UM ACORDO PARA FAZER UM ACORDO … UM DIA, TALVEZ, QUEM SABE

Herton Escobar

09 Março 2010 | 17h09

EXTRA, EXTRA!
Notícias quentinhas da arena diplomática do aquecimento global:
China e Índia anunciaram hoje que aceitam fazer parte do Acordo de Copenhague – uma lista genérica (mas bem genérica mesmo!) de compromissos internacionais relacionados ao problema das mudanças climáticas, apresentada ao final da famigerada cúpula de Copenhague, em dezembro.

DETALHE: O tal Acordo saiu de uma reunião entre China, Índia, Brasil e África do Sul, com participação especial dos Estados Unidos, nos momentos finais da conferência. Ou seja: China e Índia demoraram três meses para assinar o acordo que eles mesmos escreveram. Viva!

O fracasso gritante da cúpula de Copenhague continua a fazer estragos. Ainda estamos a nove meses da próxima conferência (a COP 16, em Cancún) e já tem diplomatas dizendo que “pode tirar o cavalinho da chuva que  esse ano também não vai rolar acordo” …. não exatamente com essas palavras, mas é exatamente isso que eles querem dizer.

Tal pessimismo é plenamente justificado pelo histórico recente das angustiantes e decepcionantes negociações diplomáticas sobre esse assunto. O fracasso de Copenhague foi muito pior do que um banho de água fria. Foi um verdadeiro tiro no peito! A esperança é a última que morre, mas ela está na UTI, e seu estado de saúde é crítico.


Só não morreu de vez ainda porque inventaram esse ventilador chamado Acordo de Copenhague. Nele, os países reconhecem que a mudança climática é um problema grave, que o aquecimento global não deve ultrapassar 2 graus Celsius, que é preciso reduzir o desmatamento, que os países pobres precisam receber ajuda dos países ricos e outras coisas desse tipo. Mas é só. Metas concretas de redução de emissões de gases do efeito estufa? Nada disso.

É como sair de uma conferência de combate à fome dizendo que a fome é um problema sério e que é preciso fazer algo para reduzir o número de pessoas famintas no mundo. Fantástico! Mas quanto cada um vai doar de comida? Quanto cada um vai reduzir seus subsídios agrícolas? Ninguém sabe.
Em resumo: o Acordo reforça uma série de princípios importantes, mas não diz nada sobre como colocar esses princípios em prática. Isso, em tese, fica para a cúpula de Cancún, ou para a próxima cúpula de 2011, ou quem sabe a de 2012, 2013, 2014 …

O texto tem um ponto positivo, que é estipular um valor mínimo de ajuda financeira emergencial para que os países em desenvolvimento consigam lidar com os efeitos mais imediatos das mudanças climáticas: US$ 100 bilhões por ano até 2020. E também reconhece o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal) como um mecanismo essencial de combate ao aquecimento global.

De novo: Fantástico! Mas atenção: o Acordo não tem força de lei! Na verdade, nem chegou a ser adotado como um documento oficial da Convenção do Clima. É só um abaixo-assinado de boas intenções.

É melhor do que nada, claro. Mas é quase nada.

Abraços a todos.

Para ler o Acordo de Copenhague,

Documento

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