TRANSPLANTE DE GENOMAS – BRINCANDO DE DEUS?

Herton Escobar

25 Agosto 2009 | 00h15

Aproveitando o gancho anterior sobre transplante de cérebros, há um outro tipo de transplante que parecia quase impossível até recentemente, mas que acaba de ser realizado pela segunda vez por pesquisadores americanos do J. Craig Venter Institute: um transplante de genomas.

Imagine só isso:
O genoma é o conjunto de informações genéticas que representa um indivíduo. Se você pegar uma célula qualquer do seu corpo, tirar todo o DNA que tem no núcleo dela e colocá-lo dentro de um tubinho, esse é o seu genoma. Depois é só botar numa máquina e soletrar. Nele estão inscritas todas as instruções necessárias para construir um indivíduo igual a você, como se fosse uma receita de bolo. Tanto que essa é a base da clonagem: você pega o genoma de um célula do bicho adulto, joga dentro de um óvulo sem núcleo, estimula esse óvulo a formar um embrião (sem fertilizá-lo), coloca esse embrião dentro de uma barriga de aluguel e voilá! – nasce um clone.

O que a turma do Craig Venter (aquele cara que competiu com o setor público para ser o primeiro a sequenciar o genoma humano, alguns anos atrás) fez foi tirar o genoma de uma bactéria e colocá-lo em outra, fazendo com que a segunda ficasse idêntica à primeira, apesar de serem originalmente de espécies diferentes. Tudo bem…. são apenas bactérias, mas pode confiar: não é nada trivial.

Além disso, fizeram o seguinte: entre uma coisa e outra, colocaram o genoma dentro de uma levedura (um fungo microscópico) e modificaram-no geneticamente, de forma que não fosse rejeitado pela bactéria receptora. Isso serve como prova de conceito para uma técnica que eles esperam, no futuro, utilizar para produzir linhagens de bactérias geneticamente modificadas para fins específicos, capazes de realizar tarefas interessantes como sugar carbono da atmosfera (para combater o aquecimento global), devorar petróleo (para remediar vazamentos ambientais) ou quebrar moléculas de celulose (visando à produção de etanol celulósico).

É mais um passo na direção do que o pessoal costuma chamar de “genoma sintético”. Ou seja, um genoma feito sob encomenda no laboratório – ou modificado de um organismo já existente ou, quem sabe, construído letra por letra desde o início, como uma receita inédita na natureza (uma ideia que assusta muita gente, por questões científicas, filosóficas e até religiosas…. como se o Craig Vente estivesse brincando de Deus e criando vida).

Talvez uma analogia interessante para entender o estudo seja essa: Imagine que o “corpo” da bactéria é um computador e o genoma é o software genético que determina como o computador funciona. A primeira bactéria era um Mac e a segunda, um PC. A levedura era um computador genérico qualquer, mais simples de se trabalhar com programação. O que os caras fizeram foi 1) colocar o software do Mac no computador genérico, 2) modificar a programação do software para que ele pudesse rodar em um PC, 3) inserir o software modificado no PC.

No final, funcionou tão bem que o PC até ficou branquinho e com uma maçã brilhante na testa.

O estudo saiu também na última edição da Science.