Estudo polêmico sobre toxicidade de milho transgênico é retratado

Estudo polêmico sobre toxicidade de milho transgênico é retratado

Herton Escobar

03 Dezembro 2013 | 17h57

FOTO: Plantação de milho transgênico no Distrito Federal. Crédito: Celso Junior/Estadão (2009)

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Lembra dos alimentos transgênicos, aqueles que têm um ou outro gene modificado para torná-los resistentes ao ataque de pragas ou herbicidas no campo? Pois é … eles já são plantados em larga escala no Brasil e no mundo há mais de dez anos (ou quase 20, nos EUA), com todas as autorizações devidas e sem qualquer registro de efeitos nocivos ao meio ambiente ou à saúde humana.

Ainda assim, a transgenia pena para se livrar das polêmicas e das críticas que a perseguem desde os seus primórdios, cultivadas principalmente por organizações ambientalistas e de defesa da agricultura familiar e orgânica (inimigas das grandes empresas que dominam essa tecnologia).

Num dos casos mais recentes e mais polêmicos do ponto de vista científico, um

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  • estudo publicado na revista Food and Chemical Toxicology, da editora Elsevier, em setembro de 2012, causou revolta na comunidade científica ao concluir que ratos alimentados com uma variedade de milho transgênico da Monsanto desenvolviam mais problemas hepáticos, mais tumores, e morriam com mais frequência e mais jovens do que ratos alimentados com milho convencional. O trabalho, realizado por Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen   PDF
, na França, foi duramente contestado por vários pesquisadores, que questionaram a metodologia e a confiabilidade científica do estudo.

As reclamações deflagraram uma investigação pelo editor-chefe da revista, A. Wallace Hayes, que agora, um ano depois, resultou na retratação “forçada” do artigo — contra a vontade dos autores –, conforme noticiado na semana passada pelo site Retraction Watch.

A retratação trouxe alívio e redenção para a maioria que questionava a validade do estudo,  e repassou a revolta à minoria que o defendia. Segundo o Retraction Watch (citando informações do jornal francês Le Figaro), Hayes enviou uma carta a Séralini solicitando que ele retirasse o estudo voluntariamente; mas o autor não concordou e por isso o estudo foi retratado pela revista (o que significa, agora, que seus resultados deixam de ter validade científica).

Uma nota oficial de retratação publicada na semana passada pela Elsevier afirma que a investigação do editor-chefe “não encontrou evidências de fraude ou interpretação intencionalmente equivocada dos dados”, mas que havia “causas legítimas de preocupação” sobre a metodologia do estudo — em particular, com relação ao número e ao tipo (linhagem) de ratos usados nos experimentos. “Em última instância, o resultados apresentados são inconcludentes, ainda que não incorretos”, conclui a nota.

Segundo a revista, o número pequeno de ratos usados nas comparações (10 em cada grupo) não é suficiente para tirar conclusões sobre os resultados observados. Além disso, o tipo de rato usado no trabalho pertence a uma linhagem (chamada Sprague–Dawley) que é naturalmente suscetível a uma maior ocorrência de tumores, de modo que “variabilidade normal não pode ser excluída como causa da mortalidade e incidência elevada observada nos animais (alimentados com o milho transgênico)”, segundo a nota da Elsevier. Em outras palavras: não há como saber se o surgimento dos tumores estava relacionado ao milho transgênico ou a causas naturais.

O milho usado no estudo é uma variedade (evento) registrada como NK603, que possui uma modificação genética que a torna resistente ao glifosato, um herbicida de amplo espectro que é usado para limpar o campo de ervas daninhas. A vantagem para o produtor é a possibilidade de aplicar o glifosato sobre toda a lavoura, sem risco de danificar o milho — proporcionando, assim, um melhor controle, com economia de tempo e recursos. Há várias outras modalidades disponíveis no mercado, com resistência a outros herbicidas, inseticidas e pragas específicas de cada lavoura. Cerca de 35% do milho, 80% da soja, 80% do algodão e 30% da canola (sorgo) plantados no mundo já são transgênicos, segundo as estatísticas mais recentes do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações de Agrobiotecnologia (ISAAA).

Defesa.  Séralini  criticou duramente a decisão da revista, descrita por ele como “um grave ataque à credibilidade e à independência da ciência”. Em um longo artigo de resposta publicado em seu site, ele argumenta que a retratação viola as regras da própria revista (já que não foi detectada fraude nem dados incorretos no trabalho) e diz que a metodologia empregada no estudo está de acordo com a de outros trabalhos da área — inclusive os que teriam sido apresentados pela própria Monsanto nos processos de avaliação e liberação comercial do milho transgênico. “Resultados incômodos devem ser checados, não ignorados”, afirma o pesquisador. O Comitê de Pesquisas e Informações Independentes sobre Engenharia Genética (CRIIGEN), organização sem fins lucrativos da qual Séralini faz parte, ameaçou entrar com processos judiciais caso a retratação do trabalho não seja revertida.

Por fim, como é de praxe nesse debate, Séralini acusa os cientistas que o criticam de estarem comprometidos com interesses econômicos da “indústria dos transgênicos”. Sem reconhecer, porém, seu próprio viés anti-transgênicos, que torna o título de “cientista independente” questionável do ponto de vista ideológico.

Não é a primeira vez — e certamente não será a última — que um estudo mostrando efeitos tóxicos dos transgênicos é questionado. O caso mais famoso é o de um estudo publicado em 1999 na revista Nature, por pesquisadores da Universidade Cornell, propondo que o pólen de milho transgênico do tipo Bt era tóxico para as lagartas de borboletas-monarcas (e não só para as lagartas de mariposas que são pragas das lavouras). O estudo virou um símbolo da resistência ambiental aos transgênicos, e permanece válido (não foi retratado), porém é desconsiderado pela comunidade científica em geral, pelo fato de as lagartas usadas no experimento terem sido alimentadas com quantidades de pólen muito acima do que ocorre na natureza.