insumos) — que é, na verdade, onde reside a grande bronca das pessoas com os transgênicos, mas que, na verdade, não tem nada a ver com ciência nem com segurança. Se faz mal ou não é uma coisa; se dá lucro ou não e para quem, é outra. Milho é uma coisa, feijão é outra. Monsanto é uma coisa, Embrapa é outra. E assim vai …

O problema é que nada disso cabe num único cartaz. Mas o desenho de um milho com cara de diabo, cabe.

Outra diferença é que os cientistas não sabem fazer piquetes, distribuir panfletos ou pressionar parlamentares; nem costumam se acorrentar a portões, lançar balões ou escalar monumentos públicos para pendurar faixas gigantes com frases de efeito em defesa da ciência. São um fracasso total em termos de relações públicas; enquanto que as organizações que criticam os transgênicos são mestres nessa arte.

Dito isso, vale muito a pena ler uma reportagem do jornal The New York Times, publicada no dia 4, sobre a recente votação de uma lei que baniu o plantio de transgênicos no Havaí — incluindo o de um mamão papaia resistente a vírus, essencial para a produção local da fruta. É uma reportagem longa, que conta a história da votação pelos olhos de um membro do Conselho do Condado do Havaí, que não sabia nada sobre transgenia e resolveu se informar melhor sobre o assunto antes de decidir seu voto. Não imaginava o matagal em que estava se metendo! Acabou votando contra o banimento, mas foi voto vencido.

O relato, infelizmente, é longo demais para ser resumido num cartaz ou mesmo neste blog (por isso a reportagem do NYT é tão longa), mas fica aqui a dica para aqueles que se interessarem pelo assunto: A lonely quest for facts on genetically modified crops (Uma busca solitária por fatos sobre plantas geneticamente modificadas), da jornalista Amy Harmon, vencedora de dois prêmios Pulitzer, o “Oscar do jornalismo”.

Destaco aqui apenas uma frase da reportagem, que talvez resuma melhor do que todas a dificuldade enfrentada pelo tal conselheiro (e por jornalistas de ciência, que não votam, mas precisam escrever sobre o assunto): “It takes so much time to find out what’s true,” reclama ele, no início de sua epopeia.

Saber o que é verdade exige tempo, sem dúvida. Uma reflexão que vale não só para os transgênicos, mas para muitas outras coisas na vida, na ciência e fora dela.