OS TRANSGÊNICOS NA SUA VIDA

OS TRANSGÊNICOS NA SUA VIDA

Herton Escobar

13 Fevereiro 2012 | 10h10

O Brasil já é o segundo país que mais planta transgênicos no mundo (30 milhões de hectares), atrás apenas dos Estados Unidos (69 milhões de hectares), de acordo com o último relatório do ISAAA, divulgado na semana passada.

É uma notícia que pode ser interpretada de diversas maneiras. Com orgulho e satisfação por um grande número de agricultores e cientistas que confiam na biotecnologia molecular como uma ferramenta importante para o aumento da produtividade e a redução dos impactos ambientais da agricultura. Com vergonha e descontentamento por um grande número de ambientalistas, que desconfiam dos transgênicos como algo nocivo ao meio ambiente e às práticas tradicionais da agricultura orgânica e familiar. Com dúvidas e suspeitas pela maioria dos consumidores, que de fato não entende o que é um alimento transgênico, mas, bombardeada com mensagens de terror ao longo dos anos, tende a ver a tecnologia como algo aparentemente perigoso. “Será que estou comendo transgênicos?” Pode ter certeza que sim. “Será que isso vai fazer mal à minha saúde ou ao meio ambiente?” Praticamente todas as evidências científicas indicam que não.

Há muitas razões ideológicas para ser contra os transgênicos. Do ponto de vista científico e econômico, porém, está cada vez mais difícil elaborar um argumento convincente contra eles.

Vamos a alguns fatos …

Os transgênicos atualmente no mercado são alimentos que foram geneticamente modificados para serem resistentes a pragas ou pesticidas específicos. Dito isso, atenção: praticamente tudo que você come é geneticamente modificado, no sentido de que são plantas e animais profundamente modificados de suas formas originais da natureza, ao longo de séculos (ou até milênios) de cruzamento e seleção. São “produtos” inventados pelo homem. Aquela espiga de milho amarelo e suculento que você compra no supermercado, por exemplo, não existe na natureza (o milho selvagem original é um capim que você jamais reconheceria como “milho”). O mesmo vale para o arroz, o feijão, a laranja, a uva, a vaca, a galinha, o porco, e assim por diante. Tudo profundamente modificado pelo homem desde a invenção da agricultura. A soja, por acaso, nem é nativa das Américas, muito menos do quente Cerrado brasileiro. É uma planta nativa de clima temperado na Ásia, trazida para cá, modificada, melhorada e adaptada ao longo de várias décadas de pesquisa pela Embrapa. Não existe soja “natural” no Brasil.

A diferença dos transgênicos atuais é que eles foram modificados com a inserção de genes extraídos de bactérias, e não de plantas (um cruzamento tecnológico que não ocorre normalmente na natureza). A soja RR, por exemplo, tem o gene de uma bactéria que a torna resistente ao herbicida glifosato. O gene “ordena” a síntese de uma proteína, que é sintetizada pelas células e circula pelo organismo da planta, “imunizando-a” contra os efeitos do herbicida. Assim, o glifosato pode ser aplicado sobre toda a lavoura, aniquilando as ervas daninhas, porém sem prejuízo para a soja. A ideia, com isso, é facilitar o manejo da plantação e reduzir a quantidade de pesticidas aplicados sobre a lavoura.

Já o algodão Bt tem o gene de uma bactéria que o torna resistente ao ataque de lagartas. O gene codifica uma proteína que é tóxica para o inseto, que morre ao se alimentar da planta.

Parece assustador, não é? Mas tanto os genes quanto as proteínas em questão são absolutamente inofensivas para os seres humanos. A bactéria Bt, por exemplo, é extremamente comum na natureza e você certamente já comeu milhões delas inteiras na sua vida sem qualquer problema. Tanto que ela é usada como pesticida natural em plantações orgânicas. A diferença no transgênico é que a planta produz a própria “vacina” internamente, em vez de a vacina ser aplicada sobre ela.

Estas e outras plantas transgênicas semelhantes já são plantadas e consumidas por seres humanos em larga escala há cerca de 15 anos, sem qualquer problema (de saúde ou ambiental), em vários países, com aprovação de todas as agências reguladoras necessárias.

Do ponto de vista da saúde humana, simplesmente não há lógica científica para preocupação. Do ponto de vista ambiental, os riscos (por exemplo, desenvolvimento de ervas daninhas ou insetos resistentes) não são exclusivos dos transgênicos – são riscos inerentes à agricultura, que sempre existiram, e que podem ser manejados sem maiores segredos.  Do ponto de vista econômico e comercial, basta dizer que os agricultores brasileiros, americanos, argentinos, etc, não são idiotas. Eles não estão plantando transgênicos por obrigação ou por falta de alternativa. Estão plantando porque querem.

O argumento das campanhas antitransgênicos sempre foi o de que “precisamos de mais testes para ter certeza”. Mas a verdadeira intenção sempre foi proibir os transgênicos e ponto final.

É normal novas tecnologias serem recebidas com receio pela sociedade, especialmente quando elas mexem com coisas “sagradas” como os alimentos ou a reprodução humana. Quando a fertilização in vitro foi inventada, muitos interpretaram isso como algo absurdo … até pecaminoso. Imagine só, produzir um embrião humano “de proveta”, fora do corpo da mulher! Hoje é a coisa mais normal do mundo, e milhões de famílias são gratas por isso.

Quando a engenharia genética começou a ser desenvolvida décadas atrás, também houve muita preocupação sobre seus potenciais riscos, inclusive dentro da comunidade científica. Hoje, microrganismos, plantas e animais transgênicos são usados rotineiramente em milhares de laboratórios e indústrias ao redor do mundo, com segurança, para uma série de aplicações práticas e de pesquisa. Por exemplo, a produção de insulina para diabéticos. Agora, imagine só, botar um gene de bactéria numa planta que a gente come … que absurdo! (como se as plantas não tivessem milhões de bactérias crescendo sobre elas de qualquer maneira, e a gente não tivesse bilhões de bactérias vivendo dentro de nós de qualquer maneira)

Na agricultura, a revolução é um pouco mais recente, mas parece estar caminhando para o mesmo destino. Para sair da categoria do “estranho” e entrar para o clube dos “normais”.

Abraços a todos.