TRICÔ DE ARANHA

TRICÔ DE ARANHA

Herton Escobar

26 Janeiro 2012 | 15h27

FOTO: JOHN BROWN

Se você não leu essa notícia no dia 20, leia agora: Museu londrino expõe tecidos dourados feitos com teia de aranha / Uma elaborada capa bordada e uma echarpe de quatro metros de comprimento foram tecidas com a seda de mais de um milhão de aranhas de Madagascar.

Um dos maiores sustos que levei durante minha viagem de um ano pela Ásia foi no Sri Lanka, quando entrei de cara (literalmente!) na teia de uma aranha que era quase do tamanho da minha mão. A teia estava no meio de uma trilha de um parque de floresta na cidade de Kandy, bem na altura do rosto, mas era quase impossível vê-la contra o fundo verde da mata. Caí nela como uma mosca.

Felizmente, a aranha mesmo estava um pouco acima da minha cabeça, caso contrário, teria saído com ela bem na minha cara e o susto teria sido ainda maior. Não sei qual era  a espécie exata, mas era do gênero Nephila, de aranhas conhecidas como “orb weavers”, ou “tecedoras de órbitas” — nome que faz referência à arquitetura orbicular de suas teias. Seu veneno não é perigoso para o homem … mas, mesmo assim, não gostaria de levar uma picada no rosto.

Passado o susto, começou a admiração. A teia dela ficou grudada nas lentes dos meus óculos escuros e, assim que puxei os fios, percebi como eles eram ao mesmo tempo delicados, elásticos e resistentes. Eu já tinha escrito algumas matérias sobre pesquisas que tentam imitar as características da teia de aranha, mas nunca tinha sentido essas características assim de pertinho, na pele mesmo. Resolvi que quando voltasse ao Brasil escreveria algo a respeito.

E não é que, logo na primeira semana que cheguei, apareceu um trabalho na revista PNAS exatamente sobre isso (veja texto abaixo)?! E que, alguns dias depois da minha matéria ser publicada no Estadão, esse tecido feito de seda de aranha entrou em exposição em Londres?! (veja foto acima) Tudo se encaixou perfeitamente. O susto no Sri Lanka me rendeu uma bela pauta no fim das contas.

É incrível as coisas que se pode encontrar na natureza, muito mais sofisticadas do que qualquer tecnologia humana. A seda de aranha dá de 10 a zero em qualquer material sintético que o homem produz atualmente. E mesmo com toda a nossa tecnologia e todo o nosso conhecimento de genética e bioquímica e engenharia de materiais, ainda não conseguimos produzir algo parecido com elas.

O termo “seda de aranha” pode soar esquisito, pois nossa tendência é pensar na seda como um material macio, gostoso, delicado, chique. E é mesmo. Mas você sabe de onde vem a seda que se usa hoje na indústria têxtil? Vem de um outro animal: o famoso bicho-da-seda, que nada mais é do que uma lagarta. Os fios de seda são o que ela usa para construir seu casulo, antes de virar mariposa. Pois então, saiba que aquela echarpe de seda super chique que você usou na última festa de casamento foi produzida nas glândulas de uma lagarta (a indústria simplesmente juntou os fios e teceu a peça, mas quem produziu o material mesmo foi a lagarta). Imagine só!

Com a aranha é a mesma coisa. Só que, em vez de fazer casulos, ela faz teias. E por isso a seda precisa de características diferentes. Precisa ser ao mesmo tempo forte, elástica e flexível, para capturar presas em pleno voo e esticar sem se romper. Algumas teias são tão fortes que podem capturar pássaros e morcegos.

Sem falar na arquitetura das teias, que é algo também impressionante. Como é que uma aranha consegue construir uma estrutura tão complexa?? (veja o vídeo do YouTube abaixo) E saiba você que elas têm até sete glândulas dentro delas, que produzem tipos diferentes de seda, cada uma usada para construir partes específicas da teia. Inacreditável.

As aranhas metem medo. Concordo. Mas garanto que se você botar o medo de lado e observá-las com um pouco mais de atenção, garanto que vai se impressionar também.

Abraços a todos.